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A crise da Ypê e a limpeza da imagem de seus influenciadores digitais

Enquanto todos falam do escândalo sanitário e da polarização política, pouco se diz sobre um lado mais vulnerável da história: os criadores de conteúdo que deram seu rosto para a marca.

A Anvisa suspende os lotes, a empresa recorreu, a internet pegou fogo e consumidores viraram militantes. No meio desse furacão, há um grupo de pessoas que acordou com a casa em chamas sem nem ter dormido no local: os influenciadores e criadores de conteúdo que, em algum momento, associaram seu nome à marca Ypê.

A conversa pública focou na contaminação por “pseudomonas aeruginosa”, na politização do caso e na reação de ambos os lados do aspecto político. O que ninguém ainda analisou a fundo é o risco sistêmico que uma parceria de marca representa para quem vive da confiança da sua audiência.

Um influenciador não vende produtos, vende confiança. Quando um criador aparece recomendando algo, a audiência não está comprando a marca, está comprando a curadoria de alguém em quem confia. É esse pacto implícito que torna o marketing de influência tão eficaz. E é exatamente esse pacto que explode quando a marca entra em crise.

Percebe-se aí um problema central: quando uma empresa parceira enfrenta um escândalo sanitário, fraude ou polarização política intensa, o creator não é visto como vítima do contrato, mas sim como cúmplice, mesmo que não soubesse de nada. No caso da Ypê, a sobreposição entre crise sanitária real e polarização política criou um campo minado duplo: quem divulgou a marca antes do escândalo da Anvisa agora pode está sendo questionado por uma parte da audiência como alguém que “empurrou produto contaminado”.

O prejuízo financeiro imediato, perda de seguidores, queda de engajamento, e com crescimento da crise, a possibilidade de cancelamento de outros contratos por marcas parceiras, tudo isso é mensurável, mas o dano mais grave é o que não aparece em nenhum relatório: a erosão silenciosa da credibilidade construída ao longo de anos.

Audiências têm memória. Um criador que recomendou um produto que virou alvo de recolhimento sanitário carrega esse histórico nos comentários, nos prints guardados, nas menções que ressurgem sempre que uma nova polêmica acontece. Na internet, nada some, tudo vira munição futura.

Se não bastasse isso, há um agravante: a crise da Ypê vem sobre uma base já desgastada politicamente desde 2022, quando campanhas de boicote já atingiam a marca. Um influenciador que fez parceria, sem pesquisar esse histórico, assumiu um risco que simplesmente não estava precificado no contrato.

A lógica do cancelamento nas redes sociais raramente é cirúrgica. Quando uma marca entra em colapso de reputação, a audiência frequentemente transfere parte da indignação para quem a promoveu, como um efeito dominó. O raciocínio popular é simples: “você foi pago para me convencer a confiar nessa empresa.”

Criadores com audiências mais jovens, engajadas e com forte senso de identidade comunitária são os mais vulneráveis, pois a sensação de traição é proporcional à proximidade percebida entre creator e seguidor. Quanto mais “autêntico” era o posicionamento do influenciador, maior o dano quando a autenticidade se revela negociada.

Uma reputação se constrói em anos! Quando somos responsáveis pela carreira de um criador, assumimos também a responsabilidade pela saúde de sua marca, incluindo dizer não para parcerias que carregam risco reputacional, mesmo quando o cheque é atraente. Antes de seguir com qualquer proposta, costumo auditar o histórico reputacional da empresa e o alinhamento de valores com o creator, pensando no risco que a marca pode custar para a pessoa a longo prazo. Proteger a imagem dos nossos criadores começa antes da assinatura do contrato.

Pensando nisso, todo creator precisa passar por seis etapas antes de assinar qualquer parceria comercial: 

  • 1. Auditoria de reputação da marca: antes de fechar qualquer contrato, pesquise o histórico da empresa: crises anteriores, ações trabalhistas, posicionamentos políticos, recalls e processos. O passado da marca se torna o seu passado.
  • 2. Cláusula de recisão por crise de imagem: inclua no contrato o direito de rescisão imediata e sem multa caso a marca enfrente investigações sanitárias, processos criminais, escândalos éticos ou polarização política que afete sua audiência-alvo.
  • 3. Cláusula de alinhamento de valores: especifique que o contrato pressupõe alinhamento com seus valores públicos declarados. Mudanças relevantes no posicionamento ou conduta da marca autorizam a suspensão imediata das atividades.
  • 4. Protocolo de comunicação em crise: defina no contrato o que acontece quando a crise estoura. isto é, quem comunica o quê, em qual prazo, e se o creator tem direito a fazer silêncio público sem ser considerado em descumprimento contratual.
  • 5. Posicionamento público: nem defesa nem ataque: quando a crise acontece, a maioria dos creators fica em silêncio, lido como cumplicidade. O ideal é uma nota breve e honesta: “não tenho informações suficientes para me posicionar e suspendo as publicações até esclarecimento.”
  • 6. Nunca endossar o vínculo financeiro: defender uma marca em crise porque você tem contrato ativo é o pior dos cenários, a audiência percebe. Prefira o desconforto de uma pausa silenciosa ao dano permanente de uma defesa interessada.

A creator economy amadureceu rápido demais para continuar tratando contratos de marca como simples transações. Seu nome, sua voz e a confiança da sua audiência são ativos que levaram anos para construir, e podem ser comprometidos em 48 horas por uma crise de uma empresa que você nem controla. Proteja-se juridicamente, pesquise antes de assinar. E quando a crise vier, tenha um plano porque ela sempre vem.


Vitor Bastos é fundador e CEO da Tambor.biz, agência que há 8 anos impulsiona o negócio de creators, desenvolve comunidades e cria estratégias de influência com dados e metodologia própria. Pesquisador e consultor em marketing de influência, lidera pesquisas nacionais, incluindo estudos sobre criadores com deficiência, e programas de aceleração que fortalecem a creator economy no Brasil.

Atualmente cursa pós-graduação em Creator Economy na ESPM, aprofundando metodologias, negócios, tendências e modelos de impacto.

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