Pra ouvir ao som de Amy Winehouse:
Estamos evoluindo.
Isto é, está evoluindo quem consegue se adaptar a este mundo que funciona na velocidade do tempo real. Quem não consegue, sai de cena, entra em processo de extinção, seja um político poderoso, um executivo importante ou uma empresa, pequena, média ou grande.
Tempo real significa ausência de tempo entre o fato e o conhecimento do fato, o que elimina os bastidores e instala a transparência como característica do cenário de nossas relações.
Assim, a velha e bissexta transparência, que era valor opcional até final do século XX, virou cenário dado na sociedade em rede do século XXI. Sem moralismo nem virtude, bobeou, dançou.
A transparência é fato novo demais para se conhecer todo o impacto que terá sobre o estilo de vida que teve sucesso nas penumbras e nos bastidores da controlável, previsível e lenta sociedade industrial.
Mas sem dúvida o maior golpe é na valorização da perfeição asséptica e ilusória que tem destruído a saúde mental, emocional e social dos humanos.

Porque essa transparência compulsória expõe a imperfeição de tudo e de todos em toda a sua realidade e prova que o perfeito não existe. E, se existe, é mentira, é efeito especial, mágica, sobrenatural, ficção, portanto não resolve os nossos problemas que são muito reais e humanos. Pelo contrário, ilude, aliena, vicia, deprime, escraviza etc tudo de ruim que a droga faz.
Sim, com o tempo real perdemos o controle que permite corrigir a realidade e vender a imagem do perfeito. Perdemos o controle e ganhamos a liberdade de quem não tem modelos a seguir, para o bem e para o mal. No more mister nice guy, nem bad guy. Sem maniqueísmos simplificadores, o segredo do sucesso agora é ser um belo imperfeito. Temos que aprender a nova linguagem do mundo transparente com todo o risco de muitos ficarem pelo caminho cruel da seleção natural.
Como em todo processo de evolução, na medida em que um padrão – o perfeito – entra em decadência, emerge o novo padrão – o imperfeito.
Cai o prestígio e a credibilidade do perfeito e o valor de mercado do imperfeito sobe. Naturalmente, a cultura da imperfeição começa a se enriquecer; e muito rápido, porque as pessoas não são movidas por virtude, mas por interesse de sobreviver. É o básico e darwiniano imperativo da sobrevivência, sem medo de ser feliz, aqui e agora, como qualquer samambaia, pardal ou tartaruga.
Pode reparar nos sintomas da evolução: já é inteligente reconhecer a própria imperfeição numa entrevista de emprego, na arte se cultiva a ideia da beleza da imperfeição (wabi sabi), o ritmo da inovação nos leva a viver em beta, a propaganda valoriza pessoas bem imperfeitas, está na moda usar a barba por fazer, negócio que concilia virtude e interesse é mais confiável, mocinho e bandido é a mesma pessoa nas novelas modernas e é bem possível que o céu e o inferno façam um merge com o purgatório para reduzir custos de gestão e ganhar mais credibilidade junto aos humanos que conquistaram o direito de serem imperfeitos, belos e felizes, aqui e agora.
Sem céu nem inferno, sem passado nem futuro, o tempo real é o tempo presente, tempo daquilo que não está pronto nem nunca estará porque é o eterno presente onde/quando o imperfeito vir-a-ser é a única realidade.
Na impossibilidade da perfeição construiremos relações com o pressuposto da imperfeição e, portanto seremos mais francos, tolerantes e compassivos.
Pode tomar nota: o tempo real está instalando finalmente o valor e o prestígio do imperfeito na sociedade. E isso será tão importante na história de nossa evolução que esta época será chamada de Era da Imperfeição, um momento em que os humanos foram realmente humanos e, por isso, mais felizes.
(este texto é uma homenagem à Santa Padroeira e Musa Inspiradora da Era da Imperfeição, a querida, irresponsável, idiota e genial Amy Winehouse.)
Ricardo Guimarães é publicitário e presidente fundador da Thymus Branding.
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