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O Tarifaço do Trump pode afetar a nossa Creator Economy?

Diversificar sua presença digital é a blindagem pra quando construimos uma casa em um terreno alugado

Imagem: Ken Cedeno/AFP

O governo Trump confirmou as ameaças de um novo tarifaço e o colocou em ação. Desde ontem, uma série de produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos – nosso segundo maior parceiro comercial – sofrerão uma sobretaxa de 25%. Claro que uma série de produtos interessantes para os EUA foram tirados dessa lista, como café e carne bovina. A medida atinge setores gigantes como manufaturados, calçados, móveis e máquinas e, ao que parece, boa parte dessa história se deve ao PIX, que já é o meio de pagamento preferido dos brasileiros, mas desestimula as transações em cartão, desfavorecendo o lucro das empresas estadunidenses do setor. 

Além da discussão diplomática e comercial, essa história escancara o quanto a nossa economia pode estar vulnerável e exposta a decisões políticas externas, sem que a gente tenha muito poder sobre elas.

Mas e aí: impacta ou não na Creator Economy?

Direta ou indiretamente, a resposta é sim. Seria muita ingenuidade achar que o nosso mercado vive isolado, ou blindado de decisões dos governos dos países. E, pra entender melhor o cenário o que é “estar na mão” de outro país, a gente sabe muito bem explicar.

Diariamente nas redes sociais, trabalhamos sob regras e algoritmos que não controlamos, não prevemos e quase não conseguimos acompanhar a velocidade das mudanças. Ficamos totalmente à mercê. E você que é leitor da YOUPIX já sabe o que vamos dizer: 

“Criar conteúdo numa rede social é como 
construir uma casa num terreno alugado.”

Você não controla como o seu conteúdo vai ser distribuido pelo algoritmo, não sabe por quanto tempo ele vai continuar entregando alcance, e muito menos o quanto vai conseguir monetizar em cima – se é que vai receber algum dinheiro. 

Olhando por outro ponto de vista, também dá pra trazer pra esse papo a #publidependência: não é estratégico que um creator tire sua renda apenas de publicidade. E se um dia o mercado satura? As marcas desistem de você? O hype que te jogou pros holofotes evapora? 

Só que a gente tem um Super Trunfo na manga que mais ninguém no mundo tem: nosso molho.

Faz tempo que a gente deixou de ser copiador de gringo pra virar referência global em linguagem, engajamento e cultura digital. O tal do “molho” nada mais é do que a nossa capacidade absurda de criar comunidade, narrativa que envolve e conversas que fazem sentido e ligam marcas às comunidades. Mas nem só de molho vive o creator. Ou molho paga boleto e a gente não tá sabendo? Talvez essa história do Tarifaço possa colocar a gente pra pensar em caminhos de transformar esse capital cultural em soberania nacional, usando a audiência das redes como vitrine (finalmente o estag entendeu o que é o “topo do funil”) pra construir canais e ativos que sejam de fato nossos.

Vem aí a primeira rede social 100% brasileira: o Caramelogram

Apesar de ter sido divertido ficar pedindo pra IA me sugerir nomes pra essa plataforma, a moral da história é que nacionalizar a parada não é o que vai resolver o nosso problema: a gente sai da mão das Big Techs – que, bem ou mal, formaram o contexto pra gente chegar até aqui – e fica na mão do governo? Ou de uma Big Tech brasileira? A solução tá em pensar mais em saídas como a gente fez no movimento contra a #publidependência.

A Bianca Andrade fez exatamente isso quando rompeu com grandes grupos de cosméticos para assumir o controle total da Boca Rosa, criando uma empresa própria de maquiagem em vez de fazer mídia para os outros. A Julia Petit usou a escuta ativa da sua comunidade para fundar a Sallve. O Iberê Thenório pegou a autoridade do Manual do Mundo e transformou em produtos como jogos e livros. Nossa queridíssima Lela Brandão fundou a própria marca de roupas confortáveis – uma dor que ela tinha com outras marcas quando consumia, e encontrou em sua comunidade gostosas que se identificavam com essa dor. Olha quanta coisa maneira foi criada no Brasil, para brasileiros. 

Soberania não é sobre ter o servidor em solo nacional, mas sim sobre ter a propriedade intelecutal dos dados e do caixa – alô nosso pastor Jim Louderback que já falou sobre isso no SXSW deste ano. Negócio é o seguinte: as redes vão continuar sendo gringas, e a gente vai continuar usando o nosso “molho” para dominar o engajamento nelas, como a gente faz do Oscar à Copa do Mundo. O lance todo éparar de trabalhar para a plataforma e passar a usá-la como funcionária do nosso próprio negócio.

A YOUPIX tá com as marcas e creators nessa <3

Usando o nosso exemplo clássico já dito lá em cima, precisamos transformar a relação com a audiência de um “aluguel” pra termos a “propriedade”.

O primeiro passo é investir nas mídias que o próprio creator desenvolve pra sua comunidade. Seus big numbers tão no Instagram ou no TikTok, mas você oferece uma newsletter semanal e cobra por isso, ou então tem algum tipo de financiamento coletivo; você entrou pro time dos afiliados, tá lançando sua marca de roupa, cosmético, ou produtinhos artesanais… são inúmeras as opções e você sempre pode inventar algo que ainda não existe no mercado.

Esse comportamento vai migrar o público do algoritmo pra canais diretos e sem intermediários, como comunidades fechadas e ecossistemas de vendas próprios. As marcas entram na jogada porque também podem participar dessas conversas que estão rolando entre creators e comunidades, só que de um jeito até bem mais íntimo. Uma indicação de um apresentador da TV que você gosta e sabe que comunica pra millhões de pessoas tem um peso. O seu creator preferido falar em um grupo restrito, outro peso. 

Quando o creator brasileiro usar as redes como vitrine de topo de funil para construir um patrimônio real e independente fora dela, a dependência gringa deixa de ser uma ameaça. Ter a audiência mais engajada do planeta e a criatividade mais elogiada da gringa não adianta nada se a gente continuar sendo apenas inquilino de plataforma.


Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!

Gabriel Paes é jornalista e creator. Cobre a inseparável mistura entre esporte e política n’O Contra-Ataque, de vez em nunca dá uns pitacos no podcast Fervedouro e assina a newsletter semanal da YOUPIX, onde fala sobre cultura, sociedade e Creator Economy.

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