Antropóloga destrincha as novas formas de trabalho, formais e informais, que surgiram com o desenvolvimento das plataformas

“Eu já tenho que trabalhar o que eu sempre tive que trabalhar, que é 12 horas, e agora eu tenho que investir na minha rede social.”
A frase é da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que apareceu na última YPX News falando sobre os “CEOs de MEI” e que estuda a relação entre as redes sociais e o trabalho. Sua pesquisa não se limita ao Brasil e, em outros países, como nas Filipinas, ela também nota comportamentos sociais parecidos com os nossos.
Ela explica como essa lógica afeta desde pequenos empreendedores até profissionais como psicólogos e jornalistas, gerando exaustão, isolamento e a sensação de que é preciso estar sempre se promovendo para conseguir trabalhar.
“Eu não vou ser alguém no mercado de trabalho se eu não vender o meu produto”, diz a pesquisadora à BBC News Brasil.
Creator Economy: morde e assopra
Um bom marco pra entender o movimento dos profissionais que também levaram seus trabalhos para as redes é a pandemia: se você fazia algum tipo de comida, encontrou no digital uma oportunidade de entregar direto na casa do cliente. Se tava no mercado de vestuário, era só manter a produção e adicionar o delivery. O que parecia uma limitação pra muitos profissionais se tornou oportunidade de mercado.
E aí, quem ainda não tinha entrado nesse movimento digital, de repente se viu na obrigação de criar um perfil online pra sua marca, empresa ou serviço, ainda que não faça muito sentido. Hoje, pra um psicólogo ou advogado, por exemplo, um perfil no Instagram verificado e com pelo menos 10k seguidores valida o trabalho desse profissional.
Acontece que influência é consequência, não o ponto de partida. Ser influente é um mérito conquistado por meio de autoridade e credibilidade construídas ao longo do tempo. Para conquistar essa posição, é necessário fornecer conteúdo autêntico e consistente, demonstrando conhecimento e comprometimento com uma audiência específica. Escrevemos isso em um artigo no nosso portal, lá em 2023 – e segue atual.
Pra Rosana, a antropóloga que tá estudando esse fenômeno, essa necessidade das redes validarem o trabalho do profissional, que já existia independente delas, gera uma pressão e um senso de inevitabilidade: “Eu não vou ser alguém no mercado de trabalho se eu não vender o meu produto”.
O usuário também é funcionário
Se você passa 4, ou 9 horas por dia em frente às telas, saiba que você também está trabalhando para as plataformas. Isso porque as métricas como número de seguidores, views e a retenção do creator dependem da atenção que você dá.
A cada vídeo que você assiste ou passa reto, a cada conta que você segue, é uma contribuição que você tá dando pra Creator Economy, em que o grande ativo é a atenção do usuário. Logo, não é exagero dizer que estamos todos trabalhando para as plataformas, mas a maioria não recebe nada em troca: desde o usuário, que consome; passando pelos profissionais que precisam estar nas redes; até os creators, que podem ganhar por publicidade, mas nem sempre por monetização direta da plataforma.
Construir uma casa em um terreno alugado
Quem cria conteúdo na internet vive uma outra versão dessa “ilusão de posse”. Criar dependendo exclusivamente da entrega das plataformas é o equivalente digital a construir uma casa em um terreno alugado. Por mais estável e lucrativo que o cenário pareça hoje, o inquilino nunca manda na propriedade. Uma mudança repentina nas diretrizes do algoritmo, a alteração em uma política de monetização ou as idas e vindas do algoritmo que mexem no alcance podem mandar pro ralo anos de trabalho da noite pro dia.
Em uma YPX News do mês passado, falamos sobre como o movimento de resgate ao analógico pode ser uma boa pra muitos creators (de todos os tamanhos) cavarem formas melhores de fazer renda com a criação de conteúdo. No fim das contas, a gente acabou caindo na pegadinha de achar que tá empreendendo pra si mesmo, quando tá todo mundo trabalhando pra alimentar o algoritmo. A gente entrega nosso tempo e atenção de graça pra manter essa engrenagem girando.
A ideia não é surtar e sumir das redes – mas fique à vontade, tá? Talvez o lance seja parar de tratar o feed como o destino final do seu trabalho e passar a usá-lo como meio. O verdadeiro ativo de um creator que nasceu no digital, ou de um profissional que migrou pra lá não é o número de seguidores (que pode facilmente ser comprado), mas a comunidade que você consegue atingir na vida real. Em uma News, como essa, em produtos próprios e encontros ao vivo, olho no olho.
Pra ressoar uma frase que tá na mente esse mês, “sucesso é durar”, vale gastar menos energia alimentando a máquina e investir mais em estratégia pra construir o que seja, de fato, seu.
Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!
Gabriel Paes é jornalista e creator. Cobre a inseparável mistura entre esporte e política n’O Contra-Ataque, de vez em nunca dá uns pitacos no podcast Fervedouro e assina a newsletter semanal da YOUPIX, onde fala sobre cultura, sociedade e Creator Economy.