No dia 8 de junho, a Accenture anunciou a compra da Whalar, agência de influência do Grupo Whalar, e selou, definitivamente, a era da influência como estratégia e infraestrutura. O valor do negócio não foi divulgado, mas dado que um dos fundadores classificou como “a maior transação da creator economy de todos os tempos”, concluímos que ela superou o patamar de US$ 500 milhões que a Publicis pagou pela Influential em 2024.
Para quem não está familiarizado com outros mercados, vale entender o que a Whalar construiu e o que exatamente a Accenture está comprando.
A história do grupo começou de forma, digamos, “peculiar”, quando Neil Waller e James Street venceram um concurso de empreendedorismo e foram parar em Necker Island, a ilha particular de Richard Branson, o excêntrico fundador da Virgin. De lá saíram com uma empresa. A missão era simples e ambiciosa ao mesmo tempo: “liberar a voz criativa”. Resolver, um problema de cada vez, o atrito entre marcas e creators.
Em 10 anos, a Whalar foi estruturando camadas de serviços para marcas e creators, num movimento idêntico ao que vimos acontecer aqui com as (já) gigantes brasileiras: Mynd, Spark, Play9 e BR Media.
Primeiro veio um braço de gestão de talentos, em 2019, porque os próprios creators pediram suporte de carreira além de intermediação de deals. Depois um braço de VC, para investir em marcas criadas por creators. Depois tecnologia própria para análise de audiências. Depois gaming (Umi Games) e, recentemente, The Lighthouse, que eu resumo de forma simplificada como “um WeWork para Creators, com aceleradora de IPs”, mas que é muito mais do que isso. Vale conhecer.
O que a Accenture está comprando é apenas a agência, que tem clientes como Apple, Amazon, Samsung, Visa, Coca-Cola e Unilever, e foi avaliada em US$ 400 milhões em uma rodada de aportes que aconteceu em 2025 com Marc Benioff, Shopify e Neal Moritz.
Ao adquirir a agência, a Accenture não está levando apenas uma carteira de clientes que, convenhamos, jamais a consideraria como agência de influência, mas também os dados, resultados e comportamento de milhares de campanhas rodadas com essas marcas e, especialmente, uma entrada no aspecto humano desse mercado, que é a parte mais complexa nas operações de influência: a relação com os creators.
Por mais algoritmos, IA, plataformas e dados que essas operações carreguem, não há tecnologia que supere a habilidade que essas empresas criaram de orquestrar os desafios de negócio das marcas com as habilidades criativas individuais dos creators.
As relações antes intermediadas entre marcas e criatividade aconteciam numa sala de reunião, com um cliente dono do dinheiro, um publicitário “diretor de criação” e seu ego normalmente indisposto à cocriação e um grande apetite por Leões de Cannes. Esse cenário não poderia ser mais diferente no marketing de influência estratégico.
Aqui na consultoria, percebemos há bastante tempo que a influência não está mais sentada na cadeira do CMO exclusivamente. Ela se expandiu para os canais de vendas, com vendedores influencers, institucionalmente com executivos creators, para o RH tratando influência como soft skill a ser desenvolvida e tantas outras frentes ignoradas por empresas que ainda colocam a influência na caixinha do “formato” de mídia. Como (odeio essa palavra) “desdobramento” da campanha.
Hoje, nossos trabalhos com as marcas que atendemos ultrapassaram o formato e a linguagem e estão cada vez mais conectados com o negócio: na discussão do ecossistema de fornecedores, no setup de métricas, no desenho do time, na interseção da influência com outras áreas e com bastante ênfase: na influência como canal. Venho falando disso há algum tempo. Os programas de afiliados estão se tornando ativos cada vez mais estratégicos e representativos nos resultados de marcas de todos os tamanhos, especialmente no varejo, ao mesmo passo em que se tornaram uma ameaça para modelos consolidados de venda direta, como Natura e Avon, tornando a atração de novas promotoras um desafio gigante frente a outras promessas de renda extra um tanto mais contemporâneas, como TikTok Shop, afiliados Amazon, Meli, Shopee, Magalu e tantas outras.
Tudo isso para resumir: influência é estratégia. Aqui no Brasil ou no mundo, isso não é novidade para quem está conectado com o assunto, mas esse movimento da Accenture coloca os holofotes no tema para quem ainda está em dúvida. Os veículos brasileiros deram uma notinha aqui ou ali, como réplica de um release sem importância. Mas aqui na YOUPIX a gente entende a dimensão do que aconteceu e comemora esse movimento, especialmente porque ele toma forma e consolida apostas que já fazemos há anos nos nossos relatórios.
O que esperar no Brasil? Desde a compra da BR Media pela Publicis em 2025, estou acompanhando e em alguns casos participando de buscas e negociações dos grandes grupos pelas agências brasileiras. Mynd, Spark, Play9, MField e poucas outras menores estão em 100% das conversas, pois todas elas, cada uma à sua maneira, estão se consolidando como ecossistemas robustos como o do Grupo Whalar.
De forma geral, os grupos se surpreendem, ou diria, se assustam, talvez por terem imaginado que dava para comprar qualquer uma delas com “dinheiro de troco”. Mas não se enganem: elas já valem muito mais do que vocês imaginam. E qualquer dia, serão elas que vão comprar vocês.
Fiquem de olho.