O QUE TEM PRA HOJE

por COLUNISTAS CONVIDADOS | 19 agosto 2011

Para mim, o grande prejuízo que a internet trouxe nas relações humanas foi convencer as pessoas de que as relações devem se basear em admiração e compatibilidade em vez da antiga e ultrapassada convivência, capaz de forjar amizades nos terrenos mais improváveis.

Se antes éramos confinados a pequenos círculos sociais − escola, prédio, firma, família − onde era preciso nos virar com “o que tinha pra hoje” na hora de fazer amigos, agora sempre tem uma maldita janela.

Uma maldita − e bendita, porque vivo e ganho meu pão nela − janela que te mostra que lá fora, em algum lugar estranho, todo mundo é parecido com você. Basta procurar com calma, basta calcular os algoritmos certos e você vai encontrar gente que ouve, come, se locomove e escreve exatamente como você queria que as pessoas da sua convivência fizessem.

O mundo mágico da semelhança nos faz menos tolerantes e cada vez mais exigentes. Nos coloca na posição de eternos analisadores de currículo, de gente que precisa admirar para amar, que precisa dar um like em cada aspecto do outro. Pessoas de verdade, no entanto, não consultam o Google antes de falar, não dominam cinco idiomas enquanto têm tempo para postar fotos de festas incríveis todos os dias e, sobretudo, têm poros.

Quantos likes uma pessoa de verdade mereceria por dia? Talvez um só, e bem de má vontade. Não é muito fácil gostar de pessoas de verdade; por isso, continuo acreditando na convivência. Empregos, escolas, tudo que nos confina em cubículos e faz a gente gostar uns dos outros numa vibe meio síndrome de Estocolmo.

 

Juliana Cunha, 23 anos, é repórter e disfarça falta de foco com dinamismo.

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Comments (6)

  1. Achei o texto com uma carga moralista muito legal, levando a pessoa a pensar um pouco sobre esse tema, que às vezes pode acabar tomando conta da nossa vida sem percebermos. Sempre foi um assunto que eu pensei, mas um ponto de vista diferente foi muito legal e bem-vindo. Eu, particularmente, já sou um pouco exigente de natureza, mas nunca tive esse problema de convivência com outras pessoas, sendo mais tolerante quando sei que a pessoa vai fazer parte da minha rotina, apenos tendo a me aproximar mais de pessoas com quem me identifico e me divirto. Online ou não.

  2. Cris Nishihara disse: 29 de agosto de 2011 às 19:09

    muito bom!

  3. Achei legal isso, mas acho que na vida de verdade a gente também tem o hábito de só se aproximar dos outros por semelhança e ter pouco interesse pela diferença. E é a diferença que muda a gente, que tira as coisas da estagnação.

    Quem só busca semelhante na vida de verdade, vai fazer a mesma coisa virtualmente. Quem tende a arriscar um papinho com gente de outros círculos, com outro cabelo, outro gosto, outra idade, outras roupas, outro sotaque, outra profissão, etc. na vida concreta, talvez faça a mesma coisa nas redes sociais.

    Mas concordo que é a convivência que aprofunda as relações, que nos força a mudar hábitos, conceitos antigos. Mas também tem uma coisa legal dessa superficialidade virtual, que é um certo desprendimento, uma franqueza com o próprio tempo.

    Tipo, pra mim, por exemplo, que trabalhei como redator em várias empresas e agora to trabalhando em casa, às vezes é tãaaaaao bom não ter que falar uma sequência de 30 "oi-tudo-bom" antes de chegar no meu computador, porque tem dias que você não tá com saco e a vida real não te permite certas sinceridades.

  4. Parabéns pelo texto, muito bom mesmo.




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