Outro dia fui chamada pra participar de um debate pra comentar alguns pontos de uma pesquisa feita com ~heavy users~ da Internet durante a Campus Party Brasil desse ano. Os pesquisadores queriam que eu comentasse um slide em específico, abaixo, em que pediram pra galera atribuir uma nota de 0 a 10 pro grau de confiança nas informações que determinadas instituições forneciam:

Obviamente, todos os olhos estavam voltados pra deprimente 5a posição da imprensa na lista, que só perdeu pro governo no quesito confiança. Realmente, é bem triste!
Mas o que mais me assustou foi “Escolas e Universidades” aparecendo em 1o lugar…
Que tipo de informação as “Escolas e Universidades” estão fornecendo pros jovens? Escolas eu não sei, mas as universidades no Brasil – em geral, mas sem generalizar, sei que tem exceção - não estão muito conectadas com a “vida real”, não estão na vanguarda de nada e nem produzindo muito material intelectual inovador. Daí que eu fiquei preocupada dos jovens botarem tanta fé em informações tão pouco “provocadoras”.
Junto comigo na mesa estava a professora Beth Saad, que está brilhantemente a frente das pesquisas acadêmicas digitais da USP (taí uma das exceções de que falei acima) e, claro, contestou dizendo que pessoas ~de fora~ gostam de atacar a academia mas que essas pessoas são deslumbradas por acharem que estão a frente da inovação mas, no final, não sabem de nada.
Isso me fez lembrar do caso de uma palestra que dei sobre cultura de internet em que, no final, um cara lá no fundão levantou (leia aqui) e me perguntou: “Muito interessante isso tudo o que você está mostrando… mas… você já leu os grandes clássicos?“.
Trabalho com cultura de internet há 6 anos e, seja em forma de revista, site ou eventos, faço um trabalho diário pra tentar entender o que se passa na cabeça dos milhões de jovens que passam o dia conectados criando uma nova cultura. Não é uma pesquisa acadêmica, mas será que isso realmente não me habilita pra emitir opinião sobre o assunto?
Já cansei de convidar professores e pesquisadores pra participar do youPIX Festival, mas são poucos os que se sentem confortáveis pra estar num ambiente em que a informação corre horizontalmente e o conhecimento não é exclusividade de quem tá no palco ou na frente da classe.
Aliás, acho que aí que está o ponto: CONTROLE! A imprensa não controla mais a informação, os acadêmicos não controlam mais o conhecimento.
Com o ~advento da internet~ todas essas coisas correm soltas – opinião, informação, expressão. Nada é de ninguém e tudo é de todos. Obviamente não estou propondo acabar com as instituições acadêmicas e afins, mas acho que seria bem produtivo se, ao invés de “deter o poder do conhecimento”, eles dividissem esse conhecimento com a galera do lado de cá.
Daí que eu tava com isso na cabeça quando me deparei com uma coluna do Paulo Coelho na revista Época de umas semanas atrás. Independente da sua opinião sobre os livros do cara, ele tem uma noção muito sóbria e interessante sobre o universo digital (leia nossa entrevista com ele aqui) e sobre a maneira como a informação deve circular livremente:
“O INTELECTUAL ESTÁ MORTO. VIVA O INTERNECTUAL!”
As notícias do chamado “mundo literário” parecem retiradas do livro das lamentações de Jó: não há mais espaço nos grandes veículos de mídia para discussões sérias, a lista dos mais vendidos só publica coisas para a garotada, os brasileiros não são lidos no exterior porque ninguém se interessa em traduzi-los. O Ministério da Cultura gastou uma fortuna na Europalia, um dos mais importantes eventos culturais do Velho Continente, sem conseguir absolutamente nenhum resultado além de dilapidar seu orçamento. Eventos como a Flip chamam atenção provisória, mas os autores que ali se apresentam, depois que tudo é dito e discutido, não ganham outra projeção além da que já tinham junto aos seus pares.
Mas quem são esses pares?
Para detectar intelectuais, pergunte o que é um “efeito viral”. Dirão que se trata de uma epidemia (possivelmente de dengue). Vá mais adiante e procure saber o que é uma “campusparty”. Respondem que são festas organizadas em campi de universidades americanas na formatura de alunos. Finalmente, para tirar qualquer dúvida, peça que digam o que pensam dos livros eletrônicos. A resposta inevitável será: “gosto do cheiro do papel”, como se odor interferisse na leitura ou nas ideias expostas no texto.
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