Mais da metade dos casos de abuso contra crianças e adolescentes ocorreu nas principais plataformas de redes sociais, e menos de 1% foram comunicados às autoridades, revela novo relatório.

O mesmo feed onde as crianças passam horas se entretendo, rindo, conversando com os amigos é onde o abuso acontece. É no Instagram, no WhatsApp da família, no game que os pais acham seguro. Segundo o relatório Disrupting Harm in Brazil, do UNICEF em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL, 19% dos adolescentes de 12 a 17 anos que usam a internet no país foram submetidos a alguma forma de exploração e/ou abuso sexual facilitados pela tecnologia em um período de apenas um ano. São cerca de 3 milhões de meninas e meninos.
E não é só aqui, infelizmente. O relatório global Through Children’s Eyes: How Digital Technologies Enable Child Sexual Abuse, lançado também pelo UNICEF, estima que quase uma em cada cinco crianças e adolescentes de 12 a 17 anos passou por pelo menos uma dessas formas de violência no intervalo de um ano. Cerca de 60% dos casos aconteceram em plataformas de redes sociais como Facebook, Instagram, Snapchat, TikTok e WhatsApp. E menos de 1% chegou às autoridades.
O que os números do Brasil mostram
No Brasil, a forma mais comum de violência é a exposição a conteúdo sexual indesejado, que atingiu 14% dos entrevistados. É o tipo de contato que os agressores usam pra, aos poucos, habituar a vítima a outras formas de abuso.
Dois em cada três casos ocorreram por meios digitais, principalmente em redes sociais e aplicativos de mensagens (64%), seguidos por jogos online (12%). Entre as plataformas mais citadas pelas vítimas estão o Instagram (59%) e o WhatsApp (51%). O relatório descreve um caminho: os agressores partem de aplicativos mais públicos, como Instagram, Facebook e games do tipo Roblox e Free Fire, pra localizar perfis e fazer o primeiro contato, e depois puxam a conversa pra ambientes privados, como o WhatsApp, pra solicitar ou compartilhar conteúdo sexual.
O relatório também desmonta a ideia de que o perigo mora só no desconhecido. Em 49% dos casos, o agressor era alguém conhecido da vítima como amigos, familiares, namorados, pessoas com interesse romântico. Ao mesmo tempo, em 52% dos casos a criança conheceu o agressor pela primeira vez pela internet.
No Brasil, 34% das crianças e adolescentes não contaram a ninguém o que aconteceu. Na maioria das vezes, porque não sabiam a quem recorrer, porque sentiam vergonha ou porque achavam que ninguém acreditaria. Recorrer a canais oficiais, como polícia ou linhas de apoio, é raro. Quando a denúncia acontece, costuma vir pra amigos ou pra mãe, antes de qualquer sistema formal.
As consequências desse abuso
Por trás de cada porcentagem existe uma criança ou adolescente tentando entender o que aconteceu. A análise dos dados mostra que adolescentes submetidos à exploração e abuso sexual facilitados pela tecnologia têm 5,4 vezes mais chance de se automutilar e 5 vezes mais chance de ter pensamentos ou tentativas de suicídio do que quem não passou por isso.
Uma jovem entrevistada pela pesquisa trouxe sua perspectiva de por quê romper o silêncio importa: falar, disse ela, ajuda a entender como aquilo a machucou e expõe “os mecanismos pelos quais esse tipo de coisa continua acontecendo”.
Análise YOUPIX
A gente vive dessas plataformas. Constrói a audiência, fecha uma publi, mensura os resultados… mas tem o outro lado da moeda que a gente precisa trazer cada vez mais à tona. São as mesmas plataformas onde essas crianças foram atacadas. E o relatório do UNICEF mostra o porquê: o design delas, as características e funcionalidades que a gente usa todo dia, foi usado pra explorar a confiança das vítimas.
Os mesmos recursos que ajudam a aumentar o engajamento, são os que criam oportunidades de abuso. Recomendação que aproxima estranhos, mensagem privada sem autorização, perfil que qualquer um cria em segundos… são os recursos que o relatório descreve como sendo usados contra crianças. Isso é uma consequência previsível de produtos pensados pra manter todo mundo conectado o máximo de tempo possível, sem que a proteção de quem é vulnerável tenha sido levada em consideração.
Agora, vamos ser sinceros aqui. Um mercado que fatura em cima de atenção e confiança não pode terceirizar a responsabilidade pela segurança de quem tem 10 anos e tá do outro lado da tela. A influência é consequência da confiança. Quando a confiança das crianças é o que está sendo explorado, quem trabalha construindo confiança nesse ambiente tem, no mínimo, o dever de trazer esses temas em pauta.
O que dá pra fazer
O próprio relatório é claro: enfrentar isso exige ação coordenada de famílias, governo, segurança pública, justiça, serviços sociais e da indústria de tecnologia. E os adultos é que precisam liderar, não dá pra jogar a responsabilidade da proteção na criança. A partir das evidências, a gente tem algumas opções:
- Plataforma mais segura desde o começo. Restringir contato não solicitado de adultos, melhorar a segurança dos sistemas de recomendação e fortalecer a detecção e a denúncia de abusos. O relatório aponta que as plataformas da Meta, Instagram e WhatsApp, foram onde os casos mais aconteceram no Brasil, o que cobra dessas empresas ferramentas de segurança e denúncia mais robustas.
- Colocar as leis pra funcionar. Em junho de 2025, o STF decidiu que empresas de serviços digitais têm dever ativo de proteger crianças e adolescentes. Em setembro, foi sancionada a Lei 15.211, o ECA Digital, que traz segurança por design, checagem de idade em serviços de maior risco e fiscalização pela ANPD. O desafio agora é a regulamentação e a implementação.
- Canais de denúncia em que a criança confie. Quando não se sabe a quem recorrer, não se recorre. Investir em proteção infantil, saúde, justiça e assistência social é o que faz a denúncia acontecer.
- Tirar o peso das costas de quem é criança. Garantir que família, escola e comunidade acolham quem relata.
Ou seja, é algo que tem que ser resolvido em muitas mãos e a gente, infelizmente, não consegue mudar isso sozinhos. O que podemos fazer é cobrar cada vez mais o mercado que a gente conhece muito bem.
Onde buscar ajuda
Se você ou alguém que você conhece passou por alguma dessas situações, é possível denunciar e pedir apoio:
- Disque 100 — canal do governo federal para denúncias de violações de direitos humanos, incluindo violência contra crianças e adolescentes. Ligação gratuita, 24h.
- SaferNet Brasil — canal nacional de denúncias de crimes cibernéticos (safernet.org.br), com atendimento e orientação online.
- CVV — 188 — apoio emocional e prevenção do suicídio, gratuito e sigiloso, 24h, por telefone e chat.