Romantização do autocuidado, ilusão do lifestyle e o que realmente constrói autoridade na Creator Economy

Russel Ponce Sandoval/Pinterest
“Eu converso com esses meninos de hoje e vejo que eles não sentem o prazer que eu tenho na corrida. É uma coisa contra o relógio, ‘tem que diminuir o tempo’… você não é atleta de elite, que diferença faz se você correr cinco minutos a mais ou a menos?”
O Dr. Drauzio Varella levantou essa questão em uma conversa que promoveu sobre “a romantização do bem-estar”. Você pode achar que esse tema já tá “batido”, mas, se é isso mesmo, então por que a gente ainda se pega refletindo sobre as nossas atitudes diante das telas?
Veja bem, não é só o caso de passar horas demais no celular e de menos ao ar livre, fazendo atividade física, lendo um livro, cozinhando ou simplesmente cortando a unha do pé. O buraco em que a gente se encontra é mais embaixo: a gente faz pela performance.
Em seguida, o Dr. Drauzio conta que um dos meninos com quem ele conversou disse que já desistiu de um treino de corrida, na porta do parque, porque se deu conta de que esqueceu o relógio em casa. Pra muitos, Drauzio é um “corredor raíz”. E se ele for só um corredor (normal) e a nova leva de corredores for a que pode ser classificada como “corredores performáticos”?
“Se não posta, não cresce”
Essa frase é conhecida dos marombinhas de plantão. Uma brincadeira dizendo que, se você não postar um story mostrando que treinou, então não vai ter resultado nenhum. Falando sério, é claro que é uma piada. Mas olhando mais a fundo, quantas pessoas você conhece que treinam mais pra postar do que pela saúde?
Com tantas metas e necessidades estéticas – tanto de alcançar um corpo que pode ser inalcançável de acordo com sua vida, ou só querer os melhores lookinhos pra desfilar na academia – a busca pelo bem-estar pode acabar trazendo um mal-estar imenso. Quando a gente faz alguma coisa que devia ser prazerosa pensando mais no resultado do que no “fazer”, é porque tá tudo errado. O Dr. Drauzio lembra que exercício físico não é o que a gente entende hoje, mas sim, subir escadas e caminhar, basicamente. “O que os nossos ancestrais faziam”, explica o médico.
Quem acorda feliz às 5h TODOS OS DIAS???
O Dr. Auzio (pros íntimos) também lembrou que ninguém acorda cedo com um sorriso no rosto. Ele, que é corredor há décadas, confessou que não teve um dia sequer que acordou empolgado pra se exercitar. E convenhamos, leitor da YPX News: você sabe que isso aí é a maior balela de influenciador lifestyle. Aliás, o tal lifestyle pode ser, literalmente, qualquer coisa.
Na pesquisa “O Efeito da Influência no Consumo” 2025, da YOUPIX em parceria com a Nielsen, vimos que 73% das pessoas comprariam produtos indicados por creators que são reconhecidos por falar de um tema específico. Pra baixar a edição 2026 da pesquisa, clique aqui. Esse dado mostra que falar sobre tudo pode até render view, mas não sustenta uma carreira. É no nicho que se constrói autoridade, autenticidade, comunidade e influência. Mas não dá pra mergulhar de qualquer jeito e querendo inventar uma imagem que não diz quem você é.
O creator Luan Botelho traz um ponto de vista interessante sobre esse papo de nicho: ele diz que, quanto mais você se parece com seu nicho, menos você vale dentro dele. Isso porque todo mundo aprendeu as mesmas regras, olhando para as mesmas referências. Pra embasar essa ideia, ele cita que o filósofo Sartre disse que “o inferno são os outros”; e quase 70 anos depois, outro filósofo, o sul-coreano Byung-chul Han, inverteu a ideia dizendo que o nosso problema não é mais o outro. É a falta dele, porque a nossa sociedade tá virando “um inferno do igual”.
Antes da conclusão, o Luan explica que o diferencial não tá no formato, mas no que você coloca dentro dele: o que você viveu, o que você pensa, o que você gosta.
Voltando pro tal nicho (inexistente) do lifestyle, deu pra entender que ele é um grande vazio? Mas um vazio tão barulhento que colocou na sua cabeça a ideia de que você precisa ter meta pra tudo, das páginas de leitura por dia até o treino de corrida que precisa bater sempre a meta do anterior. Aí que você passa longe de alcançar o tal bem-estar e fica só com o mal-estar mesmo.
As redes sociais terem virado shoppings não são o problema… mas sim, como a gente as usa.
A psicóloga e doutora em Saúde Pública, Jeane Tavares, lembrou no papo com o Drauzio que as plataformas viraram shoppings e, hoje, são mais voltadas para o consumo do que para aquela ideia inicial de criar novas conexões no online e realizá-las ao vivo, fora da internet.
Pra gente que trabalha na Creator Economy, a possibilidade de comprar direto nas plataformas representa um caminho pra muito creator que não vai chegar a esse patamar de “celebridade”, atingir milhões de seguidores e viver de publi. E qualquer pessoa no mundo prefere fazer uma compra ouvindo o relato de quem já usou um produto, mas o brasileiro é tão mestre nessa arte que criou até uma expressão só pra isso: o “boca a boca”.
Por isso, o problema não é a ideia romântica de a internet ter cedido espaço para os shoppings virtuais, mas sim, a forma como a gente escolhe se relacionar com as redes daqui pra frente.
“As redes sociais associam o bem-estar à outra pessoa gostar do que está vendo em mim. Então a gente passa a depender de uma forma crônica do olhar do outro. E muitas pessoas perdem um pouco a noção de que os produtores de conteúdo são vendedores. Essa vida que é exposta na internet não mostra que alguém escreveu um roteiro, que a empresa deu a roupa, tá ali acompanhando e tá pagando. Existe uma quantidade importante de pessoas por trás daquela imagem, que parece tão espontânea, da pessoa que levantou feliz da vida 4h para correr.”
A Jeane explica que, pra sair dessa, a gente precisa tomar consciência da “plataformização da vida”. Hoje, tudo precisa passar pelas redes. Sua vida (documentos, banco) já tá no celular, mas a nossa dependência foi além e se entregou para a necessidade de postar o tempo inteiro.
Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!
Gabriel Paes é jornalista e creator. Cobre a inseparável mistura entre esporte e política n’O Contra-Ataque, de vez em nunca dá uns pitacos no podcast Fervedouro e assina a newsletter semanal da YOUPIX, onde fala sobre cultura, sociedade e Creator Economy.