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Creator Economy Brasil: movimenta bilhões, mas não tem CNAE

Painel do YouTube em Brasília expõe o nó da Creator Economy no Brasil: uma economia de R$ 6 bilhões que ainda não tem CNAE, MEI nem prazo de pagamento justo.

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A Rafa Lotto, CEO da YOUPIX, esteve em Brasília nesta semana pro lançamento do Impulsionado por brasileiros. Feito para criar oportunidades, estudo do YouTube sobre o impacto econômico, social e cultural da plataforma no país. Os números levantados pela Oxford Economics: R$ 6 bilhões de contribuição pro PIB brasileiro em 2025, 150 mil empregos equivalentes a tempo integral, crescimento de mais de 40% no número de canais com receita de cinco dígitos e de 25% nos de seis dígitos.

Depois da apresentação dos dados, veio o painel, mediado por Ana Lesnovski, co-fundadora do Meteoro Brasil, com Rafa Lotto, João Vicente, do Porta dos Fundos, e Paulo Henrique Pereira, ministro do Empreendedorismo. E o papo foi direto e reto: apesar de movimentar bilhões, a Creator Economy Brasil precisa lidar com a falta de coisas básicas que ninguém resolveu.

A principal delas: o criador de conteúdo não tem CNAE.

Um mercado que existe na economia e não existe no cadastro

A Rafa cravou essa pauta ainda no começo do painel. O CNAE é o código que o governo usa pra identificar o que cada empresa faz. É o que define seu regime tributário, seu enquadramento no MEI e se você aparece ou não nas estatísticas do IBGE. Não existe um pra criação de conteúdo. Na prática, isso significa que o criador não se encaixa direito no MEI, não entra em política de crédito desenhada pra pequeno empreendedor e não pode ser mensurado por ninguém que não seja a própria plataforma. O Brasil só sabe quanto o YouTube gerou porque o YouTube contratou uma consultoria pra contar.

O ministro reconheceu o problema e foi direto: as plataformas de políticas públicas brasileiras envelheceram, e ninguém achou ainda a forma de adaptá-las ao digital. A lei do audiovisual não alcança o Porta dos Fundos. A Lei Rouanet não conversa com quem publica no YouTube. O incentivo fiscal foi desenhado pra televisão e cinema, e continua lá, intacto, enquanto a produção migrou.

Ele apontou uma saída interessante: compras públicas. São 6 mil prefeituras no Brasil comprando publicidade em jornal e rádio local, sem métrica nenhuma. Aproximar essa verba de produtores de conteúdo com audiência mensurável resolveria duas coisas ao mesmo tempo: distribuiria renda pra fora do eixo e daria alguma transparência a um gasto que hoje ninguém audita direito. Mas não é exatamente a saída que o mercado quer, né? É meio que tapar o sol com a peneira, uma hora vai precisar olhar pro problema real.

O creator como banco das grandes marcas

A parte mais dura da conversa foi sobre prazo de pagamento. João Vicente descreveu a rotina de uma empresa com mais de cem pessoas entre diretos e indiretos: vende, entrega e recebe em 150 dias. “A gente quase que financia grandes marcas”, disse. A Rafa corrigiu na hora: “quase nada, você financia mesmo”. E completou “isso é transferência de risco do grande pro pequeno, num mercado onde o pequeno já não tem acesso a crédito barato”.

Existe um projeto de lei rolando pra limitar esse prazo a 30 dias, e há versões parecidas em partidos da oposição. Ou seja: não tem disputa ideológica, tem falta de pressão. A publicidade brasileira tem a Sinapro, Ampro, um monte de entidade constituída, e nem elas conseguiram resolver isso pros próprios associados. Criador de conteúdo, que não tem sindicato nem associação com poder de barganha, negocia sozinho com departamento de compras de multinacional. Esse é o mesmo departamento que negocia com fornecedor de parafuso e usa a mesma régua de prazo.

João disse que hoje, atua com 100% da capacidade operacional da empresa e entrega 7% da capacidade criativa. A distância entre esses dois números é o custo real da falta de crédito, de incentivo e de fluxo de caixa previsível. Não é falta de ideia, é falta de dinheiro pra colocar as ideias de pé e fazer a Creator Economy girar ainda mais.

O que os R$ 6 bilhões não contam

Aqui entra um dado que a gente levanta há anos: 40% dos creators não ganham mais de R$ 10 mil por mês. E o pico de ganho de quem empreende com conteúdo chega por volta do sétimo ano. Enquanto isso, o Sebrae mostra que é comum empresas quebrarem até o segundo ano. A conta não fecha: o creator precisa sobreviver cinco anos além do prazo em que a maioria dos negócios morre pra só então começar a ganhar.

Some a isso que 40% dos criadores são também CLT, criando depois de desligar o computador da firma. O mito do creator milionário de jatinho não sobrevive a nenhum desses números, mas segue definindo a percepção pública da profissão inclusive dentro do poder público, que costuma cruzar com esse mercado pelo lado do escândalo e não pelo lado do eletricista que virou canal e conseguiu cliente.

Ana Lesnovski trouxe o outro lado dessa invisibilidade, que é cultural antes de ser institucional. Contou que riu quando o YouTube sugeriu, dez anos atrás, uma conversa sobre saúde mental. E que hoje, com 1,7 milhão de inscritos e um negócio pra gerir, entende exatamente por que aquilo estava na pauta. Falou do isolamento de quem começa sem ninguém pra explicar como funciona, e de como um creator mais experiente sentou com o Meteoro depois da primeira publi fechada pra dizer que eles deviam ter cobrado muito mais.

Foi exatamente essa lacuna que fez a YOUPIX criar seu programa de aceleração em 2017 e por demanda das marcas, não dos creators. As marcas queriam contratar gente que não tinha CNPJ, nunca tinha passado por reunião de briefing e não sabia o que fazer dentro de uma negociação com departamento de compras.

Resumo da ópera

O recado que atravessa as falas é o mesmo: a Creator Economy Brasil aprendeu a se provar pra marca e não aprendeu a se provar pro Estado. Passou uma década desenvolvendo métrica, media kit, case, relatório de resultado, argumento de ROI. E chegou em 2026 sem código de atividade, sem prazo de pagamento regulado e sem lei de incentivo que a enxergue.

João sugeriu o caminho: juntar creators grandes e players fortes do mercado e fazer resistência com nome e sobrenome, porque marca abusada só recua quando o não é coletivo. Rafa foi além e apontou o erro de escopo: talvez a união não deva ser só entre creators, mas entre empresários do mercado criativo. Plataforma, agência, produtora, ferramenta, startup, todo mundo que vive da mesma cadeia e apanha do mesmo prazo de 150 dias.

Enquanto essa articulação não acontece, o mercado segue no arranjo atual: uma economia que injeta bilhões no PIB, emprega 150 mil pessoas e ainda depende de jantar entre colegas pra alguém descobrir quanto cobrar. Rafa fechou lembrando que a Bianca Andrade (Boca Rosa), que veio da favela da Maré, construiu uma empresa de cosméticos a partir de um canal. Uma trajetória impensável em qualquer configuração anterior do mercado brasileiro. Se desse jeito capenga a Creator Economy Brasil já entrega o que entrega, imagina o que daria pra ganhar se organizassem essa bagunça.

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