
Se tem uma coisa que a vida em rede nos mostrou é o quanto somos todos iguais, principalmente no que diz respeito ao desejo de ser diferente.
Tínhamos uma vaga ideia da homogeneização (é, é assim mesmo, confirmei umas 3 vezes com o revisor) dos humanóides desde o tempo dos emails. Os textos mesozóicos em caps lock, os anexos em ppt com musiquinha midi, os gifs animados de anjinhos, as correntes, os spams. Dava pra ver que os comportamentos continham similaridades gritantes. Porém, como os emails eram privados e, no máximo alcançavam aquele grupinho de discussão, ficava só na impressão.
Com o avanço dos fóruns, o surgimento dos blogs, dos comunicadores instantâneos, fomos percebendo que tínhamos mais em comum com nossos semelhantes conectados. Até que o Facebook – esse clube de vantagens sociais – e o Twitter – esse Mercado persa de novidades – transformaram-se num gigantesco espelho de circo da sociedade moderna que, ao mesmo tempo, deforma e revela o que somos e como queremos ser percebidos no mundo.
Abaixo, uma visão distorcida e doentia dos desejos que todos nós temos em comum coletados em um lustro de convívio social. Veja o que todo mundo quer ser ou parecer, em algum momento da sua timeline.


ENGRAÇADÃO/ENGRAÇADINHO
Foi-se o tempo em que as pessoas queriam ser cultas e bem formadas. Pra ficar rich & famous, comer pessoas e influenciar multidões, o negócio é ser engraçado. A profissão ‘engraçado’ vem em dois tamanhos extremos: engraçadão e engraçadinho – já que o humor em versão M, bege e unisex, não impacta.
O engraçadão é todo aquele cujo raciocínio funciona full time em modo Associação de Ideias – I. O engraçadão lê ‘Wando’ e publica ‘calcinha’, vê o ‘Eike’ e fala da ‘Luma’, ouve falar em Mario Gomes (lembra?) e dá um jeito de enfiar uma ‘cenoura’ no assunto. O engraçadão é o Comic Sans das criaturas, o Crocs com meia do gênero humano, o cunhado da humanidade dançando bêbado na festa da firma com a cúpula do abajur na cabeça.
E tem o engraçadinho. O engraçadinho é o que chega atrasado nas piadas, fingindo que estava no Canadá; que tuita “aff” junto com críticas a humoristas; o que opera 100% do tempo em modo trocadilho. Engraçadinhos somos todos nós que nos rendemos ao uso de expressões “me julguem”, “me processem”, “oh, wait!”, “just saying” ou “THIS->>”, pra sentir o gostinho de pertencer a essa pequena Wok Social do Zeitgeist brasileiro.
A diferença entre o engraçadão e o engraçadinho é que o engraçadão se acha super engraçado, enquanto o engraçadinho acha que o humor é só uma das muitas manifestações de sua primorosa inteligência.

O GENIAL ADIVINHÃO
Não importa o que venha a acontecer, o genial adivinhão já sabia. Já sabia e já tinha postado isso há muito tempo, antes de todo mundo. Tanto faz se o cineasta ganhou o Oscar, se o cantor levou o Grammy, o que importa é que ELE TINHA DITO ISSO ANTES. Mesmo que a pessoa morra e todos chorem, tanto faz. Num momento de epifania, ele já tinha previsto que aquele senhor de noventa anos em estado terminal na UTI ia morrer.
Nosso profeta do óbvio vê que todos estão falando do Wando e tuita algo como “Wando nos TTs, em 3…2…” Porque, né, ninguém SABE que os trending topis são exatamente isso. É mais ou menos como esperar meia-noite pra avisar que vem ai um amanhã.
Eu ia escrever mais um parágrafo, mas pra quê? Você já SABIA disso.

O LANÇADOR DE TENDÊNCIAS
Todo mundo escreve coisas em ingles, of course, mas não basta ser viajado. É preciso ter sua própria linguagem, sua grafia pessoal, mesmo que pra isso você tenha que rabiscar todas as combinações possíveis pra escrever ‘gente’. Jent, jeit, geit, dgent, gent`, são demonstrações coletivas do quanto queremos ser igualmente únicos, clones originais. Todo mundo é assim, todo mundo quer lançar moda, quer ser seguido, quer emplacar uma hashtag, um TT, inventar um lugar no 4square. É lícito, é bacaninha e divertido. É só lembrar que assim como você quer tudo isso, os outros querem também.
E você? Que categorias você adicionaria? O pordentrex Googleiro? O erudito pop? O Miliciano de Tweets? Mande suas sugestões, Gjent. Vamos colaborar, né? Todo mundo já mandou ideias, menos a… oh, wait!
.quem escreveu
- ROSANA HERMANN @rosana :// Um beijo, um browse, um aperto de mouse veja + posts do autor




Que ótimo texto!
Muito bom o texto! Prefiro ser orgânico, mudar conforme a natureza manda…
Rosana como não dá para reescrever minha vida, vou te dar um ok..
Muito bom. É isso, um jogo de espelhos! To bonito?
Ai Rô, deu uma mega vontade de apagar todas as minhas redes sociais para deixar de ser igual tentando ser diferente, como todos tentam da mesma forma. Já parei pra pensar nessas coisas (não querendo ser o genial adivinhão, mas sendo) e bate a crise existencial. Mas qual o problema, afinal? Deixe ser…
Excelente texto! Uma perfeita leitura dos estereótipos!
@rosana e seus textos supimpas!
Concordo com a Raquel que é um dos melhores posts, @rosana está de parabéns. Todos os personagens que os usuários incorporam na rede são para (com)provar seu status e dar um sentido para estar utilizando as redes. “Ser você mesmo” já não está mais na moda.
Grande texto da Rosana!
Um dos melhores posts que já li por aqui; nada é original, tudo se copia em um mundo cada vez mais virtual