O MURO E A INTERNET

por COLUNISTAS CONVIDADOS | 13 junho 2011

Em 77, quando o Pink Floyd estava tocando em Quebec, Roger Waters se irritou com um fã. Eles estavam tocando músicas cheias de críticas ao capitalismo, coisa e tal e tinha um fã que ficava lá “UHUUU, TOCA AQUELA FAMOSINHA, BLÁ BLÁ”. Waters ficou tão puto, que no fim do show cuspiu na cara daquele fã. Surpreendido com a própria atitude, o músico, literalmente, criou um muro que separava os fãs do palco.

O muro, que também foi o tema do álbum e do filme The Wall, tornou-se uma crítica ao isolamento que temos do mundo e das pessoas. Ele é construído por medos, arrogâncias, falhas do sistema, etc. Ele é a dor e a angústia de cada pessoa, que depois se transforma em agressividade e ignorância. Cada fator é um tijolo e o muro está presente por toda sociedade.

INCLUSIVE NA INTERNET
Afinal de contas, quem nunca viu um blogueiro “cuspir na cara de um leitor”? E que blog ou site não tem esse fã, todo “empolgado” com o seu trabalho, que na verdade não faz ideia do que você realmente está tentando dizer? E nem procura saber.
O tal muro pode ser um avatar, um fake, o anonimato, um blog, a sua personagem na internet, qualquer coisa. Pode ser esse o muro que isola as pessoas da realidade. E não a internet em si, como dizem por aí.

Os trolls são o melhor exemplo. Estão todos cercados e “protegidos” pelo muro do anonimato. De lá, eles podem ser os malandrões. Os reis da websfera. Na verdade, nem precisa do anonimato. Basta saber que todos estão longe de você. E que você está numa ilha chamada internet. Nela todos estão seguros, mas também estão isolados.

A web interliga diversas pessoas. O problema é que esses indivíduos conectados também estão separados pelo muro. É um paradoxo total. Uma rede que conecta pessoas e que, mesmo interligadas, continuam isoladas e escondidas atrás de uma parede. De um computador. De um avatar.

How can you have any pudding if you don’t eat your meat? (como você quer pudim, se você não comeu sua carne?)

É assim que termina Another brick in the wall pt 2. A frase se refere àquela famosa questão da meritocracia. De que você tem que fazer algo para conseguir outra coisa. Tem gente que pensa assim. Que você tem que ter fama, seguidores, tem que ter banca pra questionar quem já tem tudo isso. No fim das contas, isso é mais um tijolo no muro.

Hey you (ei você)
Don’t tell me there’s hope at all
(não me diga que tem qualquer esperança)
Together we stand, divided we fall
(juntos nos mantemos, separados nós caímos)

Com esses versos termina Hey You, uma das melhores músicas do álbum (na minha opinião). Esse último verso diz muito sobre como derrubar o muro. E ele pode facilmente ser utilizado no conceito de sociedade e o de internet. Afinal de contas, estamos todos “conectados”. Ou seja, não adianta se isolar atrás do muro, você vai cair. Isso porque o mundo real, o sol e a vida estarão do outro lado do muro e lá as coisas não são isoladas. É exatamente isso o que o mito da caverna de Platão diz.

Enfim. Existe um muro, que separa as pessoas da consciência; que separa a elite do proletariado; que separa o Facebook do Orkut; que separa você. Ele é feito por vários tijolos pesados, mas, como todo muro, ele pode ser derrubado. Para isso, é necessário coragem. É necessário reconhecer que há um mundo por trás do muro e não se esconder dele. No fim, você pode ser mais um tijolo, ou mais um martelo contra o muro.

 

Kaluan tem nome de índio e gosta da internet (@kaluan_)

.quem escreveu

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Comments (8)

  1. [...] que tanto amor em um mundo e tanto ódio em outro, se as pessoas são as mesmas? Provavelmente, por causa da questão de que na internet estamos ilhados e protegidos por várias coisas. Talvez seja isso.Enquanto isso, Chico Buarque ri. E ri muito. À primeira vista, parece que ele ri [...]

  2. Belo post, man!

    ps: Hey you é minha favorita também, se bem que, em se tratando de Pink Floyd, escolher a melhor é tarefa difícil.

  3. “De que você tem que fazer algo para conseguir outra coisa. Tem gente que pensa assim. Que você tem que ter fama, seguidores, tem que ter banca pra questionar quem já tem tudo isso. No fim das contas, isso é mais um tijolo no muro.”

    Será mesmo?

    Acho q pra maioria das pessoas ter um grande número de seguidores e tal conta sim. Afinal de contas, a partir do momento em q vc segue alguém no twitter para q essa pessoa tb a siga e depois sai, sem a retirar da sua lista de seguidores, é uma forma de conseguir mais gente te seguindo…

    Isso serve para q? Pra dizer q tem mts seguidores e segue só alguns.

  4. kkkk
    Kaluan, nunca pensei que me encontraria lendo um artigo seu.
    Sério, tô muito surpreso.
    É o Alan, o Lost, que estudou com vc no primeiro ano da GV!
    kkkk
    Abraços, legal a matéria.

  5. Ótimo Post!

  6. Muito bom seu post!!! Analogia com a net coube perfeitamente.




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