Se a gente já tava cansado, nesse climinha de guerra eleitoral então…

Imagem: Tim Lucke/Pinterest
A essa altura do campeonato, quem não experimentou algum sintoma de burnout, TDAH, depressão ou ansiedade (quando não as duas juntas), tá vivendo no meio do mato. Toda semana eu me deparo com algum vídeo de pessoas andando antigamente e o melhor são os comentários do tipo “nossa, olha a velocidade das pessoas”, como se não existisse pressa antigamente. Aliás, como se não existisse nenhuma das patologias que eu citei na abertura do texto. Essas coisas sempre estiveram aí, só que com roupagens diferentes. A gente esquece, vive de novo, se espanta, diz que vai mudar, e tá aí a próxima geração pra repetir os nossos erros. Como Nossos Pais.
No mundinho digital, nossa crise de exaustão mental se dá pela pressão de ter que alimentar o algoritmo – ou do tipo de conteúdo com o qual ele nos alimenta – ser alimentado -, mas poucas vezes a gente para pra falar sobre o esgotamento do leitor, da audiência, de quem mantém o nosso trabalho vivo.
Não que antes fosse diferente, mas principalmente agora com o volume infinito de conteúdos de IA, cada feed mostra uma avalanche diária de vídeos curtos, os gatilhos mentais vão te acertando aos poucos, é oferecimento de curso de coach, é comunidade paga, é publi boa, é publi ruim, é textão, é textinho, é carrossel de IA. Esses já fiquei craque, nem abro mais. A treta dessa fadiga toda especificamente hoje, 10 de setembro, é que em menos de um mês tem eleição. Aí que a bateria social não aguenta mesmo.
Segundo uma pesquisa do Datafolha de março deste ano, a maioria dos brasileiros se informam sobre política pela TV (58%) e pelas redes sociais (54%). Ou seja, apesar do cansaço, a gente segue conectado, né? Só se for online. 2 a cada 10 pessoas têm o hábito de conversar sobre política com amigos e parentes, o que mostra que o espaço pra diálogo tá curto.
Em entrevista ao gshow, a doutora especialista em gerações Thaís Giuliani diz que tem muito assunto pra pouco entendimento nosso mesmo:
“O volume de conteúdo hoje ultrapassa qualquer capacidade de processamento humano. Isso acaba gerando muito estresse, muito burnout, muito desgaste, inclusive cognitivo, não só emocional.”
Os “tipos” de eleitores
Diante desse cenário, que a gente sabe que é real, dá pra apontar um movimento em que o leitor, saturado de ruído e polarização, escolhe desligar o telefone pra preservar a própria saúde mental? Ou será que o excesso de estímulo faz as pessoas deslizarem a tela mais rápido e pular vídeos ensaiados demais? Como nenhuma análise de comportamento no Brasil é simples, porque esse país é imenso e muito diverso, a gente fica com alguns grupinhos que, quem é da Creator Economy, vale a pena saber com quem tá lidando:
- A bolha mega engajada: de um lado ou de outro, aqui vive a militância ativa das redes, que muitas vezes fala mais sobre a outra do que sobre si mesma. Pra essa galera, o ano eleitoral não gera cansaço, mas uma boa dose de dopamina.
- Os nichos blindados: se você é do mundo das blogueiras, do futebol, ou dos games, o mundo pode tá caindo lá fora que você só quer saber da tua parada. Pra roubar uns segundos da sua atenção, precisa atingir diretamente o seu nicho. Então é só ignorar o que vier de eleição no feed, consumir uma coisa ou outra, mas a fadiga certamente vai ser menor.
- Agora sim, quem tá exausto de verdade: esse recorte é dificílimo de imaginar, porque você deve ter alguém assim no grupo de amigos, no trabalho e na família. São idades, gêneros e raças diferentes que nem conseguem conversar direito sobre o cansaço das redes, porque evita ao máximo usá-las. Até querem se informar mais, mas a guerra pelo engajamento os afasta. Tem até um creator ou outro que gostam de acompanhar, mas difícil passar imune por outros estímulos da plataforma.
Creator Economy, a régua subiu.
Dentro do nosso mercado, a gente já tá mais que acostumado à corrida pela atenção nos primeiros segundos de um conteúdo, ou pelas thumbs apelativas no YouTube. Mas, agora, parece que não é mais só um lance de quem capta primeiro os olhos que já estão abertos, mas sim, quem convence o usuário de ficar online pra consumir aquele conteúdo. O público cansou de quem tenta surfar pautas das quais não entende ou quem força a barra.
As marcas, então, tomam bomba de todos os lados: quando escolhem um creator que se posiciona politicamente pra uma campanha – mesmo que ela não tenha NADA a ver com política. Ao mesmo tempo, focar só nos creators que se dizem neutros tampouco parece uma saída interessante, porque as pessoas querem ver um posicionamento.
Em meio a todo esse caos, que não se encerra depois de outubro com o fim das eleições, dá pra esperar que algum creator surja como ponto de clareza? Que ofereça conteúdo de verdade, com repertório cultural, servindo quase como um refúgio digital?
Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!
Gabriel Paes é jornalista e creator. Cobre a inseparável mistura entre esporte e política n’O Contra-Ataque, de vez em nunca dá uns pitacos no podcast Fervedouro e assina a newsletter semanal da YOUPIX, onde fala sobre cultura, sociedade e Creator Economy.