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Creators independentes estão virando a “nova TV”

E, surpreendentemente, parece que as redes sociais são mais televisivas que o próprio modelo tradicional da televisão

Imagens de Kareem Rahma, Taxis por Getty Images (montagem da Vanity Fair)

Até pouco tempo atrás, era impossível fazer sucesso com a sua imagem sem aparecer na televisão. A expressão “15 segundos de fama” explica justamente o fato de que, em poucos segundos com o seu rosto na telinha, já era possível ser reconhecido na rua e ter o gostinho de ser famoso. 

E quando eu digo pouco, é pouquíssimo, tá? O autor da News tá num limbo entre a sobra dos Millenials e os primeiros Gen Z (nasci no meio de 1997). Mesmo já sabendo que eu seria jornalista quando crescesse, o máximo que eu tinha na mão era uma câmera digital – carinhosamente apelidada hoje nos rolés como tecpix -, o Movie Maker, que era o software de edição que já vinha nos PCs da Windows e até rolava subir coisas no YouTube, mas a internet era mais lenta que uma carroça e eu nem tinha a pretensão de que o algoritmo me conectaria com audiências interessadas. Por isso, meu sonho sempre foi fazer televisão – até eu entrar na faculdade.

Minha turma foi uma das primeiras que precisou se virar com a nova forma de produzir conteúdo nas redes sociais, mesmo sem aprender nada sobre durante as aulas. As mudanças aconteciam numa velocidade muito maior do que a gente conseguia compreender, quem dirá estudar e aplicar no currículo das aulas. Dando um pequeno salto – com grandes transformações na humanidade conectada -, a gente chega nessa configuração de feeds infinitos e creators humanos perdendo engajamento para conteúdos de IA, que estão flodando nossos feeds. Hoje, muita gente trocou a programação da TV aberta por ver seu creator preferido no YouTube. A televisão, como aparelho, continua no mesmo lugar da casa. Mas a forma de consumo mudou drasticamente – como você já deve acompanhar pelos conteúdos aqui da YPX News.

Em seu livro de 1974, “Television: Technology and Cultural Form” (Televisão: Tecnologia e Forma Cultural), Raymond Williams escreveu que “em todos os sistemas de comunicação anteriores à [televisão], os itens essenciais eram discretos”. Ou seja, um livro é encadernado e finito, existindo em seus próprios termos. Uma peça de teatro é apresentada em um teatro específico em um horário determinado. 

Williams argumentou que a televisão transformou a cultura, passando de produtos discretos e delimitados para uma sequência contínua e fluida de imagens e sons, que ele chamou de “fluxo”. Quando digo que “tudo está se transformando em televisão”, o que quero dizer é que formas díspares de mídia e entretenimento estão convergindo para uma coisa: o fluxo contínuo de vídeos episódicos.

Esse é um trecho da Newsletter do jornalista Derek Thompson, que explica um pouco desse movimento da televisão na era do digital. Segundo ele, “tudo que ainda não é televisão está se transformando em televisão”.

Creators do YouTube estão “virando a TV”

Se você acompanha a YPX News, já deve ter visto algum corte do podcast “Subway Takes“, apresentado por Kareem Rahma, que recentemente se disse frustrado por uma tentativa de levar um novo show pra TV.

Ele fechou com a CNN pra produzir o “Keep The Meter Running”, programa em que Kareem pediria um táxi e daria como destino o lugar preferido do taxista em Nova Iorque. A frustração se deu porque, sete meses de desenvolvimento depois, não havia nem sinal de ficar pronto. 

“Eu não quero mais fazer. Saí do acordo e decidi produzir
de forma independente pro YouTube”
, explicou Kareem.

Ele também falou sobre o formato do programa: na TV, características como o tempo de duração de cada episódio precisam ser lineares, enquanto no YouTube ele tem liberdade pra fazer um ep. de 45 minutos e outro de 12, de acordo com o rendimento de cada gravação. O mais legal de tudo o que ele explica sobre a decisão corajosa de rejeitar o amparo e o dinheiro da TV, pra seguir de forma independente, é a preocupação com o público:

“É mais sobre a história e como posso fazer o melhor pela audiência. Eu estava, literalmente, pescando com um coreano na floresta ontem”.

Esse movimento significa que ele não vai ter investimento no programa? Depende. Pelo menos a chance de conseguir uma grana ele vai ter: executivos do YouTube convidaram Kareem para um evento que reúne patrocinadores, assim ele pode dar seu pitch sobre o programa para os maiores marketeiros dos EUA. 

A Creator Economy ainda está em fase de amadurecimento e muitas marcas ainda patinam quando o assunto é marketing de influência. Aqui no Brasil, é inegável que creators brancos, cis e sudestinos ainda recebem as melhores oportunidades, como a YOUPIX mostra nas edições anuais das pesquisas Creators & Negócios. Isso quer dizer que o nosso mercado ainda é desigual – e estamos lutando diariamente pra esse cenário mudar. Além disso, apesar de centenas de depoimentos de creators que começaram do zero, com um celular que esquenta e trava do nada, e com uma internet ruim, mas hoje alcançaram o sucesso e vivem da criação de conteúdo, ainda é difícil simplesmente se jogar na carreira de creator. 

No entanto, ao mesmo tempo que a gente ainda tem muito trabalho pela frente, a Creator Economy oferece uma plataforma democrática pra produção de conteúdo como a gente nunca viu. Se você tiver estratégia, uma boa ideia ou simplesmente a sorte de estar na hora e lugares certos, você pode viralizar e construir uma carreira como creator. 


E, quando você ganha um pouquinho de dinheiro e investe na criação de conteúdo, o retorno vai acontecer – se a ideia for boa e, você, um creator autêntico. É o caso do Raheem, que chegou no ponto de poder dizer “não” pra uma TV, porque consegue construir sua audiência sem a máquina da TV por trás. Não com o mesmo alcance, talvez, mas do seu jeito.


Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!

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