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Uma gringa viu Chocolate com Pimenta e formou uma comunidade brasileiros

É possível tomar as rédeas da internet e propor conteúdo, ao invés de aceitar ser pisoteado por trends iguais

Courtney Novak é uma escritora que se lançou no desafio de “ler o mundo em ordem alfabética”. Basicamente, ela seleciona algumas obras de países que começam com a letra da vez no alfabeto. Só que, assim que chegou no B, ela foi hipnotizada pelo molho brasileiro – e esse foi um molho centenário. 

Logo na segunda letra do alfabeto, ela escolheu um dos mais clássicos da nossa literatura: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1881). Ela faz parte do segmento BookTok, em que leitores compartilham o que estão consumindo em vídeos no TikTok. A estadunidense viralizou, ainda em 2024 – e aqui na YOUPIX a gente falou sobre esse fenômeno em algum conteúdo. 

Foi maneiro porque, assim como acontece muito, os brasileiros lotaram os comentários nos posts da Courtney pra comentar sobre o livro e indicar outras obras. A influência foi tão grande, que ela decidiu aprender português pra poder ter a experiência de ler o livro, em toda a sua riqueza de detalhes linguísticos, no idioma original. Ou seja… parece que não é só a gente que se inspira no que vem de fora, né? 

E aí, em pleno 2026, rolando o feed, outro vídeo dela aparece e na hora a lembrança de quem ela era surgiu na mente. Dessa vez, a Courtney decidiu assistir a novela Chocolate com Pimenta. 

Ela fez um vídeo muito divertido comentando um pouquinho da trama e disse que é impossível não se apaixonar pelas novelas brasileiras. Pra quem não lembra a fundo da novela das 6 que marcou toda uma geração em 2003, a Courtney falou do Timóteo, do estilo peculiar da Jezebel, de como Shakespeare deve sentir inveja de não ter escrito algo parecido e até da vaquinha Estrela – pra ela, a sensação do elenco. 

A ideia era pegar a novelinha pra treinar o português, porque ela realmente tá empenhada, mas a invasão brasileira no feed dela foi intensa, tanto que, agora, seus vídeos são legendados em inglês e português, porque boa parte do seu público deve ser de gente nossa. 

É possível ser original e propor conteúdo na internet, ao invés de esperar o carro da trend passar

No SXSW deste ano, a gente ouviu a importância de ser mais propositivo nos conteúdos. Para as marcas, trazer o creator pra dentro da criação de uma campanha é um movimento que foge do básico. Por si só, o resultado deve ser diferente do que apenas mais um formato copiado. No caso dos creators, propor sua própria linguagem é um caminho mais nebuloso e difícil, mas recompensa bem mais do que olhar na mesa do amiguinho e copiar exatamente o que ele tá fazendo. Aqui um recorte do que aprendemos no festival em Austin:

Boa parte da Creator Economy, hoje, roda no mesmo padrão: encontrar uma trend > criar um gancho pra segurar atenção > postar com consistência > repetir o processo. Essa é a receita pra agradar o algoritmo, mas e quando todo mundo aprende e o feed vira uma cópia infinita?

“Quando eu abro o Instagram ou Tik Tok, por que parece que tudo é a mesma coisa?”, questiona Fana Yohannes, Trends Forecaster e ex-Instagram.

A Courtney vai na maré totalmente contrária, porque tá falando de um assunto supostamente chato – um livro de 1800 e bolinha -, mas o jeito que ela conta é muito bacana. E creators são justamente isso: uma ponte que conecta a audiência de um lado e, do outro, um livro, uma história, um conteúdo acadêmico, entretenimento, uma informação, um produto e, principalmente na Creator Economy de hoje, uma marca.

É claro que muitas trends funcionam, e é possível dar o seu toque de criatividade pra um formato que já existe. Os vídeos de familiares apresentando pequenos comércios de um jeito “preguiçoso” é um bom exemplo disso, porque a trend já conquistou a audiência, que vai continuar engajando esse conteúdo por algum tempo. Surfar nessa onda é mais que positivo – deu pra perceber que tudo isso se aplica tanto para a campanha de uma marca, quanto pra linha narrativa de um creator, né?

Mas o ponto central de hoje é expandir os horizontes pra entender que, mesmo que um conteúdo pareça chato à primeira vista, ou que o assunto já passou (há 23 anos), ainda é super possível propor uma conversa. 

Acelere fundo no que você acredita

Uma das principais razões pra muitos creators bons não terem furado suas bolhas ainda é a necessidade de olhar pro lado, ao invés de olhar pra dentro. Pode parecer muito estranho falar de algo que tá dentro de você, que só você costuma consumir na sua roda de amigos, mas essa pode ser justamente a saída pra construir uma comunidade fiel. 

A Courtney é uma pessoa realmente apaixonada por leitura e, se até agora você acompanhou os vídeos mais recentes e num tom mais engraçado e leve, sobre a novela, vale também conferir outros conteúdos em que ela realmente se debruça nas leituras e explica a linguagem das obras de maneira densa. Estamos falando de uma pessoa que decidiu ler obras de um montão de países, ou seja, ela está em contato com diferentes culturas e formas de escrita. 

Esse movimento pode não chamar a atenção do mainstream, mas isso também é interessante. Na Creator Economy dos nichos, um creator não precisa mais de 1 milhão de seguidores pra se provar relevante, mas sim de uma audiência fiel. Um conteúdo aprofundado sobre leitura pode afastar uma grande massa de seguidores, mas trazer alguns valiosos que não estão só de passagem pelo seu feed. Isso sem falar no “boca a boca”, porque um seguidor apaixonado pelo seu conteúdo vai certamente te recomendar pra outros apaixonados como ele. 

Conteúdos mais conectados com o que tá dentro de você são, por essência, autênticos. Dá pra dizer que esse ingrediente é a estrutura da ponte com a audiência: quanto mais sincero e original, mais forte será a ligação com quem tá do outro lado da tela. 


Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!

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