A BOCA-LIVRE DA SOCIAL MEDIA

por MICHEL LENT SCHWARTZMAN | 3 dezembro 2009

Quando eu era criança, gostava de colecionar etiquetas de lojas. Era assim. Praticamente toda loja fazia etiquetas para colar nos embrulhos das compras. Cada loja fazia a sua, diferente, colorida, com facas e cores especiais. Umas metalizadas, outras plastificadas. Um barato. A gente ia de loja em loja no bairro para pedir etiquetas, e depois colava elas num caderno.

Outros colecionavam displays plásticos. Eram logos de produtos, geralmente remédios, feitos em relevo, coloridos em tamanho grande. Ficavam muito bacanas dispostos na parede, e eu tinha um amigo que tinha seu quarto lotado com eles. Passaram-se uns tantos anos (diria décadas, mas fiz aniversário ontem e não estou querendo falar dessas coisas de idade) e reconheço hoje em dia uma situação parecida, onde os colecionáveis são outros e eles vêm até nós, e não o contrário.

Vivemos a era da boca-livre da social media. Você, eu, blogueiro e blogueira, twitteiro e twitteira famoso ou influente com milhares de seguidores entra na lista das agências e das marcas, e passa a receber regularmente kits e produtos para testes, e convites para festas, eventos e similares.

São caixas mirabolantes, envelopes fantásticos, camisetas, brindes, massagens, viagens de balão, saltos de paraquedas, turismo, software grátis, globos de discoteca, enfim, um mundo sem fim de coisas criativas e interessantes para você, que bloga ou tuíta, experimentar e, desejadamente, depois falar bem daquele produto ou ação.

A sala vai ficando lotada de coisas e as agendas não são fáceis de conciliar. Precisa “bookar” com antecedência, ou seu trendsetter favorito pode não estar disponível naquela data. O twitteiro ou blogueiro amigo vai ficando tão acostumado com o assédio que as ações precisam ser cada vez mais mirabolantes para chamar a sua atenção.

Não sei se alguém conseguiria viver só disso – afinal, em nada até hoje dinheiro costuma estar envolvido, apenas atenção –, mas viver na boca-livre da blogosfera acaba sendo um grande barato, sim senhor. Mas gostoso mesmo era ter que correr atrás e andar quadras e quadras pelo bairro até achar aquele adesivo que ninguém mais tinha e que só você conseguiu.

Michel Lent Schwartzman é publicitário interativo, mesmo nas horas vagas.




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