Meu primeiro ano no segundo grau foi divertido. Dentre as muitas coisas que aconteceram de novo, além do primeiro zero (em física), foi nesse ano que ganhei minha primeira suspensão, por fazer parte da turma do fundão.
Enquanto todos tentavam se explicar, eu fiquei calado, esperando a hora de me justificar. Mesmo falando na hora certa, não adiantou muita coisa, e passamos o dia lá na sala da diretora, eu e todos os meus companheiros de fim de sala.
Quando a diretora me por viu lá, ficou surpresa: por mais bagunça que eu fizesse na aula, minhas notas eram ótimas (tirando a primeira prova de física).
Eu não tinha o perfil esperado de quem “toma suspensão”. Nesse dia ela me disse uma coisa que eu nunca tinha percebido, e que talvez explique a estranheza da diretora: diferente dos meus amigos, eu sabia escutar. Como eu prestava atenção na parte importante da aula, apenas o suficiente pra aprender a matéria, podia brincar durante o resto da aula que minhas notas continuavam boas. Foi difícil manter meus amigos por causa disso.

Corta pro presente.
Nos últimos meses deste ano me envolvi em diversos projetos com um forte elemento de colaboração: Fiat Mio e TEDx Amazônia, entre outros. Em todos eles procuramos exercitar a colaboração na prática, e, por mais inovadores que tentamos ser, o dia a dia se resumiu a ensinar nossos clientes e parceiros a ouvir.
Depois de anos e anos apenas falando, acho que as marcas, e as pessoas que fazem as marcas se comunicarem, desaprenderam a ouvir. O que colocar no Twitter? Com qual frequência? Com qual tom? Respondemos todos os posts que recebemos? Todos em que somos citados? Muitas dúvidas para uma simples questão: como participar, verdadeiramente, de uma conversa?
Ao lembrar desse meu episódio do segundo grau me caiu uma ficha, uma ficha bem velha, daquelas do tempo em que telefone público não era a cartão: temos que reaprender a ouvir para participarmos da conversa, e nós, publicitários, após reaprendermos isso, temos que ensinar nossos clientes a ouvir.
A sinceridade que passaremos a construir com nossos amigos-consumidores talvez faça a gente perder alguns amigos no caminho, mas vamos ganhar muitos outros com os quais vale a pena dividir um dia de suspensão na sala da diretora.
.quem escreveu
- RAPHAV @raphav Rapha Vasconcellos se disfarça de 'raphav' pela web. veja + posts do autor



