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Homens escritos por mulheres e o que o novo fenômeno do Prime Video ensina sobre comunidade

De 10 Coisas que Odeio em Você a Off Campus: como os romances escritos por mulheres criaram o novo paradigma do consentimento e da nostalgia no streaming.

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Foto: Reprodução/@offcampusonpv

Sou reconhecidamente uma fã de cultura pop e, ao longo da minha vida, vi filmes e séries de TV que, além de entretenimento, ajudaram a moldar meu caráter. Sigo até hoje atualizando meu fandom e, desde a semana passada, fui um dos seres humanos que ajudaram a colocar a nova série adolescente Off Campus em primeiro lugar global do Prime Video.

Mas por que eu e tantas outras mulheres com mais de 35 anos estamos tão obcecadas por jogadores de hóquei fictícios que ainda estão na faculdade — esporte sobre o qual, mesmo depois de dois seriados, sigo sem saber nada? Já vi várias teorias na internet sobre o assunto; a mais forte delas é que são homens escritos por mulheres e também adaptados por elas para a televisão. De fato, existe uma questão de como uma mulher cria homens que ela gostaria de ter na vida real, e não o que existe por aí de oferta no que minhas amigas solteiras, num range de idade de 20 a 46 anos, definem como “mapa da fome”.

Eu sempre amei romances. Fui viciada em Dawson’s Creek no início da minha adolescência, vi Gilmore Girls, adorava filmes de comédia romântica como Como Perder um Homem em 10 Dias ou os de romance sem comédia em que o cara se redimia no final, mesmo sendo um completo imbecil por 99% do filme, como Segundas Intenções. O que vejo de grande diferencial da fórmula atual é como se abordam temas que sempre estiveram lá da maneira que deveriam ter sido abordados desde sempre. Temas como consentimento, orientação sexual ou mesmo traição são tratados com naturalidade, mas sem permissividade, ali num ponto de equilíbrio alcançado após muitos anos de discussão. Difícil chegar nesse refinamento narrativo tendo um homem como idealizador – seres que o ponto desequilibrado até então favorecia.

Em 1999, foi lançado 10 Coisas que Odeio em Você, que vem sendo discutido como o grande paradigma de comparação da geração anterior com o Off Campus da atual. Baseado em A Megera Indomável, de William Shakespeare, a personagem principal, interpretada por Julia Stiles, era uma adolescente feminista e “raivosa”, mas completamente confortável em não pertencer ao universo adolescente à sua volta. Kat foi uma grande inspiração para mim e tantas outras mulheres contemporâneas por ser o oposto da protagonista tradicional em termos de personalidade, ainda que se enquadrasse no estereótipo de corpo magro e cabelos loiros. Ela era tão “raivosa” que o enredo do filme gira em torno do fato de precisarem pagar o protagonista Patrick Verona, interpretado por ninguém menos que Heath Ledger, para sair com ela. Ainda que problemático, o filme tinha suas disrupções e tocava de leve em questões como o feminismo da Kat, mas também em pontos menos comuns, como a maneira que ela admite ter perdido a virgindade ou quando Patrick não a beija porque ela está bêbada, levantando a bola do consentimento.

Para as millennials como eu, que assistiram a um filme como esse numa sala de cinema que não tinha nem lugares marcados e dividiram suas impressões apenas com suas melhores amigas na escola no dia seguinte, existe todo um mundo reprimido de conversas que acham seu lugar agora, quase 30 anos depois, em séries como Off Campus, levando todos esses pontos a um novo patamar. Além disso, as mídias sociais trazem cortes, entrevistas, edições oficiais e oficiosas. O que tem sido a turnê de imprensa do Prime Video para essa série faz esta relações públicas salivar pela maestria dos caras. Inclusive, trazer os atores para o Brasil é sempre uma sacada de mestre. Nós consumimos vídeos como poucos países e temos avidez por ver os gringos experimentando nossa cultura, coisa que o elenco entregou perfeitamente.

Além disso, acredito que para as mulheres que curtem esse arco narrativo, ainda que não exista mais a identificação ou aspiração pela diferença de fase da vida com os protagonistas, existe o “viver através de”. Não é porque eu, casada, mãe de dois, não estou na faculdade e nem me apaixonando por homens – pesquisei a idade de todos os quatro protagonistas do sexo masculino e todos são bem maiores que 21 anos – que não se viva pela nostalgia do que já tivemos ou, mais ainda, do que gostaríamos de ter vivido com os “meninos” de quando tínhamos a idade dos personagens da história. Além do mais, agora podemos compartilhar isso de uma maneira que era impossível em 1999.

Eu tinha 10 Coisas que Odeio em Você gravado em VHS da TV; depois comprei o DVD, quando finalmente pude assistir em inglês e não dublado. Eu mal sabia que o Heath Ledger era australiano, até porque, dublado, ele não tinha o sotaque que faz parte da aura de mistério do personagem no filme. Lembro que em 2003 minha melhor amiga gravou o CD com músicas para mim e finalmente pude ouvir no carro por aí I Want You To Want Me em um cover de Cheap Trick e inclusive o famoso poema da Kat.  Enquanto atualmente o que eu já troquei de vídeos e posts sobre Off Campus, sobre os livros e os atores com minhas amigas mães de 35+ e minhas amigas genzeers de 25+ mostra que não é sobre consumir o conteúdo, é sobre toda a conversa que ele pode gerar. Isso sem falar na trilha sonora, que é impecável, e na maneira como o próprio Prime Video chamou os influenciadores para essa conversa – porque, para alcançar o público B2C, não tem como não ter os criadores de conteúdo protagonizando a narrativa.

Se você, assim como eu, tem um fraco por protagonistas se declarando com músicas e arcos de redenção inesperados — nesse caso, protagonizados pelo casal secundário que é a cereja do bolo —, a série é o seu número. Se não, vale só para entender como o fenômeno de homens fictícios escritos por mulheres mostra o que as mulheres realmente querem consumir como leitura e obra audiovisual. Até o Michael B. Jordan está apostando no fenômeno de Quarta Asa, de Rebecca Yarros, também do Prime Video (ainda sem data para lançamento), que, além de homens fictícios, tem dragões. Eu fico aqui, com minha maturidade de 40+, assistindo à série antes de as crianças acordarem, ouvindo audiobooks ou trilhas sonoras – que agora estão a apenas uma busca no streaming – pelo trânsito caótico de São Paulo e trocando muitos conteúdos nas mídias sociais por aí.


Fabi Froes trocou o jornalismo tradicional pela revolução do YouTube, onde atua há mais de uma década entre parcerias e RP de crise. Autora de “Mediocridade: Crônicas de uma Mãe Millennial em Busca do Ordinário”, Fabi é mãe da Mia e do Nuno, corredora nas horas vagas e colecionadora de carimbos no passaporte. Entre um café e uma Coca Zero, busca o equilíbrio entre o caos da vida profissional e o prazer despretensioso de um projeto DIY.

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