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Creator Economy e cultura brasileira: a dupla que colocou a gente nos holofotes

A influência dos brasileiros não-creators têm crescido cada vez mais pelo mundo – e conquista corações por onde passa

Foto: Michael Buckner/2026GG/Penske Media via Getty Images

A creator inglesa Tati Kapaya mapeou as últimas 4 décadas na cultura pop e identificou um padrão interessante: os anos terminados em “6” são marcantes, ou na real mudam a nossa percepção do que é “ser marcante”?

A proposta dela é interessante porque chama atenção pra um recorte específico, mas que poderia ser outro. Por si só, os anos com final “0” já são um marco – eles é que delimitam o início de uma nova década, em termos históricos. Geralmente, é assim que a gente divide movimentos culturais e épocas, como os “anos 90”, por exemplo.

Sendo assim, não tem hora melhor pra cultura brasileira viver um ano “6” do que agora: depois de um Globo de Ouro e um Oscar no ano passado, com “Ainda Estou Aqui”, chegou a vez do filme “Agente Secreto” fazer história e ganhar os prêmios de melhor filme estrangeiro e melhor ator de drama, com Wagner Moura. O ator baiano partiu numa verdadeira saga em dezenas de entrevistas para TV Shows estadunidensesrevistas e jornais que mostram como a gente tem o molho – incluindo um dos maiores jornais do mundo, o New York Times, que de quebra ainda apontou ele como o principal candidato ao Oscar de melhor ator.

O movimento vai de encontro com algo que o leitor assíduo da YPX News já tá sabendo: em junho de 2025, durante a cobertura de Cannes Lions, a gente contou que a creator Camila Coutinho levantou a bola da nossa cultura e disse que “we have the molho”. Ela disse no contexto da Creator Economy global e explicou como a nossa criatividade, muita vezes movida pela falta de recursos, é referência no mundo inteiro.

Que a gente é dono de uma das maiores fatias do mercado global de criação a gente sabe, mas parece que essa influência cultural vai se expandir rápido pra outras áreas. 

Se numa ponta a gente tem o tal do molho, na outra a gente tem o carisma: um artista gringo sabe que zerou a vida quando seu Instagram começa a ser inundado por pedidos de “Come to Brazil“. O meme virou nome de página e esse nosso jeitinho pedinte funciona demais. Tem gente chatérrima, tipo a Adele, que é daquelas que faz “Global Tour” que não sai de Londres e as do tipo Rosalía e Shawn Mendes, que jajá é capaz de pedirem cidadania brasileira. 

E, na boa, isso não é de hoje. Madonna e Lady Gaga lotaram Copacabana, mas Rod Stewart e Rolling Stones fizeram o mesmo há décadas. Quem é que não quer uma fanbase apaixonada e engajada como a nossa?

Vem aí outra onda da “brazilian storm”?

Em 2011, a imprensa estadunidense lançou o termo pra falar sobre a nova geração de surfistas brasileiros que passou a se destacar no cenário mundial. A alcunha pegou de vez em 2014, quando pela primeira vez na história, um brasileiro ganhou o Campeonato Mundial de Surf, com Gabriel Medina. 

Pra você ter uma ideia, do início do Mundial em 1964, até 2013, a gente nunca tinha trazido um caneco pra casa. Desde o primeiro título do Gabriel, a gente ganhou 8 dos 11 disputados. Isso mostra que, quando uma geração nossa surge em qualquer segmento, ela chega pra ficar. 

Dessa vez, parece que a bola da vez é no cinema, e as redes sociais ficaram lotadas de memes dizendo para pais e mães tirarem as crianças do futebol e as colocarem no teatro! Isso em ano de Copa do Mundo também, tá?

O protagonista do momento, Wagner Moura, inclusive é alvo recorrente de embates políticos nas redes pelas pautas que defende, como no caso do PL do Streaming, que regulamenta os serviços de vídeo sob demanda e prevê a cobrança de um tributo sobre o faturamento das empresas que, no Brasil, têm o 2º maior mercado do mundo. O projeto de lei deve ser votado em fevereiro e, com mais uma cerimônia de Oscar promissora pra gente, a pauta deve ganhar cada vez mais espaço no noticiário e nos feeds. 

Ainda estamos aqui, torcendo como nunca

É difícil marcar o momento exato em que a “brazilian storm” cultural começou, até porque ela não surge de um evento específico, mas sim de uma série de fatores, como: os memes brasileiros são os melhores do mundo (chora geração 9gag); atletas brasileiros como jogadores de futebol são conhecidos pelo lifestyle fora de campo tanto quanto pelos resultados esportivos; e, é claro, por termos atores e músicos cada vez mais presentes no cenário mundial, como é o caso da Anitta, que construiu uma baita carreira internacional e do próprio Wagner Moura, que foi indicado pela primeira vez no Globo de Ouro há 10 anos, por interpretar Pablo Escobar na série “Narcos”. 

Aliás, cada vez que o mundo subestima o poder da audiência brasileira, o tombo é gigantesco. Foi o caso de toda a campanha em torno do filme Emilia Pérez, que foi lançado como o queridinho em várias premiações do cinema – o que deixou a gente bem enciumado, já que, dessa vez, a gente tinha um filmaço na mão. 

Depois que o musical venceu o prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa, comentários como “Sabotaram o prêmio do país errado”, “Nunca serão os melhores do ano do Faustão” e “2025 e continuam roubando o nosso ouro” foram só alguns dos milhões que pipocaram na internet e perduraram até a cerimônia do Oscar.

Mas o que é nosso tava guardado: Fernanda Torres levou o prêmio de Melhor Atriz num páreo duríssimo com Angelina Jolie, Kate Winslet, Tilda Swinton, Pamela Anderson e Nicole Kidman. A postagem oficial do Globo de Ouro soma quase 3 milhões de curtidas, num movimento inédito para a premiação, assim como um post da Academia ainda no final de 2024, meses antes da premiação, que tá nessa faixa de curtidas e de quebra registrou mais de 842 mil comentários. O brasileiro não brinca em serviço. 

Entre o Golden Globes e o Oscar, deu tempo de ver a protagonista de Emilia Pérez, Karla Gascón, se afundar ao criticar a pressão dos brasileiros. Agora, fica todo mundo de orelha em pé quando o assunto é Brasil, até quando, aparentemente, nada aconteceu: a reação do ator Oscar Isaac à vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro fez uma galera questionar se ele ficou positivamente surpreso, ou se achou que o brasileiro não merecia o prêmio. Dessa vez vamos fazer vista grossa, circulando pessoal. 

Goste o mundo ou não, o cinema brasileiro chegou no topo pra se manter assim. E toda essa carga tem uma razão: nós [insira aqui qualquer nacionalidade que não seja os EUA ou algum país da Europa] sempre fomos preteridos e a nossa cultura nunca foi vista com a qualidade que entrega. Claro que a gente melhorou muito de décadas pra cá, mas o próprio Wagner Moura falou sobre a honra que é ser indicado para essas premiações, mas como é problemático ele ser um dos primeiros latinos indicados e o primeiro brasileiro a vencer o Globo de Ouro, sendo que outros talentos já surgiram na história. 

E uma ferida específica ainda vive na nossa memória: no Oscar de 1999, outro filme de Walter Salles, Central do Brasil, havia sido indicado para melhor filme estrangeiro – e tudo bem, perdemos, mas o páreo foi duríssimo. Quem levou foi “A Vida é Bela”, um filme realmente incrível. A treta rolou mesmo na categoria de Melhor Atriz, que a Fernanda Montenegro merecia – com todo respeito às concorrentes de peso como Cate Blanchett e Meryl Streep -, mas foi preterida pela então novinha Gwyneth Paltrow pelo filme “Shakespeare in Love”, que tem a modesta avaliação de 3.3 no Letterboxd. 

Além da questão de ter sido escanteada por ser uma atriz brasileira num filme em português, que a gente mal sabe se os votantes da Academia viram na época (hoje é mais que obrigação), tem o fato histórico de que, enquanto homens são premiados por serem maduros, geralmente depois dos 35, as mulheres só ganham quando são novas, dos 26 pra baixo, como a creator Jojoca apontou em um levantamento do Oscar

O saldo final é de que essa edição do Globo de Ouro registrou o maior engajamento da história, batendo o recorde do ano passado. Por que será, né?

A cereja do bolo: a América Latina

2026 começou com os dois pés na porta pra quem é latinoamericano, porque a gente mal tinha se curado da ressaca do Reveillón, e já tomamos aquele susto com a notícia de que o Trump tinha ordenado uma invasão à Venezuela pra capturar o presidente Maduro. A questão, pra essa Newsletter, não é apoiar ou fazer oposição ao governo venezuelano, mas sim entender que um país vizinho teve sua soberania atacada diretamente – e a gente pode estar no radar também. Por que não?

Essa invasão parece ter sido a cereja do bolo que faltava pra uma união da parte sul do nosso continente, que já vinha numa boa onda. O cantor portorriquenho Bad Bunny, que esteve no Top-5 artistas mais ouvidos no Spotify EUA, anunciou uma turnê global pra esse ano que não incluiu o país na lista – uma clara cutucada à cultura estadunidense de se achar o centro do mundo, e até aos outros músicos que anunciam turnês globais que não passam por aqui ou pelo continente africano, por exemplo. 

Quando ele lançou o álbum “Debí Tirar Más Fotos”, que traz na capa duas cadeiras de plástico lado a lado, em frente a uma bananeira, até quem não curtia a música do cara passou a entender como a cultura latina tem muitas semelhanças, desse nosso jeito de descansar olhando a paisagem do quintal, ou ficando na calçada observando o movimento da rua, até as festas de aniversário na garagem. 

Pra quem é usuário de Twitter (desculpa, é assim que a gente se trata, nessa plataforma que funciona como a grande pausa pro cigarro na internet), um fenômeno muito doido passou a acontecer: os feeds dos brasileiros foram invadidos – no melhor dos sentidos! – por tweets em espanhol dos nossos internautas vizinhos, assim como os nossos passaram a rodar por lá também. Como a gente não via em muito tempo, a cultura latina tá se aproximando. 

Só falta a Shakira desbancar as divas pop estadunidenses e ser anunciada pro showzão de Copacabana em maio. Se ela fala português, é gente como a gente. Pronto.


Esse texto foi originalmente publicado na Newsletter da YOUPIX. Inscreva-se pelo nosso site.

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