VEM NI MIM LIBERDADE

por ROSANA HERMANN | 25 novembro 2010

freedom

Cadê a liberdade? Aquela liberdade moleca, pé na jaca, do jeito livre de ser, de agir, de fazer o que bem se entender? Sumiu. Não está na vida real, nem na virtual. A internet passa uma falsa impressão de liberdade.

Você acha que pode falar e escrever tudo o que bem entender, quando está, na verdade, produzindo provas contra você o tempo todo. Você abre uma câmera em qualquer lugar da sua casa e já começam os delitos. Se estiver tocando uma música de fundo, tem que pagar os direitos autorais.

Já tive um vídeo do YouTube silenciado assim, apenas porque estava tocando uma música no rádio naquela hora. Se tiver um pôster na parede com a imagem de alguém, você pode ser processado pelo uso indevido dela. O mesmo acontece quando você posta uma foto de si mesmo na rua e enquadra outras pessoas.

É muito louco, não se pode fazer mais nada. Nada. Tudo é ilegal, tudo é errado, tudo acaba em briga e discussão. Enfim, acho que, com todo o alcance e todos os tradutores online, estamos vivendo Babel. Ninguém se entende. Se você tem uma profissão, tem que exercê-la 24 horas por dia, na cabeça das pessoas.

O jornalista não pode falar merda porque “fere sua credibilidade profissional”. Mas nem numa festa? Não, não pode. O professor de educação física não pode ter preguiça, o atleta não pode tomar uma cerveja, o artista não pode se vestir mal. Todos têm uma obrigação com a “imagem pública”. O humorista tem que ser engraçado o tempo todo, e, se ficar bravo com motivo, se for maltratado por uma empresa e reagir mal, vai ser achincalhado em seu talento. Como um humorista fica de mau humor? Absurdo!

Somos todos escravos dos condicionamentos, e a liberdade é uma abstração. A gente quase NUNCA faz o que realmente quer. Você come porque está na hora do almoço, vai dormir porque tem que acordar cedo no dia seguinte. Skinner, exatamente como aquelas experiências famosas dos ratinhos condicionados. Condicionados estamos todos.

Apertamos o botão, digitamos o número, entramos com a senha. Obedecemos às regras, cumprimos a lei, mudamos o horário quando o governo determina. Paramos no semáforo vermelho, damos sinal para fazer a conversão. Somos todos bons cidadãos. Claro que isso é bom, essencial para mantermos o convívio. Temos mesmo que respeitar as leis e recolher o cocô de cachorro. Mas… e a liberdade? Quando é que ela chega? A liberdade, como no filme de Buñuel, é um fantasma. Um espectro do que a gente imagina.

Uma ilusão.
Só a liberdade é livre.
Todos nós somos escravos do seu desejo.

un-chien-andalou


A CARA DO BRASIL

por ROSANA HERMANN | 17 agosto 2010

Tem dias que eu tenho pena do Brasil. Tem dias que eu tenho raiva. Tem dias que eu faço a egípcia e finjo que não sou daqui. Mas eu amo o Brasil. O que eu não amo é essa contradição, a falta de bom senso, tanto no pessoal quanto no profissional, tanto no real quando no virtual.

Exemplos? Passaporte novo. O novo passaporte brasileiro não tem a filiação da criatura. Não tem o nome da mãe e do pai do fulano de tal. Por isso, se o Fulano Jr. for menor de idade, ele tem que levar o R.G. junto com o passaporte para apresentar para as mesmas autoridades que emitem o passaporte, ou seja, para a Polícia Federal. Pode isso, Arnaldo? Não pode, mas é assim.

Vamos para as eleições. Agora, para votar, não basta levar o título de eleitor. Você tem que levar o RG ou a Carteira de motorista porque o título não tem foto. Como assim, Bial? Tem que levar dois documentos porque um não basta? Isso mesmo. Você leva o título como documento e um outro documento a título de identificação.

Essas coisas, que são a cara do Brasil, foram reproduzidas na vida online, mais especificamente nos Trending Topics do Twitter. Nunca se viu tanta bobagem, tanta inutilidade, tanta superficialidade numa dezena só. Como boa brasileira, costumo participar de quase todos os memes, ao mesmo tempo em que sou contra os mesmos. Faz parte da minha natureza contraditória. Ou não.

Mas há uma explicação ilógica para isso: isoladamente, cada Trending Topic é engraçado, mas quando você junta dez vira um prato cheio… De merda! Sério, sem querer ofender os eventuais trendintopicados que estejam na lista neste dado momento em que você está lendo, mas se alguém de fora olhasse a lista como um termômetro da nossa cultura, como uma medida dos nossos interesses, o Brasil iria pro fim da fila dos países desenvolvidos. Só tem sacanagem, tranqueira, putaria, tonterias infantilóides. E quando tem um nome que presta, pode ver, é de um morto. Realmente é de matar.

Não quero bancar a erudita, mas poxa vida (#pcsiqueirafeelings), a gente podia ter algumas coisas que nos dessem orgulho dos TTs. Qualquer coisa. Um livro. Um filme clássico. Um sambinha. Um sabor de pizza. Um bolo de cenoura. Sei lá. Qualquer merda.

Mas não. São quase duas horas da manhã e quase no topo dos Trending Topics, entre Iron Maiden e Ursinhos Carinhosos, está Valeska Popozuda.

Tem dias que eu tenho pena do Brasil.
Hoje é um desses dias.


Um beijo, um browse, um aperto de mouse da Rosana Hermann

O FUNIL, A VUVUZELA, O ORKUT E O TWITTER

por ROSANA HERMANN | 6 julho 2010

Ninguém sabe onde vamos enfiar tantas vuvuzelas quando a Copa do Mundo acabar. Funil seria um bom uso para o instrumento, mas quem usa funil? Você já usou um?

Tenho quase certeza que você nunca usou um funil pra nada.

E digo mais: se você abrisse uma comunidade no Orkut chamada “Eu nunca usei funil” encontraria adeptos. Não muitos, já que o Orkut não é mais o mesmo. Mas, quem sabe, se você abrisse um perfil no Twitter chamado @FunilServePra …?

Já pensou? Que genial? Você botaria um monte de funis no background e um avatar animado com aquele garotinho soprando a vuvuzela amarela e na Bio você escreveria: ‘meu nome é vuvuzela, mas pode me chamar de funil’. Olha que criativo.

O primeiro tweet seria @FunilServePra sua vó surda escutar melhor. OUVIU?!?!  KKKK. Gostou? Não, né? Também achei ruim. Bem ruim.

A idéia de criar perfis que expressam ações, sentimentos, lembranças, manias, como @SempreMeLembroQuando, @EuJáSaíComUmaMeiaDeCadaCor@DêReTweetSeVocêTemPiercing ou @EuNuncaViMinhaMãePelada não deixa de ser um uso transgressor, diferente do que o Twitter originalmente propõe. Mas é uma criação de segunda ordem, um subproduto das comunidades do Orkut. O problema é que muita gente que só conhecia o Orkut e foi pro Twitter, levou o mesmo espírito pra lá. Só que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Se o Orkut era um quintalzão de terra, onde a molecada podia trepar na mangueira e correr descalça, o Twitter é o playground espremidinho no fundo da área de serviço do prédio, onde só dá pra balançar em 140 caracteres, 70 pra frente, 70 pra trás. Ainda assim dá pra inventar muita coisa, mas de um jeito novo.

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Dá pra perverter os Trending Topics, enganar gringo, inventar hoax, fazer pegadinha, falsificar perfil, trocar o L pelo I no nome, roubar o bg e o avatar do outro, trollar em turminha, dar RT em post que nunca existiu, fazer FF na 6ª. Dá pra mandar bobagem pro @aplusk e fingir que mandou DM pro @barackobama. Dá também pra conversar, trocar links, aprender, ler notícias, divulgar coisas. Dá pra falar com famoso, ficar famoso, arrumar treta, assistir briga, trocar idéias, conhecer e perder amigos.

O que não dá é pra você chegar agora no Twitter e perguntar se o outro beijaria a pessoa que está acima na timeline. Quer dizer, você até pode perguntar. Mas é bem provável que leve um dois unfollows, cinco blocks e duzentos report for spam. Porque Twitter não é Orkut e vuvuzela não é funil. Tonto de Orkut no Twitter gera #JeremiasFeelings: se eu pudesse bloqueava mil!


Um beijo, um browse, um aperto de mouse,
@rosana


:// – TWITTER PENIS ENLARGEMENT

por ROSANA HERMANN | 8 junho 2010

A regra é clara: quem tem muito seguidor no Twitter é fodão, quem não tem é cuzão. Eu não sei quem fez a regra. Já estava assim quando eu cheguei.

O povo quer ibope, fama e um lugar ao sol nos Trending Topics da Sôxáu Midja. A busca por follower passou a ser a mesma busca pelo Penis Enlargement. A única diferença é que, em vez de spam na sua caixa de e-mails, agora tem mensagens automáticas na sua timeline.

De repente, aparece um tweet automático como “mtas novidades e + de 75490 seguidores em 1 dia” É um método novo de marketing, porque faz a propaganda do site ao mesmo tempo em que já denuncia o usuário. ://

Funciona mais ou menos assim: os sites que aumentam o pênis do seu Twitter pedem só três coisas: seu login, sua senha e o seu loló. Tem que ser totalmente Cláudia e gostar muito de “sentar lá” pra dar login e senha pro primeiro que aparece na web. Mas as pessoas dão. Por que confiam? Porque funciona.

Funciona porque, com seu login e senha, dá pra penetrar no seu perfil e seguir todo mundo que também usa o serviço. Assim, se 100 mil pessoas dão logins/senhas, o site pode fazer com que umas sigam as outras, capisce?  Aí você vê um monte de gente seguindo e sendo seguida por trocentos mil perfis. É que nem mullet, é datado, mas tem gente que usa.

E o que eu tenho com isso? Nada. Cada um faz o que quiser. E, se o Twitter não gostar, ele suspende, taca um passaralho na sua conta e piu.

No Twitter vale tudo. Só não vale uma coisa: avisar que vai dar unfollow. Tem que ser muito nanocéfalo pra fazer isso. Anunciar publicamente que vai dar unfollow é como peidar no microfone pra avisar que vai cagar.

Tá, ok, a pessoa quer aumentar o pênis, produzir milhares de tweets automáticos que baleiam o Twitter de todo mundo. E usar botão de unfollow como pode. Não tenho nada com isso também.

Mas que é uma #putafaltadesacanagem com a família Restart, isso é.


Um beijo, um browse, um aperto de mouse da Rosana Hermann

DOIS PONTOS BARRA BARRA

por ROSANA HERMANN | 19 março 2010

Eu nunca tinha associado a palavra ‘barriga’ à ‘barrica’, igual aquela do Chaves. Vai ver nem o seu Barriga ligou uma coisa à outra. Fato é que barriga vem daí mesmo, de um pequeno barril.

Muita gente também ficou de queixo caído quando descobriu que o verso original de ‘batatinha quando nasce esparrama pelo chão’ é ‘espalha ramas pelo chão’. Porque é isso que a batatinha faz quando nasce, quando brota: espalha ramas pelo chão todo.

São muitas as palavras que a gente diz sem pensar, sem perceber o sentido original. Como o armário, um móvel que foi concebido para guardar armas, não roupas.

A gente vai vivendo, vai navegando distraído e acaba não percebendo os detalhes escondidos nas entrelinhas. Ou nas entreletras

Foi o que aconteceu comigo nesses mais de quinze anos de navegação online. Devo ter visitado milhões de páginas. (Juro, eu fiz um cálculo aproximado para saber se eram centenas de milhares ou milhões. Milhões). Sempre digitando as urls, vendo endereços, sem dar muita bola pra detalhes menores.

Até o dia que percebi que, bem ali, espremidinho entre o HTTP e os famosos WWW, estava um emoticon, singelo e simpático, olhando de ladinho pra mim, com aquela carinha de ‘me tira daqui’, o dois pontos barra barra.

://

Resolvi libertar o coitadinho. E dei a ele o nome desta coluna.

É disso que vou falar aqui. Das coisas que a gente esquece de perceber. Do que a gente vê e não sabe. Ou nem sabe que sabe.

Dois pontos barra barra.

Parecia um sapinho querendo um beijo pra virar príncipe.

Smack.

Um beijo, um browse, um aperto de mouse da
Rosana Hermann