SEGUIR OU NÃO SEGUIR, EIS A QUESTÃO

por ALEXANDRE INAGAKI | 30 abril 2009

Ah, a vida e seus dilemas pós-modernos. Agora que o Twitter é a ferramenta hypada do momento, pautando matérias em jornais e revistas, há certas questões que ganharam maior dimensão. Por exemplo, aquilo que @flaviadurante descreveu como a “mágoa do unfollow”: o pescotapa dolorido que o ego, esse bicho besta e orgulhoso, sofre quando você descobre que alguém que você admira deixou de seguir seus posts no Twitter. Pode parecer algo fútil (e é) e inspirou uma tira ótima no blog Joy of Tech, mas o fato é que conheço gente que brigou feio por causa desse dodói geek.

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Em um post sugestivamente intitulado “Se você segue 10 mil pessoas no Twitter você está enganando 10 mil pessoas”, @crisdias refuta a tese de que é preciso tornar-se “follower” de todos que seguem você, por questões de gentileza e reciprocidade (embora haja quem siga tudo quanto é perfil só para aumentar seu número de seguidores). Afirma Cris: “Você não está se relacionando com nenhuma delas, você só está recebendo ruído”.

Em compensação, há quem reclame de um suposto estrelismo de algumas personalidades no Twitter. @cristalk desabafa: “Faz sentido uma pessoa seguida por 3.201 seguir apenas 16? No meu mundo não faz. Onde fica a conversação?”. E complementa: “O bom da internet é a relação horizontalizada entre os usuários. Se não tem isso não tem graça. É melhor voltar a ver TV”.

Alexandre Inagaki escreve em PENSAR ENLOUQUECE e admite: foi masoquista o suficiente para inscrever-se no Qwitter. #prontofalei

FAMA NA INTERNET É TORNAR-SE AUTOR DESCONHECIDO

por ALEXANDRE INAGAKI | 18 março 2009

Um dos problemas de se publicar textos na internet é a facilidade com que pessoas fazem copy-and-paste neles a torto e a direito, muitas vezes apropriando-se da paternidade de versos e prosas paridos após muitas elucubrações e rascunhos intermináveis. Se é má-fé ou lapso do responsável pelos forwards, não importa: o estrago é o mesmo e custa a ser reparado.

O que explica a conduta de certas pessoas que encontram textos na internet e apropriam-se deles, fingindo que foram elas que os escreveram? Eu, por exemplo, já virei autor involuntário de muito perfil no Orkut, graças a pessoas que copiaram minhas palavras sem dar créditos. Foi o que aconteceu com a crônica Pequeno Tratado Sobre a Mortalidade do Amor (http://tinyurl.com/redatorkut), que escrevi há nove anos. Tornou-se anexo de PowerPoint (com direito a gifs animados de pombas voando) e desse vídeo piegas no YouTube (logo abaixo), em versões tão modificadas do texto original que me fizeram até pensar que melhor seria se omitissem o meu nome como autor.

Porém, o Pequeno Tratado não é meu texto mais plagiado. Essa duvidosa honraria pertence a um textículo de 2002 no qual fiz observações de gosto discutível após ter visto em um supermercado rolos de papel higiênico que, segundo a embalagem, vinham com vitamina E (?!) e ofereciam a seus usuários a “suavidade de uma pétala de rosa”. Como todos devem saber, qualquer bobagem na internet é rapidamente disseminada. E assim, mais uma vez, virei roteirista involuntário de vídeo tosco no YouTube:

Se eu, com meus textos bestas, virei autor desconhecido, é de se imaginar o que escritores de verdade como Millôr e Veríssimo sentem ao verem, à sua revelia, suas assinaturas em tudo quanto é tipo de crônica tosca e adulterada. Penso naquelas barracas de camelô que vendem tênis Mike, pilhas Dubacell e jeans Leve’s; há quem não se importa em consumir produtos falsificados…

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Alexandre Inagaki escreve em www.pensarenlouquece.com e concorda com as sábias palavras de André Marmota a respeito de “fama” na internet: blogueiro famoso é igual a Miss Cangaíba!

A VIDA É CURTA E A LUA É BELA

por ALEXANDRE INAGAKI | 1 dezembro 2008

2008 está chegando ao fim, e é impressionante constatar como o tempo parece passar cada vez mais depressa. Mas mês de dezembro é mês de retrospectivas, que farão a gente se lembrar de fatos que parecem ter acontecido há muito mais tempo. Por exemplo: finalmente nos livramos de pagar CPMF. Alguém ainda se lembrava da contribuição provisória mais permanente de todos os tempos? Ok, temos memórias seletivas e esquecemos logo das más lembranças. Mas você sabia, por exemplo, que a ONU declarou 2008 o Ano Internacional da Batata? Bem, creio que é o tipo de informação que nem a retrospectiva da Globo daria, mas enfim…

O fato é que a velocidade com que informações são passadas e repassadas através da internet e, em especial, por sites como o Twitter, faz com que os grandes escândalos da semana passada transformem-se precocemente em links caducos no dia de hoje. E haja memória para recordar que 2008 foi o ano em que Roy Scheider, Beto Carrero e Arthur Clarke morreram, houve terremoto em São Paulo e atentado contra o presidente do Timor-Leste. No ano de acontecimentos que monopolizaram os holofotes midiáticos, como o seqüestro da Eloá, o assassinato da Isabella Nardoni e a eleição de Barack Obama, serão muitos os coadjuvantes esquecidos na História que aparecerão apenas como notas de rodapé na multidão.

Houve época em que eu assistia ao primeiro programa de ano novo do Fantástico para, curioso, ver as previsões feitas por pais-de-santo, astrólogos e a indefectível Mãe Dinah. Bem, não preciso ser dublê de Nostradamus para afirmar que em 2009 alguma ex-Big Brother será capa da Playboy e haverá algum acidente ou escândalo que estarrecerá o país. E não perco mais tempo vendo incautos tentando decifrar o futuro. Como bem escreveu Rubem Braga, “a vida é curta e a Lua é bela”. Feliz Ano Todo para todos nós! =)

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Alexandre Inagaki escreve em Pensar Enlouquece e não resiste a fazer mais uma citação, desta vez de John Lennon: “Vida é o que acontece enquanto fazemos planos”.

SAUDADES ANTECIPADAS DO TREMA

por ALEXANDRE INAGAKI | 12 outubro 2008

No dia 29 de setembro de 2008 o presidente Lula assinou o decreto que estabelece reformas na ortografia de nosso idioma, a serem implementadas a partir de janeiro de 2009. Iniciou-se a contagem regressiva, pois, para o fim do trema, do acento agudo dos ditongos e do acento diferencial em palavras como “pelo” e “polo”.

Se essa reforma realmente simplificasse nossas vidas seria maravilhosa. Contudo, foi acanhada demais. Mudaram algumas regras de acentos, hifenizaram outras coisas (ou seria melhor dizer “infernizaram”?), mas a zona continua basicamente a mesma. Deveriam ter seguido o exemplo de Monteiro Lobato, que em 1920 publicou um livro, Negrinha, cuja ortografia desrespeitava anarquicamente as regras oficiais, abolindo por sua conta e risco acentos que julgava serem despropositados. Se tivessem, simplesmente, acabado com todos os acentos, beleza: o objetivo principal dessa reforma, de tornar mais simples o processo de aprendizado do nosso idioma, seria cumprido. Do jeito que ficou, necas de pitibiriba.

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De minha parte, sei que resistirei a esquentar minha comida em “micro-ondas” hifenizado, botar “pinguim” sem trema em cima da geladeira e ter “ideias” desacentuadas. Mas seremos obrigados a nos adaptar, do mesmo modo que meu pai aprendeu a redigir palavras como “ele” e “cor” sem acentos circunflexos, abolidos na reforma de 1971. Precisarei reconfigurar meu Word, que bota automaticamente acentos e tremas de acordo com as regras ainda vigentes. E espero que inventem em breve algum aplicativo capaz de corrigir todos os arquivos de textos anteriores do meu blog.

Sim, eu sentirei falta daqueles dois pontinhos em cima do “u”. Mas sei que, se a reforma fosse adotar a grafia da galera de MSN que iXcreVi aXxIm, preferiria virar analphabeto.

Alexandre Inagaki escreve em Pensar Enlouquece e propositadamente redigiu esta coluna sem usar qualquer acento, til ou cedilha, pensando em como nossa ortografia poderia ser mais simplificada ainda.

FIM DO MUNDO OU FIM DA PICADA?

por ALEXANDRE INAGAKI | 15 setembro 2008

Se você estiver lendo esta coluna, bom sinal: o mundo ainda não acabou, apesar da série inquietante de episódios estranhos ocorridos neste ano de 2008: terremoto em São Paulo, morte da Dercy, casamento da Sandy etc. etc. De quebra, botaram pra funcionar o LHC, também conhecido como Grande Colisor de Hádrons ou “máquina do Big Bang”. Se você está por fora dessa história, veja o vídeo Large Hadron Rap no YouTube. Saiba, de qualquer modo, que esse acelerador de partículas custou mais de R$ 8 bilhões para ser construído e que, dizem alguns, é um engenho capaz de criar um buraco negro que engoliria eu, você, o planeta Terra e tudo mais que estiver por perto.

Não é a primeira, e espero que não seja a última vez que dizem que o mundo está para acabar. Em 1806, a inglesa Mary Bateman anunciou ter uma galinha que começara a botar ovos com a inscrição “Cristo está chegando”. Mary, que teria conversado com Deus em uma aparição, afirmou que quando a ave botasse o 14º ovo o mundo arderia em chamas. Não demorou para que a verdade fosse revelada: Bateman redigia as mensagens em ovos que eram depois inseridos dentro das entranhas da pobre galinha.

Outra data marcada para o fim de tudo foi 22 de outubro de 1844. Invencionice do reverendo Samuel S. Snow, que convenceu milhares de protestantes norte-americanos a venderem tudo que possuíam e subissem até o cume de um morro para que ficassem mais próximos de Jesus. O apocalipse não veio, e a data ficou marcada como o Dia do Grande Desapontamento (lembram de um filme chamado “Fé Demais Não Cheira Bem”?).

Já Roldão Mangueira, líder da seita Borboletas Azuis, na Paraíba, profetizou que o mundo acabaria em 13 de maio de 1980, após 120 dias de dilúvio. Necas de pitibiriba, é claro. Mas um homem que cria uma seita com um nome desses não poderia mesmo estar falando sério…

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Alexandre Inagaki escreve em Pensar Enlouquece e recomenda It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine) como trilha sonora deste post.

QUESTÕES DE P(H)ODER

por ALEXANDRE INAGAKI | 10 agosto 2008

Política é um assunto que deveria ser levado a sério. Mas ficará difícil fazer isso quando a próxima leva de candidatos bizarros estrelar um dos melhores (ou piores, dependendo do ponto de vista) humorísticos involuntários da TV brasileira: o Horário Eleitoral Gratuito.

Eleições anteriores foram marcadas por candidatos com alcunhas (in)esquecíveis, como Sonia Perereca, Tia Cida do Transporte Escolar e Rogerinho da Parati. Mas o que dizer dos slogans? Difunto, em sua candidatura a vereador em Mogi das Cruzes, dizia: “Político bom é político morto, vote em Difunto”. Gê, da cidade mineira de Carmo do Rio Claro, bradava: “Não vote em A, nem em B ou C; na hora H,vote em Gê!”. Enquanto isso, o travesti Galo Véio, de Formiga, MG, afirmava: “Sou o único sem o rabo preso”. Já Dinha Tinelli, de Descalvado, SP, trocadilhava: “Tudo pela Dinha”. E por aí vai.
Esses membros do grande circo da política tupiniquim foram devidamente reprovados nas urnas. Não foi, porém, o caso da stripper Deborah Soft, que nas eleições municipais de 2004 foi a oitava candidata mais votada em Fortaleza. Neste ano, ela sofrerá a concorrência de Katia Heffner – conhecida por promover festas para “casais liberais” na Boate Kubalada –, candidata com o singelo número 14.069.

Personalidades também darão as caras nestas eleições. A ex-chacrete Rita Cadillac é candidata a vereadora em Praia Grande. A “Freak Le Boom Boom” Gretchen tentará ser prefeita de Itamaracá, PE, enquanto sua filha, Thammy Gretchen, quer ser vereadora em São Paulo. Mas ela terá concorrência dura, com e sem trocadilhos. Disputará uma vaga na Câmara Municipal com Oscar Maroni Filho, o “empresário do sexo”, Kid Bengala – pornstar que, aos 54 anos, estrelou produções como Clube das Peludas, Coroa Nota 1000 e Casal no Pau – e, ráááá, ninguém menos que Sérgio Mallandro, o eterno interprete de Vem Fazer Glu-Glu. Pegadinha nas urnas?

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Alexandre Inagaki escreve em www.pensarenlouquece.com e recomenda aos leitores da PIX que procurem no YouTube os vídeos dos candidatos Super Zefa, Zé Muniz do Pinico e Super Moura. Diversão garantida (ou não).

LOUCADEMIA DE TRADUTORES

por ALEXANDRE INAGAKI | 15 julho 2008

Internet é um imenso relicário de cultura deliciosamente inútil. Um dos hábitos que tenho, por exemplo, é colecionar as mais esdrúxulas traduções de títulos de filmes que encontro por aí. O caso mais sintomático dos últimos tempos é da obra que deu a Sofia Coppola o Oscar de roteiro original: “Lost in Translation”.

A transposição simples para o português, “Perdido na Tradução”, sintetizaria muito bem o espírito do filme estrelado por Bill Murray e Scarlett Johansson. No entanto, qual foi o título no Brasil? “Encontros e Desencontros”. Poderia ser pior? Claro, minha íntima amiga Lady Murphy vive dizendo que não há nada que esteja ruim que não possa ser piorado.

Em Portugal, o filme ganhou a alcunha de “O Amor é um Lugar Estranho”. Brasileiros e portugueses, diga-se de passagem, concorrem acirradamente a fim de ver quem cria os títulos mais infelizes de filmes. Vide “Ferris Bueller’s Day Off”, literalmente o dia de folga de Ferris, clássico dos anos 80 estrelado por Matthew Broderick. Enquanto o locutor da Sessão da Tarde vive anunciando reprises de “Curtindo a Vida Adoidado”, os portugueses o conhecem pelo singelo epíteto de “O Rei dos Gazeteiros”.

Já “City Slickers”, comédia sobre três homens da cidade perdidos no velho oeste, foi rebatizado por aqui como “Amigos, Sempre Amigos”. Porém, nossos amigos lusitanos foram mais filosóficos e tascaram: “A Vida, o Amor e as Vacas”. Enquanto isso, “Vertigo”, obra-prima dirigida por Alfred Hitchcock em 1958, tornou-se “Um Corpo Que Cai” para os brasileiros e, pasmem, “A Mulher que Viveu Duas Vezes” para os cinéfilos lusitanos.

Por Tutatis, conseguiram a façanha de criar um título-spoiler! Imaginem como seriam os títulos se essa moda pegasse: “Sexto Sentido” viraria “Um Médico do Outro Mundo”, rebatizariam “Os Suspeitos” como “O Perneta Mentiroso”, “Cidadão Kane” seria “Um Trenó Chamado Rosebud”, e por aí vai…

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Alexandre Inagaki agita altas confusões com uma turma da pesada aprontando todas no blog Pensar Enlouquece.