O JARDINEIRO É MARK ZUCKERBERG, MAS AS ÁRVERES SOMOS NOZES
por Fabiane Secches, escritora e leitora compulsiva… inclusive na/da internet.

Sempre fico intrigada com o argumento de que, nas redes sociais, somos apenas uma ~versão idealizada~ de nós mesmos. Oras. Se cada um de nós é tantos, por que os nossos ~alter-egos~ na internet também não seriam nós?
Vários (bons) textos pipocaram recentemente sobre nossa dificuldade em separar a pessoa real da persona virtual (aqui, aqui e aqui). Mas será que sair do Facebook vai mesmo resolver toda a nossa angústia? Será que, ao matar o seu eu ~zuckerberguiano~, você vai conseguir reencontrar o seu eu verdadeiro – seja lá o que isso signifique?
Será que a gente conseguiria deixar de atuar em todos os outros lugares também?
Sim, porque a gente sabe que a ~rede mundial de computadores~ é poderosa, e que o Facebook é quase um templo, mas também é ~só~ mais um lugar. E quem frequenta e define a dinâmica deste lugar somos nozes.
O jardineiro pode ser Zuckerberg, mas as árveres somos nozes. ;-)
Pensa comigo: se você tem um encontro com aquele gato/gata de quem está super afim, vai ou não vai escolher mostrar as suas melhores qualidades? A garota de cabelo encaracolado talvez alise o cabelo, a roupa vai ser aquela que valorize isso e esconda aquilo… porque ela sabe (ou acha que sabe) o que merece ser valorizado em si.
Se você está numa festa e alguém vai tirar uma foto, já se empina todo, murcha a barriga e, com sorte, consegue mostrar o seu lado preferido (eu nunca descobri se o meu é o esquerdo ou o direito, mas invejo quem tenha). Se você puder escolher, manda até no enquadramento (“debaixo pra cima não que engorda!”). Quem nunca deletou arquivos da máquina ou do celular de um amigo porque não gostou da foto que atire a primeira pedra. Nem Gisele salva, eu aposto.
Afinal, quem vai querer eternizar o que é ruim?
Percebo hoje uma expectativa irrealista, e até cruel, sobre qual seria o comportamento ~ideal~ nas redes sociais. Me diga com honestidade: quem seria tão tolo de perder a chance de fazer uma curadoria de si mesmo? Social media sempre foi muito mais mídia do que social. Estamos todos vendendo nosso peixe.
Em uma campanha recente, o McDonald’s foi elogiado por admitir que sim, a foto do sanduíche tem toda uma preparação e um cuidado estético que o sanduíche real não corresponde. Por que é, então, que a gente tem que pegar tão pesado com quem está tentando fazer o mesmo consigo?
Maquiagem pode. Wonderbra pode. Silicone pode. Escova progressiva, botox, bomba e liposapiração… tudo pode. Mas não pode tentar mostrar o melhor do que você é porque isso é desumano? Será?
Me lembrei de Agrado, personagem de Almodóvar em “Tudo Sobre Minha Mãe“, um travesti que, ao enumerar todas as cirurgias que passou, diz: “uma pessoa é mais autêntica quanto mais ela se parece com o que sonhou de si mesma”. Coisa linda.
Talvez tudo que chamamos de exibicionismo e narcisismo revele muito mais a nossa insegurança e a nossa confusão durante essa busca. Somos errantes. Estamos tateando entre as tantas possibilidades que este ~novo~ universo nos traz.
Algumas pessoas, de fato, se perdem no meio do caminho. Mas será que a culpa disso é do Facebook mesmo? Concordo que os bichos estão soltos, mas Henry Jenkins já disse que o que não é compartilhado está morto.
É maravilhoso, então, que a internet nos ofereça cada vez mais mecanismos de dividir o que vivemos. O problema é dividir antes de viver, ou no lugar de viver. É isso que nos causa a sensação de vazio.
Nunca escrevemos tanto, e nunca tivemos tão pouco a dizer.
Mas, entre todas essas reflexões tão oportunas sobre as máscaras sociais, cabe também um pouco mais de compreensão e menos julgamento, não acham? Menos pesar e mais humor, sabe? Podemos tentar ver a graça e não a desgraça da nossa condição.
Tentamos impressionar uns aos outros desde que o mundo é mundo. A grama do vizinho parece mais verde desde a época das cavernas. E continuaremos fazendo isso com ou sem perfil no Facebook. O Fabrício Teixeira sempre escreve ótimos posts sobre o assunto no Update or Die, como este aqui que lista as 20 maiores mentiras que contamos nas redes sociais. Mas e na vida, é tão diferente assim?
Likes nunca vão substituir abraços. E, claro, ninguém tem mil e tantos amigos. Então, quando as redes sociais estão inflacionando demais o mercado das pessoas e coisas sem significado para mim, eu me afasto.
A Nina Lemos escreveu que largar o Facebook é o novo mudar para o campo (já leu?). Muitos amigos queridos e pessoas que eu admiro, infelizmente, estão se mudando para o campo. Não tenho nada contra o campo, mas a cidade fica mais triste sem elas.
Meu desejo é que, depois do d-tox, a gente relembre que não precisa mudar de paisagem se pode mudar o olhar. Amigos, vivam seus períodos sabáticos, mas voltem. Voltem ainda mais interessantes, com mais vivências que mereçam ser compartilhadas.
Aí sim o Facebook, como qualquer outro lugar, poderá ser mais do que um mundo de aparências e amenidades. Poderá ser um lugar onde a gente se permite experimentar, errar e, quem sabe, ~só~ quem sabe, também aprender a ser pessoas melhores.
E mais completas porque mais plurais.

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