por COLUNISTAS | 5 maio 2011

A INTERNET TINHA TUDO PRA DAR CERTO…

*por Dino Cantelli

No princípio, em Boelter Hall, na Universidade da Califórnia, Los Angeles, criou Deus a Internet. E a Internet era inabitável, incógnita e vazia; havia trevas e uma tela verde frente à face de um óculos fundo-de-garrafa. Os espíritos de um novo ambiente de comunicação se moviam ao largo dos circuitos integrados.

E disse Deus: haja transferência; e houve transferência. E viu Deus que era boa a transferência; e fez a separação entre o que era Off-line e o que era On-line.

Chamou à transferência de Rede Mundial de Computadores; e às trevas, Conexão Inválida. E ficou no primeiro dia 24 horas conectado. Jogando Counter Strike possivelmente com o capeta.

E disse Deus: haja expansão desse serviço! E que haja a separação entre rede interna e rede externa. E fez-se a expansão, a separação e a aglutinação de arquivos em um espaço fora dali. Chamou a essa expansão nuvem de tags, e assim foi, com a conexão indo e vindo, o quarto dia. Isso porque no terceiro o técnico de informática não fora encontrado, e quando apareceu, mandou formatar.

Disse então Deus: agora vai. E criou os ambientes para as trocas de arquivo, para a produção de conteúdo, postagem de fotos, compartilhamento de vídeos e, principalmente, a disseminação da nova linguística feita a quatro patas: a internética.

Disse Deus: bom, agora façamos o usuário à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os textos de literatura, de ciência, sociedade civil, lógica e sobre todo o político que se move e rasteja sobre a terra.

E criou o usuário à sua imagem. Homem e mulher, tão idênticos em sabedoria e tolice, que só se preocupou em deixar um campo para a informação do sexo na hora do cadastro.

Os abençoou, e disse-lhes: criai e modificai todo o conteúdo da Internet a sua maneira. Eis que vos tenho dado Blog, Youtube, Orkut, Facebook, Foursquare, Twitter e o caralho a quatro. Que isto lhes sirva para alimentar o ego, a amizade, a interação, bons links e, se pá, a boa comunicação.

E Deus sentenciou: todos aproveita. Foi aí que fodeu tudo.

Os comentaristas de blog foram os primeiros desvios da criação. Confundiram sistematicamente democracia com liberdade para chamar o autor de filho de puta. Tudo em um dialeto muito próximo ao aramaico free style. O “first” foi, por assim dizer, a legítima primeira praga.

A ironia perdeu a batalha no Paraíso. E travestido do mal, surgiu o Troll. A serpente que habita o mundo cibernético e que tem às mãos a maçã que não necessariamente é um Apple. Encontrou no meio virtual a base perfeita para a zoeira, a provocação e ver o Reino dos Céus pegar fogo.

Disseminado o mal da linguagem, o Orkut trouxe a dúvida e o pecado. Os verões nunca mais foram os mesmos com aqueles álbuns salientes da prima Verônica e seu vestido tomara-que-me-coma.

Sábio de sua derrota, Deus compilou todos os erros possíveis da Criação nesta rede social.

A linguagem se diversificou e uma nova raça surgiu: os Orks, recheados de Kkks e tudo o que um cérebro avesso à escrita comporta. Sua comunicação rudimentar consistia basicamente em adivinhar frases. Analfabetos que juntam letras criaram o coraçãozinho com a mão, a frase com até cinco sentidos e a falta de senso de ridículo sobre uma laje. E, não bastasse, compartilharam parte disso no Youtube. Quando abriram os comentários houve dor e ranger de teclados.

O Facebook, como uma tentativa de gambiarra divina, tentou impor alguma lógica à criação, trazendo aos limiares uma nova raça: a descolada. O mesmo mal começou a assolar esse espaço. Foram-se as os coraçõezinhos feitos com as mãos, vieram mochileiros com fotos em que seguram a Torre de Pisa. Foram-se os “naums” e os “corrãos”, ficaram os convites para jogar CityVille.

O troco de Satanás veio em 140 caracteres. O Twitter.

A velocidade do pensamento tal qual uma ejaculação precoce. Deus entrou em desespero e começou a dar os primeiros blocks.

O pensamento mais curto que a própria frase. A tentativa desesperada de criar o próximo meme, como se as interações humanas só fossem na base do código. A decepção se abateu no divino. O unfollow do Criador foi anunciado. E as criaturas bradaram com o discurso chulo já pronto:

Dar unfollow e a bunda é coisa que não se anuncia.

E no vale das sombras dos que tem menos de mil seguidores ouviram-se lamentos e formas esquisitas de risadas. Feitas por quem batem com a cabeça no teclado ao menor sinal de interpretação de texto.

Disse-lhes o Senhor: pode formatar. O técnico, até o fim dos tempos, deve aparecer. Fica, vai ter Juízo Final.

 

*este texto foi originalmente produzido para o painel Yo Hablo Internetz que rolou no último youPIX Festival.


Gosto de arrumar encrenca, tomar porre, falar mal dos outros, empurrar manco de escada, dar tranque em cego e cobiçar a mulher do próximo – dinojordani@gmail.com -playboy.abril.com.br/blogs/o-mundo-segundo-tio-dino

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