por Bia Granja, co-fundadora do youPIX

Nossa memória é super seletiva e extremamente emotiva.

Por isso é bem comum que sejamos traídos por ela e nos apeguemos à uma seleção de coisas boas que geralmente não condizem com o todo das nossas experiências. Com esse olhar totalmente parcial e editado do nosso passado, olhamos pras gerações que vem depois da gente e achamos que estão todas perdidas.

É aquela coisa de olhar pros caras e pensar “Migos, assim não tenho como te defender”, sabe?

Mas também, pudera… os jovens de hoje são narcisistas, superficiais, adoram os ídolos errados, são viciados em tecnologia, alienados e não sabem nada sobre a “verdadeira vida real” (sic).

Na nossa época era diferente, lógico. A gente brincava na rua, a mexerica não vinha descascada, a relação com nossos pais era incrível, o Merthiolate ardia e éramos seres extremamente profundos, ativistas (não de sofá) e leitores dos grandes clássicos.

Certo?

M

as apesar de termos essa auto-imagem tão “edificante” sobre a nossa geração, nossos pais pensavam diferente. Boa mesmo era a época deles, quando os jovens não se alienavam passando horas na frente da televisão ou jogando videogame e a gente se relacionava com as pessoas olhando no olho e não falando pelo telefone (o fixo, lembra?).

E o que os nossos avós pensavam sobre nossos pais? Exatamente!

Imagem: VSauce

Inclusive, esse negócio da geração de antes achar que a que vem depois é pior e está perdida é tão antiga que data do Século 4 — Antes de Cristo, quando Aristóteles escreveu (aqui) o seguinte sobre a juventude da época: “Todos os erros deles são baseados na maneira exagerada e excessiva como eles fazem tudo (…) Eles acham que sabem tudo”.

Mas que saco esses jovens sabixões, hein Arista?

O canal VSauce fez um vídeo genial falando sobre a JUVENOIA ou o medo exagerado que os adultos tem das coisas que “influenciam” os jovens. Eu recomendo fortemente que vocês assistam pra entender o quanto o mundo dá voltas, a história é cíclica e nenhuma geração é melhor do que a outra.

Dá o play:

Por favor, não continue a ler esse texto ou a viver a vida sem antes assistir ao “Juvenoia”. O vídeo tá cheio de links, dados, exemplos, artigos, estudos e outras coisas que todos nós deveríamos levar em consideração antes de fazer qualquer julgamento de valor sobre o que influencia os “xóvens” hoje.

Eu, por exemplo, na juventude teen, tinha como ídolos o Senna, a Xuxa, alguns atores ou meninos bonitinhos da capa da Capricho, uns caras de bandas tipo Menudos, Guns n’ Roses e afins.

Imagina idolatrar uma pessoa só porque ela é bonita, ou consegue andar de carro mais rápido que os demais, ou porque ela sai de uma nave espacial usando umas roupas maneiras, ou porque sabe tocar um instrumento e interpretar um texto. Vixe!

No meio dos anos 90, minha tia trabalhava em publicidade e a agência dela ia rodar uma campanha com a Xuxa. Ela descolou pra gente ir conhecer a Rainha dos Baixinhos no estúdio. Esperei exatas 5 horas dentro de uma sala pra poder fazer uma foto com ela. Eu chorei até não poder mais e foi o dia mais feliz da minha vida. Quem nunca?

Quem eram os seus ídolos da adolescência? Seja honesto, vai! Se você falar Freud, eu posso até acreditar, mas certamente você é a exceção e não a regra.

V

ejo que muitos dos críticos adoram apontar o quanto esses youtubers são irresponsáveis e só falam em futilidades. Ora pois, quando você era adolescente falava de que? A situação política do país? O papel das mulheres na sociedade? Aham…

É como o John Green disse aqui nessa palestra maravilhosa: “Nós adultos criticamos essa geração por sua apatia e narcisismo, enquanto assistimos CSI Miami e nos congratulamos por nossa incrível sofisticação intelectual”.

Da mesma forma que defendemos que não podemos roubar a infância de nossas crianças, acredito que também não devemos roubar a adolescência de nossos adolescentes. Adolescentes serão adolescentes, em qualquer geração. Ninguém nasceu descontruído e com uma compreensão profunda sobre todas as coisas certas e erradas da humanidade. Nem você!

Eu já falei e repito: entre ser fã de um cara bonitinho que é colírio da Capricho ou fã de alguém que produz algum tipo de conteúdo e pensamento, prefiro o segundo. Mesmo que esse pensamento não expresse a minha opinião sobre determinado assunto.

Quando a gente foca muito no detalhe do discurso e reduz todo um movimento à coisas com as quais não concordamos, perdemos a oportunidade de perceber o quão transformador é isso tudo — e daí nossa crítica fica sendo nada mais que rasa e preconceituosa.

Nos falta distanciamento histórico e nos sobra memória seletiva na hora de julgar o valor dos influenciadores de hoje e de entender a revolução comportamental e cultural em que nos encontramos.

Nenhum desses youtubers inventou a cultura do “fã-histérico-ídolo-supremo”, mas é compreensível que ela se materialize de um jeito tão intenso com eles. Como eles são vistos por seus fãs como pessoas iguais, próximas, reais e possíveis, a relação de identidade e representatividade que criam com suas comunidades é muito profunda, quase simbiótica. Pra esses “fãs-histéricos”, amar youtubers é como amar a si mesmo, porque isso que eles amam é parte do que eles são. O coração da cultura jovem já foi a música. Hoje em dia é a web. É simples assim!

Com a web, o anônimo se mostrou pro mundo, o pequeno passou a ter voz e se tornou grande, muitas vezes maior que as empresas que controlavam o que ele tinha que pensar, gostar, ouvir, ler e consumir.

Você sabe do que eu estou falando, não sabe?

O poder de determinar o que as pessoas devem pensar não está mais nas mãos de algumas empresas de mídia de massa.

Antes da internet, ter um canal de expressão com audiência sempre esteve ligado a ter poder financeiro. Agora não mais!

São 120 milhões de brasileiros na internet, são 120 milhões de expressões criativas possíveis e visões de mundo pra gente conhecer. Isso nos traz uma variedade gigante de influências e influenciadores.

A diferença entre ser um espectador da história e um protagonista ativo está aí, na nossa capacidade de entender esse cenário, aproveitar as ferramentas que temos e tocar a boiada pra frente e não pra trás!


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