Já notou como o assunto “games” tem aparecido cada vez mais frequentemente na sua vida? Não adianta se esconder, o videogame vai te (re)encontrar. Pra começar, esqueça o mito de que quem joga é só criança ou fracassado. Não é de agora que as coisas mudaram e por causa disso surgiu uma nova febre.
Hoje em dia não tem nada de errado em ser ~gente grande~ e dizer que gosta de jogar videogame. A indústria nerd está muito mais fortalecida e mirando no público adulto também. Nesse meio, o YouTube tem sido tomado por vídeos ultralongos de gente jogando videogame e conversando, chamados gameplay. Peraí, você não sabe o que é isso? Vamos te explicar!
// A ORIGEM
Os vídeos de gameplay não foram criados ontem e eles têm raízes quase mais antigas até do que o próprio YouTube. Tudo começou em 2006 num site de humor chamado Something Awful. Num tempo onde a internet ainda fazia barulhinho de modem pra muita gente, os caras faziam um negócio chamado Let’s Play: colocavam pequenos screenshots dos jogos e um texto comentando a experiência de jogar. Não era bem um review nem crítica, parecia muito mais um comentário que seu amigo faria.
Com o aumento da banda e barateamento de tecnologias de captação, o Let’s Play começou a evoluir para vídeos, que eram “uploadeados” no YouTube pra postar no fórum. (Aliás, nos EUA o nome do gameplay é let’s play, sabia?) No fim das contas, o volume de acesso interno do YouTube era muito maior do que o do fórum, e os jogadores começaram a postar apenas lá. Foi então que empresas viram potencial nisso pra ganhar e fazer dinheiro.
// QUEM ASSISTE E POR QUÊ?
Mas quem vai parar pra assistir um vídeo que tem pelo menos 20 minutos de duração?
O público dos canais de gameplay é composto, em geral, por homens de 13 a 25 anos. O problema dessa estatística é que nas redes a idade mínima pra se cadastrar é 13 anos, então em eventos dá pra ver como brasileiro adora dar jeitinho: tem gente a partir de 9, 10 anos indo falar com os gamers, comentando sobre o trabalho deles, pedindo autógrafo e foto.
Mas o mais importante sobre a audiência é: o que eles querem ver? Tem gente que entra pra aprender a passar de alguma etapa difícil, conhecer cheats, mas também tem gente que assiste pra ver como é o jogo antes de comprar (pra ver se vale a pena), gente que assiste pra saber de outras coisas além do jogo, como um vlog mesmo… Cada player tem seu apelo e o público fica fiel ao estilo.

O ápice de buscas no Google por “gameplay” acontece em novembro e junho. O motivo? Em novembro acontecem os lançamentos de jogos, junto com as vendas de natal. Já em junho, rola uma liquidação anual, porque nos países do hemisfério norte começam as férias de verão. Isso afeta o lado de cá porque os gamers têm uma alternativa nova à pirataria: compra online. Várias lojas americanas vendem jogos pra cá a preço de lá, sem imposto brasileiro. Com isso, o índice de downloads ilegais diminuiu bastante, apesar de ainda existir muito.
// A ANATOMIA DE UM GAMEPLAY
Se você nunca parou pra assistir a um vídeo de gameplay, nós vamos te explicar como funciona. A maioria dos canais tem só captação de tela, sem câmera voltada pro gamer. A imagem é do jogo, o áudio fica baixinho e a voz do vlogueiro entra em cima, comentando o que rola. No mundo do gameplay, quanto mais longo o vídeo, melhor, pelo menos 20 minutos. Pode parecer estranho, porque a gente sempre ouve que um vídeo com mais de 5 minutos tende a não ser assistido até o fim, mas pros gamers é o oposto.
Os jogos mais jogados pelos players são: Minecraft (um dos jogos hype mais leves, dá pra jogar em quase qualquer PC), Battlefield 3 e Call of Duty: MW3. Mas calma, se você é nintendista, tem lugar pra você também. Além de alguns vlogueiros fazerem vídeo de jogos da Nintendo, tem outros que apostam na nostalgia: comentam jogos pra consoles antigos, só pelo gosto da saudade.
Além dos vídeos de gameplay, tem também as livestreams, transmissão ao vivo da jogatina. Elas são muito comuns entre gamers, especialmente quando há convidados. A visualização ao vivo tem números impressionantes e, como fica gravado, ela continua tendo views no YouTube. Ah, te contei que ela também é monetizável?
// E COMO GANHA GRANA?
Se não desse, não tinha tanta gente investindo tempo nisso, né bróder? Os maiores gamers brasileiros têm mais de 300.000 inscritos em seus canais, uma média de 150 mil views por dia em seus vídeos e postam conteúdo novos diariamente. Um acordo de cavalheiros impede que os valores sejam divulgados abertamente, mas fontes internas afirmam que alguém com média de 150 mil views por dia consegue tirar uns 20 mil dólares no final do mês. o_O
Pra tirar dinheiro disso, você precisa ser afiliado a alguma rede que detenha os direitos de uso de imagem de games e, claro, os contatos com agências e anunciantes para canais de jogos. A maior rede de gamers é a norte-americana Machinima.
Pra ser parceiro deles, você já tem que ter uma certa relevância (leia-se: audiência)… daí você pode pedir pra entrar na rede ou, se for fodão, ser convidado diretamente. O valor que eles pagam é por CPM, o famoso CUSTO POR MIL, ou seja, a cada mil views no seu vídeo, você ganha x dinheiros. O CPM começa em 2 dólares e pode chegar até 4 ou 5 pra quem for gameplayer top.
// POR QUE VIROU FENÔMENO?
Existem várias razões que convergem pro boom do gameplay: a primeira delas é a evolução da tecnologia. Antes era muito difícil, senão impossível, subir uma imagem em HD ou um vídeo longo em boa qualidade. Por isso, com o aumento da banda larga (lá por 2010) as imagens paradas viraram vídeos, que começaram a ficar cada vez mais longos (afinal, qualquer um que já jogou alguma vez na vida sabe que não dá pra ter o gostinho do jogo em apenas 5 minutos).
Além da web que se bandalarguizou, o consoles e computadores também evoluíram. Videogames mais complexos, com qualidade de imagem e som superiores começaram a surgir. Buscando lá na história dos consoles temos o primeiro videogame caseiro, o Odyssey, que não se compara nem ao joguinho mais bobo que você tem instalado no seu celular (por mais pré-histórico que ele seja!).
Ok, isso foi nos anos 1970, mas de lá pra cá os jogos deram um salto enorme de processamento, imagem, som, realismo e até mesmo em roteiro. Com o tempo, eles também conseguiram seu espaço e migraram pros computadores, onde é muito mais fácil fazer a captação de tela.

multidão assistindo PC Siqueira e FunkyBlackCat se desafiando em uma sessão de Gameplay no youPIX POA 2012
Outra razão pela qual o gameplay se tornou uma febre: nerd is the new sexy. Pode parecer bobagem, mas a afirmação do orgulho nerd tem muito a ver com a expansão de vários gêneros cinematográficos, literários e , claro, youtúbicos. A consolidação do videogame como arte também está relacionada, o que é possível observar com o aumento do interesse do grande público por filmes inspirados em jogos (e vice-versa), sites, feiras, cursos e empresas de games.
Isso tudo porque quem era nerd antes, agora cresceu e é formador de opinião. As gerações atuais prestam atenção em ícones empresariais nerds, como Bill Gates e Mark Zuckerberg. E como o gosto por coisas nerds é passado de geração em geração, a tendência é o videogame também continuar em alta. Ainda mais porque a indústria enxergou o potencial econômico desse nicho e se voltou pro público mais experiente.
Os jogos têm experimentado linguagens mais adultas e temáticas mais realistas pra atrair essa galera que já cresceu, mas ainda ama jogar. No Brasil então, o investimento está sendo pesado. Várias empresas de games agora têm escritórios aqui e fazem estudos do mercado nacional. A pirataria continua sendo uma grande preocupação, mas ela também não é 100% vilã: é por causa dela que temos uma penetração tão grande do videogame nas diferentes classes sociais.
// ASSISTA ALGUNS:
Se você ficou curioso, separamos aqui alguns vídeos pra você ter um gostinho de como são os gameplays brasileiros:
Agradecimentos: Pablo Miyazawa, André Forastieri, Matheus Castro, Eduardo Benvenuti (@BRKsEdu), VenomExtreme, Denis Snider e Cauê Moura
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