Como Sterling Point resgatou o conforto dos dramas dos anos 2000, trocando a rivalidade feminina por acolhimento e laços reais

Chegando tarde para comentar do seriado que já foi mais que comentado, mas achei que merecia ainda assim. Num momento em que o mundo está cansado de mais do mesmo e que as fórmulas de séries adolescentes parecem não se esforçar em nada, surge Sterling Point, que virou queridinha logo de cara dos millennials, essa espécie que deixou de ser adolescente há muitos anos. Mas por que um monte de ex-adolescentes se apegou tanto assim?
Muitos, como eu, somos grandes fãs dessas obras de fácil digestão. Nos apegamos pelo que não vivemos mais, mas que nos causa conexão pelo passado e também por exigir muito pouco dos nossos cérebros no fim de um dia de trabalho (no meu caso, somado à camada da maternidade). Mas Sterling Point tem algo a mais do que a simples fórmula de sentir frio na barriga por uma história de amor que não é a sua: ela conecta a geração que veio antes por meio de uma nostalgia funcional, não de um mero pastiche.
Na trama, acompanhamos Annie Jacobson (Ella Rubin), uma garota de 17 anos criada em Nova York que, após ser rejeitada em um programa de verão, descobre ter herdado uma ilha no Canadá (a tal Sterling Point) deixada por um avô misterioso que ela nunca conheceu. Ao viajar para lá em busca de respostas sobre o passado de sua falecida mãe, Annie se vê imersa em segredos de família, triângulos amorosos, luto e descobertas sobre quem realmente é, convivendo com um grupo de jovens em uma ambientação misteriosa, bucólica, quase um cantinho sagrado.
Uma resenha da Time descreve a série como um retorno a um ritmo mais lento de adolescência, onde os personagens passam o tempo só andando de barco ou em sessões de cinema ao ar livre, do jeito que os adolescentes faziam antes de os verões virarem uma corrida por estágios e fama no TikTok, e nota ecos de Gilmore Girls no cenário pitoresco e traços de Dawson’s Creek na sinceridade adolescente. Para uma millennial que cresceu na era de ouro do teen drama, com Dawson’s Creek, One Tree Hill, Gilmore Girls e The O.C. como programação obrigatória, e mesmo tendo passado da idade dos personagens, esses formatos ainda parecem reconfortantes. Foi exatamente esse gatilho de nostalgia que fez a série estourar no boca a boca.
O gancho com os millennials não é regressão pura. A própria Time destaca que a série não é anacrônica: celulares existem, mas não pegam sinal na ilha, e questões de sexualidade são tratadas com naturalidade. É a combinação de uma estética e ritmo old-school (romance por olhares e conversas, amizades físicas e emocionais) com sensibilidades atuais. Esse equilíbrio entre nostalgia e atualização foi o que dominou as threads e vídeos de reação nas redes — alimentado em cheio pela onda de conteúdos throwback que dominam a internet. Basta ver a febre de edits no TikTok resgatando cenas clássicas de The O.C. embaladas por “Hide and Seek” da Imogen Heap, as listas nostálgicas do BuzzFeed revivendo a era do MSN Messenger e dos MP3 players carregados de indie rock, ou a enxurrada de carrosséis no Instagram ressuscitando as velhas Cyber-shots de 2007 (só falta voltarem os álbuns caóticos e sem filtro no Facebook para o combo ficar completo). Os criadores sacaram exatamente esse espírito do tempo: Josh Schwartz e Stephanie Savage (as mentes por trás de Gossip Girl e The O.C.), ao lado de Megan Park, desenharam uma ponte geracional deliberada entre quem viveu aquela era de ouro e quem a descobre hoje em cortes virais.
No Rotten Tomatoes, a série obteve uma pontuação da crítica quase perfeita, com 92% de aprovação dos críticos e 86% do público logo na estreia. Os espectadores descreveram a produção como charmosa, divertida e sutil, com elogios especialmente ao elenco e à escrita. A revista Variety publicou uma resenha bastante elogiosa, descrevendo-a como algo autêntico e comovente, que vai além do lugar-comum do gênero YA (Young Adult) ao tratar de luto, autodescoberta e coragem para encarar o passado.
A série realmente decolou rápido. No dia da estreia, entrou em 2º lugar no Prime Video (atrás de Ride or Die), mas uma semana depois já era o título mais popular nos Estados Unidos, segundo o FlixPatrol. Em termos de audiência real, acumulou mais de 933 milhões de minutos assistidos entre 7 e 13 de agosto, tornando-se o segundo título de streaming mais visto daquela semana, atrás só de My Life with the Walter Boys, da Netflix (inexplicável no meu ranking pessoal, porque essa série é sofrível em todas as frentes possíveis).
Mundialmente, o impacto foi ainda maior: chegou a ser a produção mais assistida do Prime Video globalmente, liderando em 26 de 47 países onde estava em alta, incluindo Austrália, França, Nova Zelândia, África do Sul e Espanha. Esse desempenho foi forte o suficiente para a Amazon renová-la para a 2ª temporada em 20 de agosto, apenas duas semanas após a estreia.
E, como qualquer boa série com essa temática, a trilha sonora dá o tom a cada cena, ajudando a construir o sentimento dos personagens. Incluindo artistas como Olivia Rodrigo e MUNA, e reforçando a estética folky-pop mencionada pela crítica, a trilha é bem atual e cumpre a função de fazer o show conversar com os adolescentes de hoje, servindo de elo com o que funciona para um conteúdo viralizar nas mídias sociais.
Mas talvez o grande trunfo que atualiza a série e faz nós, millennials agora adultas, nos apaixonarmos ainda mais é a sororidade entre as personagens femininas. Ao contrário dos teen dramas do início dos anos 2000, não existem antagonistas vilanizadas aqui; existem laços reais que traduzem o verdadeiro amor entre mulheres, algo que as produções antigas simplesmente não sabiam como abordar e que esta faz com maestria. Claro que o triângulo amoroso é envolvente, ainda mais quando nenhum dos garotos é tóxico (nem mesmo o riquinho), e claro que a presença de Jeffrey Dean Morgan – o nosso eterno “genérico do Javier Bardem” – faz uma conexão deliciosa com o final da segunda temporada de Grey’s Anatomy, que tanto marcou a nossa geração. Aliás, o fato de ele ser casado na vida real com a Hilarie Burton, uma das protagonistas de One Tree Hill, só adiciona mais camadas a esse ímã millennial. Mas o jeito como a série cura a nossa versão adolescente, alimentada por anos de rivalidade feminina na TV, é o que realmente faz esse show ser um abraço tão necessário para mim e para toda essa nossa geração em 2026.
Fabi Froes trocou o jornalismo tradicional pela revolução do YouTube, onde atua há mais de uma década entre parcerias e RP de crise. Autora de “Mediocridade: Crônicas de uma Mãe Millennial em Busca do Ordinário”, Fabi é mãe da Mia e do Nuno, corredora nas horas vagas e colecionadora de carimbos no passaporte. Entre um café e uma Coca Zero, busca o equilíbrio entre o caos da vida profissional e o prazer despretensioso de um projeto DIY.