Talvez você não lembre, mas houve um tempo em que as pessoas diziam frequentemente coisas do tipo “não tenho nada pra fazer”. Em casa, zapeando entre o filme da Sessão da Tarde que passava pela enésima vez, na fila do banco (sim, as pessoas iam ao banco e ficavam horas na fila), na sala de espera, no ponto de ônibus… As pessoas ficavam apenas olhando para o alto ou para baixo.
Hoje, em qualquer lugar desses você vê pessoas com seus smartphones — de xing-lings aos novos Galaxies. Compenetrados nas telinhas, todos parecem ter “algo” a fazer. Joguinhos, listas cada vez mais longas de amigos no Facebook ou Twitter, RSS e caixas de e-mail que teimam em não ficar no zero. E tudo está se atualizando o tempo todo. Você sai de uma janela ou um app e já há coisas novas, links legais, comentários engraçados, fotos fofas para você ver.
Isso nos deixa felizes.
E viciados.
Se olharmos dentro do cérebro, quando estamos nesse estado de busca incessante por microprazeres, parecemos aquelas pessoas apodrecendo na frente das slot machines dos cassinos, esperando ganhar 5 dólares em moeda ou 5 likes no Instagram. Nosso cérebro quer cada vez mais dopamina, mais rápido, e fica mais difícil manter o foco (algo que já não é muito natural pra gente). Por isso também ficamos mais ansiosos, esperando respostas imediatas para nossos SMS; e mais narcisistas, contando os comentários e retuitadas. Na verdade estamos até meio malucos, sentindo vibração de celular quando não existe.
Calma, não estou pregando a volta ao mundo off-line. É bom não ter mais o tédio e poder levar os amigos no bolso pra todo lado. Mas a verdade é que a hiperconectividade cansa. Já percebeu como várias das nossas grandes ideias hoje acontecem no banho ou pouco antes de dormir — justamente nos poucos instantes em que estamos desconectados de tudo?
Pedro Burgos é editor da F451 que publica o Gizmodo, Kotaku e outros.
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