Quem só vê ROI, não vê corre: muita gente tem o sonho de abandonar o CLT porque o ROI da criação de conteúdo é alto. Mas qual o tamanho do corre pra chegar lá?

Foto: Giovani Brandi/Reprodução
“Eu devia ter feito dancinha no TikTok enquanto dava tempo.”
Quem diz essa frase tá brincando com o fato de que, realmente, muita gente que não teve vergonha de investir nas dancinhas que viralizam na plataforma ganhou uma grana da pandemia pra cá. A YOUPIX já explicou a linha do tempo de como a Creator Economy se transformou com o isolamento social: milhões de profissionais encontraram na internet a possibilidade de fazer uma renda extra, a renda principal ou até ganhar mais dinheiro do que antes.
Com esse movimento, o trabalho CLT “saiu de moda”, principalmente entre os jovens que não vêem no Ensino Superior uma garantia de sucesso na carreira. Apostar na criação parece um caminho mais fácil e com um ROI (Retorno Sobre Investimento) absurdamente maior do que um trabalho comum. Será?
O que a gente sabe pelos dados
Todo ano a YOUPIX atualiza a pesquisa Creators & Negócios, que mapeia o trabalho, a demografia e a renda dos creators no Brasil. Diferente do imaginário de quem acompanha a vida de influenciadores como Virginia e Carlinhos Maia, a realidade não é tão glamourosa: no geral, 53,4% dos creators ainda necessitam do trabalho CLT pra compor renda em 2025.
A vida de empreendedor é sedutora, porque o potencial de crescimento nela é gigantesco – o tal do ROI. Mas quantos creators chegam lá? Aliás, quantos creators já se ligaram de que precisam agir e se estruturar como negócio, se quiserem prosperar no nosso mercado?
Apesar de milhares de creators que não chegam a 50 mil seguidores conseguirem uma renda extra a partir de publicidades focadas em seus nichos, ou em outros segmentos como os programas de afiliados, a real é que 39% dos creators com menos de 100 mil seguidores ainda dependem do CLT/PJ pra compor renda, ainda segundo a Creators & Negócios 2025.
Ainda, vale destacar que as #publis passam a chegar mais para os creators que já estão há, pelo menos, 3 anos criando conteúdo. A #publidependência também é perigosa: assim como em qualquer outro negócio, é preciso diversificar as fontes de renda pra não depender de uma coisa só. Ou seja, não adianta começar do dia pra noite e achar que vai lotar o bolso de dinheiro. E, mesmo que você viralize sem querer e consiga milhares de seguidores de repente, como você vai se estruturar daqui pra frente?
A cultura de ostentação faz o primeiro milhão parecer próximo
A gente é seduzido o tempo inteiro pela vida de ostentação: se você ouve funk, quer ter aqueles carros, as mansões de luxo e viver da música. Se acompanha algum influencer, acha que é só ser autentico e postar seus passos o dia inteiro – num país com cerca de 14 milhões de pessoas que se consideram influenciadores, isso é o básico, não mais o diferencial.
Tem também as bets, que te convencem a apostar o seu suado dinheirinho em odds altas, ou até no Tigrinho. Com tanta gente se afundando em dívidas, ainda não deu pra sacar que, ainda que você faça lucro algumas vezes, no fim quem ganha mesmo são as casas de aposta? Conversando com quem tá nesse meio, a galera até sabe que é difícil ser o sortudo que leva uma bolada em cassino, ou o esperto que monta a grande aposta em futebol, por exemplo. Pra entrar na linguagem, a turma sabe que a odd pra virar milionário com aposta é baixíssima.
Mas, num país extremamente desigual, também é difícil sustentar o discurso de que “trabalhando e estudando você chega lá”, porque existem dezenas de outros obstáculos diários pra serem enfrentados. E esse é o caminho mais seguro pra “chegar lá”, mas não é garantido. Nesse contexto, o ROI alto da vida de influencer faz o olho brilhar. Cedo ou tarde, o pensamento de se jogar no empreendedorismo vai passar pela cabeça.
Influência é consequência de algo – que não é ter seguidor.
“Tem um montão de influencer com 1 milhão de seguidores, que não consegue ganhar dinheiro. Porque não é sobre isso”, disse a Rafa Lotto em um podcast. Pra se destacar na Creator Economy, ainda mais com a IA batendo qualquer creator em volume de conteúdo, é necessário ser autêntico e se destacar como autoridade no seu nicho. Pra, de fato, ter poder de influência sobre a opinião e atenção das pessoas.
Por isso a gente vê tanto influencer que só surfa em trends, mas não se sustenta. Ou que viraliza com alguma bobagem e depois não sabe o que fazer com 300 mil seguidores de repente. As bets vão sustentando parte dessa galera, porque os números importam mais do que qualquer coisa pra elas, raramente tem construção de marca. É tudo meio vazio, e saco vazio não para em pé.
Pra criar conteúdo é preciso estratégia, visão de negócio, se estruturar, ser autêntico e construir comunidade. E mais importante ainda: conforme o dinheiro for entrando, é preciso reinvestir no negócio, não em um relógio caro pra ostentar. Isso tudo é pra desanimar quem quer entrar no mercado? NÃO! Mas é pra mostrar que você precisa pensar duas vezes antes de largar o seu trabalho, do nada, e achar que postando sobre o seu dia vai começar a chover #publi.
Ainda tem muito creator grande, que faz um bom trabalho e ganha dinheiro na internet, trabalhando como CLT pra garantir renda. No empreendedorismo, faz parte arriscar. Mas, sem estratégia, a sua aposta de ouro pode ser um tiro no escuro.