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A busca pela ‘foto perfeita’ tá acabando com o turismo?

Ao invés de viver a experiência, as pessoas estão mais preocupadas em garantir um registro pra internet

Imagem: The New Yorker/YouTube

“Se não posta, não cresce”. Esse é um bordão usado por pessoas que frequentam academias e brincam com o fato de que, se você fizer um treino e não postar uma foto mostrando que você treinou, o exercício não vai fazer efeito no seu corpo. Será que essa máxima também serve pro turismo?

A revista New Yorker produziu um mini doc explorando como os turistas lidam com as visitações a alguns pontos famosos. O glamour das fotos postadas quase nunca refletem a experiência naquele momento, o que implica aceitarmos que a internet é sim uma realidade paralela: ao mesmo tempo que você viveu aquela cena captada numa foto, ou vídeo, ela não aconteceu exatamente daquele jeito. Não passa de um fragmento do que é real de verdade.

Numa das primeiras cenas do mini doc, a gente ouve ao fundo um diálogo em que uma pessoa reclama da neblina num penhasco, no momento em que está tirando uma foto, no que a outra responde que “a gente pode consertar no computador”. É claro que vale mais a pena visitar um cartão postal tipo o Cristo Redentor num dia ensolarado, mas se você deu azar no dia, faz sentido alterar a realidade pra não perder o close? E, indo mais longe, não seria melhor então nem ir e gastar o dinheiro, mas inserir uma foto sua lá sem sair de casa, recurso que qualquer IA gratuita faz em segundos?

Todo mundo que viaja já viveu esse momento de fazer caras e bocas pra uma foto em algum ponto turístico. Mas assistir o doc, que são várias cenas captadas de pessoas fazendo xaropices – de novo, igual todo mundo faz – dá um pinguinho de vergonha alheia. Numa comparação boba, seria meio que a mesma coisa de alguém fazer um mini doc de pessoas interagindo com seus pets naquela voz iti malia de neném, que só faz sentido naquele contexto ali com seu bichinho. 

E, se todo mundo passa essa vergonha cedo ou tarde, a questão não é estar sendo observado na produção da foto perfeita, mas se a gente quer essa foto perfeita pra eternizar aquele momento; ou se a gente pouco se importa com a vivência, porque agora o lance é escolher a viagem que possa proporcionar essa foto perfeita. Fez sentido?

O que é causa e o que é consequência?

A Rua Pires de Almeida fica ligeiramente escondida a poucos minutos da entrada do bondinho que sobe para o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. A arquitetura dos prédios da rua é uma graça e, ao fundo, o Cristo aparece de braços abertos. Pouca gente a conheceria normalmente, mas, graças às dicas de tiktokers, ela virou um point pra uma “foto perfeita” e muitos turistas passaram a procurá-la. Ou seja: não é que a galera passa por essa rua, que é estritamente residencial, e se depara com um cenário maneiro. Só entra ali quem mora em um dos prédios, ou quer essa foto. 

Mas, quando a foto perfeita é tirada nesse lugar, e publicada, ela compõe o imaginário pra quem tá vendo nas redes de que essa pessoa viveu pra caramba essa viagem. “Olha como ela tá lá, vivona e vivendo, explorando lugares diferentes e encontrando essas paisagens incríveis. Nossa, que inveja”, você pode pensar. Sendo que, na real, ela só entrou naquela rua pra dar o close. 

A YOUPIX fala bastante sobre a influência ser consequência de algo, não a causa. Muitas pessoas entram na internet com o sonho de se tornarem influencers, mas esquecem que precisam formar opinião, produzir um conteúdo autêntico e original e se conectarem com a audiência pra, aí sim, influenciar alguém. O termo influenciador foi totalmente banalizado nesse sentido. Por isso essa rua serve como uma boa analogia: ela só serve como experiência se fornecer a foto perfeita. Do contrário, é apenas mais uma rua.

O filósofo Fillipe Trizotto comentou em um tweet que mostrava uma fila gigante de turistas que aguardavam a vez pra dar uma entrada no Real Gabinete Português de Leitura, também no Rio, que tem um cenário meio Hogwarts por dentro. Fillipe explica que, hoje, o local funciona pra turistas só como um ponto de visitação – que vale muito ser conhecido se não tiver uma fila quilométrica como pedágio – movimento que é inevitável em cidades que exploram cada vez mais a indústria do turismo.

A série de exemplos cariocas aqui no Textão da News tem uma justificativa: só nos 9 primeiros meses de 2025, o Brasil registrou mais de 7 milhões de turistas estrangeiros, um recorde histórico, sendo que 1 a cada 5 visitaram o estado do Rio de Janeiro. Isso impacta positivamente a economia, a renda de quem trabalha com turismo (seja formal ou informalmente) e expõe o nosso país pro mundo. Por outro lado, pode atrapalhar a vida de quem é cidadão desse tipo de cidade e sofre com turistas sem noção, que pensam que tudo e todos estão ali para servi-los. 

Viralizou no Rio o formato de vídeo em que você aparece numa laje no meio da favela da Rocinha, senta numa cadeira e um drone te filma de pertinho até ganhar uma distância e revelar a maior favela do país, com você ali no centro. Pra conseguir seu close perfeito, você precisa esperar numa fila que pode chegar a 2 horas e desembolsar cerca de R$ 150. Por um lado, esse tipo de turismo deu perspectiva de renda pro dono da laje, pro guia que sobe com o turista até lá e pra quem faz a captação do vídeo. Por outro, o turista acaba explorando de um jeito negativo o contexto social e muitos ignoram a experiência em si, o intercâmbio cultural que só a visita a outro país proporciona, em troca de apenas uma “foto perfeita”.

“Eu reconheço que há moradores enxergando nisso uma fonte legítima de renda”, diz Cecilia Oliveira, diretora-executiva do Instituto Fogo Cruzado, que monitora a violência armada em comunidades de baixa renda. O problema é quando a favela deixa de ser um bairro vivo, complexo e atravessado por desigualdades estruturais para virar apenas contraste exótico ou pano de fundo para conteúdo impactante”, lamenta ao portal g1.

Um comentário no post que divulga o mini doc da New Yorker questiona: “estamos escalando a montanha pra ver o mundo, ou pra que o mundo nos veja?”.

Black Mirror às vezes parece documentário.

Segundo a Fundación iO, que desenvolve projetos em saúde especialmente no campo de doenças infecciosas e da medicina do viajante, a busca por uma selfie em locais arriscados já casou a morte de mais de 500 pessoas desde 2008, conta o portal g1.

O texto relembra uma série de turistas que perderam a vida ao arriscar demais pra conseguir a tal foto perfeita. E não dá pra ignorar o contexto de que esses registros não são pra serem guardados, ou mostrados pra família e amigos. São feitos pra internet, porque, pra muita gente, a experiência mostrada no digital valida o que foi vivido na realidade (se não posta não cresce, lembra?).

Antes das redes sociais serem como hoje, parece até que as pessoas tinham menos vergonha pra tirar uma foto, porque elas não tinham a preocupação de quem ia ver aqueles registros. Eram pra serem reveladas e colocadas num álbum que, consequentemente, só as pessoas mais próximas teriam acesso, ou então pra ficarem na memória do computador. Ainda que você postasse num Orkut da vida, ou nos primórdios do Facebook, seus amigos que iam interagir eram realmente amigos na vida real. 

Então dá pra dizer que antigamente, mas ainda neste século, as pessoas turistavam pra apreciar a vista, mas garantiam uma foto pra relembrar o momento – e que bom que o faziam! Mas a foto era consequência de ter pensado na viagem, programado o passeio, vivido a experiência e, por sorte, ter uma câmera à disposição. Hoje, parece que todo esse processo gostoso de viajar gira em torno da foto perfeita. Como se ela fosse a causa pra você estar ali, não a consequência do que foi vivido na prática. 

Vale sempre se questionar: eu tô postando pra mim ou para os outros? No tema de hoje, dá pra ir até além: eu tô vivendo o que eu quero, ou o que os outros vão achar legal que eu vivi?


Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!

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