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Cazétevisação do jornalismo: o que será dessa Copa?

A disputa por audiência entre Globo e Cazé TV agora vai pro tudo ou nada

Muita gente reclama da “Cazétevisação” do jornalismo, e com razão. Tem uns vacilos que acabam passando do limite da zoeira, e aí muita gente classifica a CazéTV de “Pânico na TV do futebol”: muitas piadas acabam cruzando a linha do humor pra repetir chacotas de estereótipos, ou apelar pro humor hétero “lá ele” – que tem horas que é muito engraçado, mas fica chato rapidinho se você não sabe trocar a fita. 

Ao mesmo tempo, com a chegada da Cazé TV, a gente ganha mais uma opção na hora de assistir uma Copa do Mundo ou Olimpíadas, algo que a gente sempre quis, já que a vida inteira fomos “reféns” (no bom sentido, eu acho) das transmissões da Globo. Uma grande emissora a nível mundial, como é a Globo, aplica uma série de restrições do que seus profissionais podem ou não falar, de tom da conversa, das pautas que os jornalistas podem abordar em entrevistas e reportagens. É engessado – um termo que a gente detesta na Creator Economy. 

E, hoje, as linhas entre o que é rede social e o que é televisão tão muito confusas – também no bom sentido, tá? Muita gente trocou os canais tradicionais da TV por canais no YouTube. Em uma oportunidade sem precedentes, um creator que grava seus vídeos dentro do seu quarto, sem quase nenhuma estrutura, pode competir pela atenção da audiência com a maior emissora da América Latina. Claro que não em volume, mas não é preciso milhões de seguidores e views pra construir uma comunidade e uma carreira de sucesso na Creator Economy. 

Sendo assim, a Cazé TV puxou justamente creators e influenciadores – bem como alguns jornalistas de ofício mesmo – para as suas transmissões. E a gente precisa urgentemente encontrar o meio do caminho entre umas perguntas chatonildas da Globo tipo “qual a sensação da vitória hoje?” e a esculhambação completa de um Defante, em plena zona mista pós-jogo com um atacante da seleção com o apelido de “pombo”, dizendo que “o Brasil inteiro conhece o Pombo, mas tem como mostrar a rolinha pra mim?”.

A Cazé TV faz as transmissões serem um pouquinho mais humanas e aproxima a audiência do conteúdo – prato cheio pra marcas, agências e creators que vão cobrir a Copa inseridos na Creator Economy -, principalmente quando tem aqueles momentos com os torcedores, que a galera da Cazé TV tira de letra. Ao mesmo tempo, parece que todo mundo fala igual: “Nossa, ele jogou um absurdo/Nossa, isso aí é covardia/Nossa, o que ele tá jogando de bola é sacanagem.” O PH Santos, comunicador e crítico de cinema, falou sobre isso em seu canal:

“A Globo tá sem personalidade. Ora quer ser geTV, ora quer criticar a Cazé TV. Esta [última] tem personalidade até demais, tá na hora de acertar um pouco: não dá pra todo mundo querer virar uma versão de Casimiro Miguel, porque ele funciona justamente por ser autêntico

Ver alguns profissionais tentando parecer mais espontâneos do que realmente são dá um pouco de vergonha alheia. O resultado não tem outro nome: caricatura.”

Não acho que tenha certo ou errado nessa história, mas a gente precisa aproximar essa parada humana sem esquecer do jornalismo de apuração, que aprofunda. Porque é isso: com o microfone na boca transmitindo o tempo inteiro, cedo ou tarde a gente acaba falando alguma bobagem.

Cazétização e Brasil pioneiro

Com todos os direitos do maior evento esportivo do mundo, a Cazé TV conseguiu, ainda em 2022, montar um cenário no qual o streaming se tornou uma das principais formas de se consumir esportes. Foi por meio de plataformas como Twitch e YouTube que o canal conseguiu um novo status para a Creator Economy. 

A Copa do Mundo se torna, em 2026, 100% distribuída pelo canal, competindo de frente com emissoras de televisão tradicional.

O centro não é mais os EUA. A Creator Economy se descentralizou, e, na América do Sul, o Brasil desponta como protagonista com a onda de live sports. Na VidCon 2023, o país foi citado como referência nesse movimento, com destaque para a CazéTV. Aqui, a transmissão já nasce diferente: não é só streaming, é streaming com creators. Enquanto outros mercados replicam a lógica da TV em apps, o Brasil adiciona uma nova camada. Mais interativa, mais distribuída e mais conectada à linguagem da internet.

A mídia tradicional já entendeu: não dá mais para disputar atenção sem creators. O movimento não é substituir a TV, mas expandir a conversa.

Essa análise sobre a “Cazétização” fala sobre a mudança no perfil e formato das transmissões esportivas, em paralelo ao assunto desse textão, que aborda o caráter jornalístico da programação oferecida pela Cazé TV e pela Globo e ge TV. O termo veio da pesquisa Re:Lance, um estudo inédio sobre o impacto da Copa do Mundo na Creator Economy. Clique aaqui pra fazer o download:

Quem define a disputa pela atenção entre Globo e Cazé TV, com SBT correndo por fora?

Falando sobre a transmissão ao vivo das partidas, especificamente, a Globo tende a nadar de braçada nos jogos da seleção brasileira. Alguns fatores contam pra isso, sendo o maior de todos, o delay. 

A transmissão via antena digital é muitos segundos mais rápida do que a transmissão via internet – mais ou menos 3 segundos no sinal da antena, comparado a 15 segundos pela internet, a depender da conexão na sua casa. Se você tá num lugar isolado, ou em outro país, tudo bem. Mas ouvir o vizinho gritar gol, sendo que pra você o time ainda tá no campo de defesa, é triste. Principalmente numa disputa de pênaltis, por exemplo – só quem viveu o drama sabe como corta a brisa. 

Ainda sobre os jogos do Brasil, o SBT corre por fora porque contratou um reforço de peso quando o assunto é a nossa seleção na Copa: Galvão Bueno. Até crianças mais jovens reconhecem a voz dessa lenda da narração, apesar de muita gente achar mala (quem lembra da campanha “Cala a boca, Galvão!” na Copa de 2010?). Goste ou não, é figura carimbada no imaginário do torcedor. Ele é o trunfo da emissora pra competir com os dois grandes canais nessa Copa. 

Vale destacar algo que a gente fala bastante quando o assunto é essa disputa entre Globo e Cazé TV, mas nem todo mundo sabe: a audiência da TV aberta é infinitamente maior do que a da internet. A gente tá falando sobre um país de dimensões continentais e com a maioria da população sem internet de qualidade. Parece um número gigantesco ver uma transmissão com 5 milhões de aparelhos simultâneos, mas esse número é corriqueiro pra qualquer programa de televisão, levando em conta só uma região. Imagina o país inteiro.

Pro fã do esporte, a disputa é clara: enquanto a Globo vai passar 55 partidas da Copa do Mundo, a Cazé TV vai transmitir TODAS as 104.

Aí vem aquela coisa: você pretende assistir Áustria x Jordânia às 01h da madruga de uma quarta-feira? Também é preciso levar em conta os jogos que realmente vão disputar a atenção da audiência. Fato é que, na fase de eliminação, quando os jogos ficam mais interessantes, a Globo não vai exibir todas as partidas. A Cazé TV, sim.

Essa Copa do Mundo vai além da transmissão

Saiu um texto em abril, no Portal YPX, sobre essa Copa ser vista em segunda tela

Esse conceito de segunda tela vira sinônimo de celular justamente quando surge o feed infinito, principalmente no formato de vídeo curto. E aí, ao invés de interagir com o futebol de alguma forma, já que você tá falando sobre o jogo com outras pessoas, você permite que sua atenção seja roubada por vídeos que, provavelmente, vão ser completamente esquecidos alguns segundos depois de vistos. 

Tem também o fenômeno das bets, que hoje dividem o conceito de segunda tela com os vídeos. Milhões de pessoas costumam assistir futebol com o site da casa de apostas na mão, pra poder finalizar a bet caso os rumos da partida mudem, ou então, pra betar ainda mais. 

O streaming esportivo passa a ser parte central da Creator Economy.

Alguns dados relevantes que a gente mostrou na pesquisa: 70% dos brasileiros já está consumindo conteúdo sobre a Copa, enquanto 95% dos fãs de esporte vão assistir aos jogos do torneio (Fonte: “O Brasileiro e a Copa: Consumo, Mídia e Influênciaˮ por Resenha Digital Clube à Data-Makers). Ainda, 97% da GenZ assiste à Copa de alguma forma e, pra esse textão, o dado mais relevante é o de que 74% acompanha jogos enquanto usa redes sociais (Fonte: InstitutoZ + Trope, Copa 2026, 2025 / InstitutoZ – Dopamina League, 2025).

O PH Santos, que já trabalhou em televisão, trouxe um bastidor de que o trunfo da Cazé TV não é competir em audiência no dia de jogo do Brasil, mas sim, oferecer pro mercado publicitário dados muito mais profundos sobre o público do que o Ibope pode entregar. Isso porque é até do interesse do próprio Google, dono do YouTube, que a transmissão do torneio como um todo performe bem no digital – incluindo programas de debate, vídeos especiais, pré e pós-jogo, além das partidas ao vivo.

Com transmissão descontraída, ou jornalismo sério até demais, ou a tentativa de quaisquer coisas que apareçam no meio do caminho, o fato é que todo mundo vai viver essa Copa, goste ou não de futebol. E quando falamos de Creator Economy, é preciso olhar o todo pra saber quem faz sucesso de verdade. Tem muito insight que não se mensura a olho nu, assim como os números de um jogo único não refletem o que foi a cobertura de um torneio inteiro. 


Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!

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