
Outro dia, dando uma palestra sobre memes e cultura de internet – e porque eu acho isso tudo algo absolutamente importante e ZERO superficial, uma pessoa me perguntou: “Muito interessante isso tudo o que você está mostrando… mas… você já leu os grandes clássicos?“.
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What?
Qual grande clássico será que essa pessoa acha que eu tenho que ter lido pra me qualificar pra dar uma palestra pra ela AND afirmar que cultura de internet é importante SIM e que meme não é superficial?
A internet, sozinha, não é nada além de um repositório de informações, produtos, coisas e pessoas. Ela fica lá, esperando que a gente se conecte e, guiados pelas nossas próprias necessidades, carências ou curiosidades, extraia o que quisermos dela. Portanto, sempre que alguém fala que a web é “superficial-burra-feia-chata“, é provável que isso seja um reflexo da própria superficialidade da pessoa.
Pela primeira vez na história desse país, nós temos um lugar realmente livre e democrático pra se expressar… da forma que quisermos. Temos que lembrar que no Brasil, o ~advento da internet em si~ não representou uma mega ruptura em termos de espaço criativo pras pessoas.
No começo só existiam os grandes portais (todos pertencendo às mesmas famílias que já dominavam a grande mídia offline) e os blogs. Mas 99% das pessoas, hoje e então, acham esse lance de blog muito complicado e a quantidade de espaço disponível intimida, de modo que a verdadeira ruptura chegou junto com as redes sociais: Orkut e Youtube no começo, depois Twitter e agora o Facebook.
Através desses meios o Brasil se mostrou pro brasileiro… com todos os seus defeitos, qualidades e idiossincrasias. A maioria das gírias estilo “CORRÃO” são derivadas do tiopês que, por sua vez, derivam dos erros de português medonhos que a gente via no Orkut. Foi nessa época/rede que a gente, a ~elite~ leitora de grandes clássicos, começou a se deparar com o Brasil verdadeiro, o Brasil que é analfabeto funcional e outras coisas.
Mas eu pergunto: o que é mais importante, que a pessoa se expresse sem erros de português ou que ela se expresse? A resposta é óbvia e diz muito sobre o que é a cultura de internet e como ela se manifesta.
Por mais que achemos que “já fomos mais inteligentes“, a questão é que ANTES das redes sociais, a gente até se expressava, mas não tinha nenhuma audiência que garantisse ~expressividade pra nossa expressão~. Agora, temos a faca e o queijo na mão pra criar qualquer coisa, mesmo que essa coisa seja, em uma primeira olhada, bobinha.
Mas essa coisa bobinha é apenas a ponta do Iceberg!

Pela primeira vez na história de nossas vidas, o poder de criar algo está nas nossas mãos. A cultura, a informação e o entretenimento deixaram de ser coisas ditadas por grandes conglomerados de mídia, deixaram de ser passivas e se tornaram organismos vivos e interativos. Agora é o povo que diz o que vai estar em pauta, é ele que detém o poder de construir uma nova cultura.
O miguxês, o “CORRÃO“, os memes, as pessoas ridículas cantando música gospel no Youtube, o blog com rage comics e a Luíza no Canadá são pequenas expressões dessa cultura visceral e colaborativa que já redefiniu e mudou um monte de aspectos da sociedade, consumo, governo, corporações e afins.
Portanto, quem acha isso tudo idiota ou superficial é o verdadeiro idiota/superficial que não consegue enxergar o quanto isso é poderoso e importante.
Não se trata de ser mais ou menos inteligente, se trata de fazer parte, se trata, simplesmente, de FAZER! Sim, ainda estamos engatinhando nessa coisa de fazer a gente mesmo, é tudo novo… estamos pegando o jeito, estamos testando formatos, estamos experimentando mas, thank god, estamos nos divertindo no processo.
Por isso, por mais que eu saiba que a conjugação correta do verbo “CORRER” na 3a pessoal do plural do Imperativo Afirmativo seja “CORRAM“, vou continuar usando o “CORRÃO“.
Isso te incomoda?
Vá ler um grande clássico!

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