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O efeito catalisador do streaming: por que somos dominados por trilhas sonoras?

O fenômeno que tirou bandas independentes do anonimato e reviveu clássicos no topo dos charts mostra que nossos hábitos de consumo são deliciosamente ordinários.

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Fotografia: Filip Barna

Somos absurdamente ordinários. Escrevi um livro sobre isso, mas fui arrebatada esta semana, mais uma vez, sobre como, mesmo em uma avalanche de conteúdo e referências, algumas coisas ainda se sobressaem porque, no fundo, somos tão comuns.

Em duas colunas minhas, falei sobre como os fenômenos Heated Rivalry e Off Campus se tornaram globais num alcance absurdo. Usei como exemplo as duas séries porque são proporções realmente impressionantes e atingiram uma audiência massiva para serviços de streaming com barreiras de entrada de assinatura paga. Off Campus conquistou o posto de terceira maior estreia global de uma série estreante do Prime Video, com 36 milhões de espectadores nos primeiros 12 dias de exibição, e é oficialmente a maior estreia de todos os tempos do streaming entre o público feminino de 18 a 34 anos — superando o fenômeno The Summer I Turned Pretty e Maxton Hall.

O que andei observando foi o sucesso que veio a reboque para bandas independentes que foram escolhidas para trilhas sonoras de produções que, apesar do alcance que tiveram, não tinham orçamento para pagar artistas mainstream. Eu sou obcecada por trilhas sonoras desde que via Dawson’s Creek em 1998 e The O.C. em 2003, e baixava ilegalmente as músicas no Limewire na casa de uma amiga, junto com todos os vírus e conteúdos inapropriados que vinham com qualquer download. É como se você precisasse pagar a penitência por não estar pagando direitos autorais; e eu, que sempre fui certinha e só apelava para isso porque não existia forma legal de ter acesso às músicas, sofria até o iTunes ser oficialmente oferecido aqui e eu pagar US$ 1,99 por faixa, mas ser feliz dentro da lei e sem vírus. Lembrando que não tinha Shazam para descobrir a música, 1998 foi o ano em que o buscador Google foi criado, o próprio Limewire só surgiu em 2000 e eu mesma não tinha computador em casa até 2003. De Dawson’s Creek, eu achei um CD, e era absurdamente caro comprar CDs de trilha sonora internacional em 1999, ou seja, achar e possuir uma música era algo muito raro e precioso.

Mas qualquer pessoa que gosta de boas histórias sabe o valor que tem uma música bem escolhida no momento certo. Eu não superei até hoje que, nos DVDs e atualmente nos serviços de streaming, trocaram várias músicas de momentos cruciais de Dawson’s Creek. O motivo por trás dessa “dança das cadeiras” musical resume-se a uma palavra: licenciamento (ou a falta dele). O que aconteceu ali foi um choque cultural e comercial entre a era da TV analógica, o nascimento das novas mídias e o “buraco jurídico” dos anos 90. Quando a série foi produzida, entre 1998 e 2003, os contratos de direitos autorais de músicas eram feitos sob medida para a realidade da época. A Sony e a emissora WB compravam os direitos das canções (como Alanis Morissette, Jewel, Sarah McLachlan e a icônica Paula Cole) pensando apenas na transmissão original de TV e em reprises (syndication). Ninguém imaginava o tamanho que o mercado de boxes de DVD ganharia e muito menos que, anos depois, existiria o streaming. Como os contratos não previam o uso das músicas “em perpetuidade” ou em “novas mídias”, os direitos simplesmente expiraram. Se você assistir à série hoje em dia, muitas músicas de cenas marcantes no meio dos episódios continuam modificadas em relação ao que passou na TV em 1998. É o preço que a era digital cobrou da nostalgia.

Mas isso mostra como esse fenômeno do cruzamento entre trilhas sonoras é fascinante exatamente por ser tão marcante, podendo três décadas depois ainda causar estranhamento pela troca da música. Meu histórico pessoal remonta a 1998, mas, mais recentemente, em 2023, Daisy Jones and the Six foi a minha banda mais ouvida, desbancando meu absoluto Pearl Jam. E, ano passado, The Runarounds, banda criada para um seriado também do Prime Video de mesmo nome, alcançou a mesma façanha no meu recap anual do Spotify, que costuma ser uma “zero surpresa” de ter a banda de Seattle em primeiro lugar desde que criei minha conta em 2013.

O ponto que me chama a atenção é que a maneira como uma trilha sonora é escolhida e inserida nas narrativas de obras audiovisuais, se bem conduzida, faz com que a música seja parte do enredo, dando o tom exato para aquele momento, quase como um personagem. É o caso das canadenses do The Beaches em Off Campus, que ilustra perfeitamente o poder do chamado sync licensing (licenciamento de sincronização para TV/streaming). A inserção no seriado gerou um daqueles momentos clássicos de boom instantâneo de streaming, com dados muito expressivos mapeados pela Billboard Canada e pela própria equipe de gerenciamento do The Beaches. O grande catalisador foi a música “Edge of the Earth” (lançada originalmente no álbum Blame My Ex, de 2023). No episódio 2, a personagem principal recomenda a banda para o seu par romântico; mais tarde, ele aparece mexendo na página do Spotify do The Beaches e a faixa toca na cena final, estendendo-se pelos créditos.

Na comparação semana a semana após a estreia do episódio, os streams globais de “Edge of the Earth” dispararam impressionantes 888%, juntando todas as plataformas. No Spotify, na semana anterior à estreia de Off Campus, a música vinha registrando uma média modesta de 136.500 plays. Pouco tempo após o episódio ir ao ar, a faixa acumulou rapidamente mais de 1,77 milhão de reproduções na plataforma. O público não ouviu apenas a música do episódio. O interesse fez com que a discografia completa das canadenses registrasse um aumento de 48% em plays semana a semana, mostrando que a série converteu espectadores em ouvintes recorrentes da banda inteira. E eu sou um desses humanos que foram impactados por uma banda canadense de que eu nunca tinha ouvido falar: no dia seguinte ao que vi o episódio, fui buscar no Spotify a música, que tinha um comentário da banda na faixa dizendo: “For Hannah <3”. Esse pico de crescimento de “Edge of the Earth” superou em mais de duas vezes o recorde anterior da própria banda, que tinha sido o estouro viral de “Blame Brett” no TikTok. A banda aproveitou o embalo de forma genial no marketing digital: subiram a performance ao vivo dessa música no Coachella para o YouTube com o título dedicado “for Hannah and Garrett from Off Campus” e criaram adesivos físicos reproduzindo a cena em que a Hannah cita a banda para distribuir para os fãs da série.

Mas o impacto positivo não se limita a tirar inéditos ou independentes do anonimato; ele virou uma das maiores minas de ouro da indústria musical para ressuscitar clássicos. O caso da Jennifer Lopez, também em Off Campus, é o exemplo perfeito de como a imagem e o som, quando combinados com a cultura pop certa, explodem no streaming. Quinze anos após o auge de seu lançamento em 2011, o megahit “On the Floor” (com o Pitbull) voltou às paradas globais da Billboard e cruzou a marca de 1 bilhão de streams no Spotify após embalar uma cena super visual na série e, claro, virar trend no TikTok. A própria J.Lo tomou um susto ao ver a cena, surfou a onda e correu para gravar um vídeo com a atriz da serie.

Essa mesma engenharia de nostalgia e algoritmo operou milagres parecidos no ecossistema de Heated Rivalry. A série fez a busca pelo duo russo t.A.T.u. disparar 410% no Shazam na mesma noite da exibição do episódio 4, apresentando o hit de 2002 para uma geração que sequer era nascida na época. O mesmo aconteceu com o indie rock canadense do Wolf Parade, cuja faixa “I’ll Believe in Anything” virou o hino oficial do casal principal e teve um salto de 620% em plays globais, além das duas faixas antigas da cantora Feist, que ganharam sobrevida imediata ao sonorizar as viradas dramáticas do romance.

Se pararmos para pensar, é o mesmo fenômeno que parou a internet em escala ainda maior em produções recentes. Vimos isso quando “Running Up That Hill”, lançada pela Kate Bush em 1985, foi direto para o topo das paradas globais e rendeu milhões em royalties após virar o tema de sobrevivência da Max em Stranger Things. Ou quando Sophie Ellis-Bextor viu sua “Murder on the Dancefloor” reentrar na Billboard Hot 100 mais de duas décadas depois, impulsionada pela cena final de Saltburn. E até mesmo o rock gótico dos anos 80 do The Cramps, que explodiu mais de 8.600% no Spotify graças à coreografia viral da Jenna Ortega em Wandinha.

No fim das contas, a indústria do entretenimento pode mudar seus formatos, criar novos termos técnicos como sync licensing e migrar da TV analógica para as telas dos nossos celulares, mas a engenharia do sentimento humano permanece intacta. Seja baixando arquivos com vírus no Limewire em 2003 ou abrindo o Spotify em um clique hoje, o impulso é exatamente o mesmo. Nós corremos atrás da música porque queremos prolongar a sensação que aquela história nos causou. Ser ordinário é isso: descobrir que a sua reação “única e espontânea” a uma cena de romance foi compartilhada por outros milhões de humanos na mesma semana. E a beleza está justamente aí, de estarmos ordinariamente conectados.


Fabi Froes trocou o jornalismo tradicional pela revolução do YouTube, onde atua há mais de uma década entre parcerias e RP de crise. Autora de “Mediocridade: Crônicas de uma Mãe Millennial em Busca do Ordinário”, Fabi é mãe da Mia e do Nuno, corredora nas horas vagas e colecionadora de carimbos no passaporte. Entre um café e uma Coca Zero, busca o equilíbrio entre o caos da vida profissional e o prazer despretensioso de um projeto DIY.

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