O Carnaval sempre foi uma festa pra “se esconder”, mas hoje é pra performar

O jornalista Gabriel Dias contou que aprendeu, em um curso do historiador Luiz Antonio Simas sobre Carnaval, que a festa criada pra gente desaparecer hoje é usada pra se expor (até demais). O Simas fala que isso se deve ao impacto da produção e consumo nas redes sociais – traduzindo em tuitês, o “performar”:
“O Carnaval saiu da festa do ‘não me encontrem’ para o ‘me encontrem, saiba onde estou, como estou fantasiado, a hora que cheguei e a hora que vou sair do bloco”.
O Gabriel também cita uma fala do Gregório Duvivier em que o ator diz que, nem sempre, quando você tá vivendo um momento mágico ali no bloco, significa que filmado e postado vai transmitir a mesma magia – tem muito músico amador, tem gente berrando, esbarrando, tem câmera que borra e mais um montão de coisa ali na hora. “Não passa na prova do vídeo de quem tá sóbrio em casa”, ele completa.
Dito isso: por que a gente precisa postar até quando era pra gente desaparecer?
Também não precisa sumir completamente todos os dias. Até porque ninguém (que toma um negocinho ao longo do dia) vai chegar em casa e ler Crime e Castigo ao som do tilintar das madeiras queimando na lareira – isso sim seria performar, postando ou não. É pra essa hora que ver o que rolou em outros carnavais pelo Brasil serve. Pra ver uns vídeos engraçados, uns memes, um pessoal dando dica de bloco, de fantasia… não é pra nunca mais usar celular e redes sociais, o grande ponto da parada é encontrar uma frequência saudável pra fazer isso.
Só que não dá também pra ficar martelando sempre os mesmos assuntos. Até quando a gente vai ficar só falando o que precisa mudar, ao invés de simplesmente desligar o telefone um pouquinho? Parece que o tempo de tela em si não é o problema, mas sim a ideia que a gente tem do quanto tempo passamos nas telas e como isso afeta a nossa vida.
Você (talvez) não seja viciado em telas
Outro dia estava com meu namorado assistindo reportagens pelo YouTube – ótimo jeito de se manter informado sem precisar assistir a todos os jornais o tempo inteiro – e apareceu uma do SBT em que o apresentador começa dizendo: “Eu quero te pedir um minutinho da sua atenção pra te propor um desafio. Aceita?”
Só nessa frase ele já tinha ganhado a nossa atenção porque quebrou o ritmo tradicional de um jornal de tevê. No que ele continua:
“Se você estiver mexendo no seu celular neste momento, tente deixar o aparelho de lado, longe do alcance dos seus olhos e das suas mãos, pelo menos até o fim da próxima reportagem [8:49 de duração]. Será que você consegue?”
A primeira entrevistada mostra o tempo de tela no celular: a média da semana estava em 9 horas e 20 minutos. Talvez você ache que ficar tanto tempo assim no telefone só pode ser pra quem é muito novo, muito velho ou desocupado. Mas até você que trabalha 8 horas por dia (ou mais) deve bater umas duas ou três horinhas fácil desde a hora que você acorda, até a hora de dormir – e esse número pode ser ainda maior caso você mantenha seu celular perto da cama.
Muita gente costuma não sentir que passa muito tempo nas telas porque não considera WhatsApp como tempo de tela, por exemplo. “Se eu tô conversando com alguém, ou resolvendo algo importante, é tempo ruim de tela?” Não necessariamente ruim, mas é tempo de tela.
Por coincidência, no fim do ano passei um tempo com meu irmão adolescente – 14 anos – e, num dia que chamei ele pra tomar café da manhã, ele não levantou e ficou no telefone. Ofereci a ele 50 reais no pix caso ele conseguisse ficar meia horinha só tomando café e conversando com a gente na mesa sem telefone. Não precisava puxar assunto ou responder tudo, só estar presente ali naquele momento.
Eu fui pego de surpresa quando, na hora, ele bloqueou o celular e sentou do meu lado. Na hora pensei: “e agora, falo o quê?” E percebi que, até com meu irmão, os assuntos não tavam fluindo tão bem porque as conversas passaram a ser muito superficiais e, quase sempre, dividindo atenção com as telas. Mas começamos a trocar uma ideia e logo o papo fluiu. E foi muito, mas muito legal.
12 minutos e alguns segundos depois, ele lembrou de um vídeo engraçado que não me mostrou e pegou o celular numa reação automática. Mal desbloqueou o celular e já viu notificações de mensagem e, quando abriu o Instagram, se perdeu logo no primeiro conteúdo que apareceu no feed.
Mas calma, nem tudo está perdido. Uma reportagem do g1 mostrou um estudo do Scientific Reports que fala que as pessoas ‘subestimam o próprio visto’. Em resumo, só 2% dos analisados apresentaram reais sintomas de vício em tela, enquanto pelo menos 18% se achavam viciados. A reportagem ainda fala que, quando a gente rotula um comportamento como “vício”, pra nossa mente parece ainda mais difícil mudar.
A moral da história é que, provavelmente, a maioria das pessoas não têm um vício em telas, mas um hábito: assim que acorda, ou quando entra no transporte público, quando engata na fila de alguma coisa você, automaticamente, abre o Instagram. Mas, segundo a pesquisa, isso não é patológico. Dentre as dicas pra mudar esse hábito, não mexer no celular ao acordar e antes de dormir, além de reduzir as notificações – principalmente as que não são urgentes – ajudaria bastante. Lembre-se: hábitos podem ser reprogramados!
Então eu espero, de coração, que você tenha ficado mais off das telas nesse Carnaval. Que tenha postado o lookinho (que deu trabalho pra fazer!), mas do jeito ‘postei e saí correndo’. Que você tenha visto o que seus amigos fizeram nos dias, mas sem se comparar achando que a folia do outro foi mais maneira que a sua. Que você tenha tirado um tempinho pra rolar o feed sem preocupação, mas que não tenha ficado duas horas seguidas fazendo isso.
E se não rolou fazer nada disso, espero que você tire hoje, quarta de cinzas, trabalhando ou não, pra se preservar um pouquinho das telas. Feliz 2026 ✨