Não cai no bait, leitor. Tem muito case de sucesso por aí pra gente estudar, ao invés de desesperar

Foto: Sergio Berezovsky/Divulgação
Muita gente que compartilha o medo de que a televisão aberta vai deixar de existir esquece, ou talvez nunca ouviu falar, de uma das punchlines mais famosas aqui na YPX:
Pra um player crescer na Creator Economy, todo mundo precisa crescer junto.
Mudanças acontecem e a gente vai se adaptando. Só não vale paralisar.
Se o YouTube já roubou o espaço da TV aberta na casa de muita gente, também é fato que as emissoras continuam registrando audiências altíssimas, porque essa substituição não serve pra todo tipo de conteúdo.
Um debate grande gira em torno da Cazé TV: quem aponta que a audiência do canal de YouTube tá acabando com o império da Globo no esporte, com certeza não entende nada sobre métrica de audiência. “Ah, mas o jogo que eu vi tava lá com 5 milhões de espectadores simultâneos”. Parabéns, isso é tipo metade da cidade de São Paulo. E o resto do Brasil?
Mas, como aponta um artigo da CNN, lampejos podem acontecer e apontam, claro, para uma mudança nos rumos do consumo de entretenimento:
O confronto de titãs já foi posto à prova: ambos exibiram pelo Youtube o jogo da NFL (National Football League, a principal liga de futebol americano dos EUA) que aconteceu no Brasil no início do mês.
Segundo o site Marketing Esportivo, na comparação direta, a Cazé TV teve audiência sete vezes maior que a GE: 9,4 milhões de visualizações contra 1,35 milhão. Em visualizações simultâneas, foram 430 mil x 170 mil. Em terra de Youtube, parece que Golias virou Davi.
A gente não precisa entrar muito nesse caso específico da NFL, porque o consumo desse esporte aqui no Brasil é muito nichado, então um único evento não pode ser tratado como uma quebra de paradigma. Mas é interessante pra gente abrir o olho sobre como a audiência deve se comportar na Copa do Mundo, que começa em junho – lembrando que o maior vilão contra a Cazé TV é o delay. Num jogo de Copa, que o país inteiro para pra assistir, não dá pra ver o jogo com segundos de atraso. Simplesmente acaba com a experiência.
Nesse embate, a Cazé TV leva a melhor no digital: aí sim ela dá um banho na Globo, porque o público que mais engaja nas redes interage muito mais com o que propõe o canal digital do que com a linguagem quadradona da emissora. Guarda essa frase que é importante:
“A emissora entendeu que a relevância no TikTok, Instagram e Youtube é tão essencial quanto a audiência ao vivo — somando baixo custo à altíssima capacidade de engajamento”, completa o artigo da CNN.
Como combater então? Foi lançada a ge tv, que permite à Globo seguir o padrão televisivo, enquanto bate de frente, no mesmo campo de batalha, com os novatos.
O Ibope deixou de ser a única métrica que mede o sucesso de um programa.
Um ótimo exemplo dessa história é o programa Sem Censura, da estatal EBC, que em 2025 registrou crescimento de 90%, além de 64 milhões de views no TikTok e mais 55 milhões no YouTube, segundo a coluna de Anna Luiza Santiago no jornal O Globo.
Como? A emissora entendeu que a relevância no TikTok, Instagram e Youtube é tão essencial quanto a audiência ao vivo.
A atriz Cissa Guimarães, que comanda o programa, não mexeu tanto no formato, mas sim no conteúdo: traz debates sinceros – e não esses vazios e raivosos que começaram a pipocar na internet -, uma curadoria de convidados excelente, pluralidade e investiu nos cortes, que viralizam nas redes e atraem novas audiências que talvez jamais sintonizariam na TV Brasil (se é que têm antena ainda).
Ao invés de aniquilar um programa que, sim, era beeeeem chatinho em outros tempos (existe desde 1985), a diversificação de formatos possibilitada pela Creator Economy fez o Sem Censura, que nada de braçada nas redes sociais, renascer.
O lance mesmo é entender como a Creator Economy se expande. Não é um iceberg parado, que você vai destrinchando camada por camada, nada até chegar no fundo dele. A gente tá falando de um big bang, dá pra sacar?
E o mais bacana nesse case do Sem Censura é que, por ser uma TV pública, o programa “não precisa escolher entre relevância editorial e alcance”, como destaca a Diretora de Conteúdo e Programação da EBC, Antonia Pellegrino. Foi o cenário perfeito pra arriscar sem medo e crescer na força do orgânico, sem precisar inventar programa com influenciador mequetrefe que beira o ridículo, que são intragáveis e pouco agregam na vida de quem assiste. Aliás, os próprios influs ficam meio perdidos, sem saber exatamente o porquê estão ali – até porque devem ganhar muito mais dinheiro fora da televisão.
Seria a tentação de sentir o gostinho do glamour de uma geração que, por ainda ter crescido em frente à TV, sonha em aparecer na telinha?
Que o Sem Censura sirva de exemplo pra um montão de outros programas, de altíssima qualidade, renascerem. E fica a torcida pra que o jornalismo suba no bonde do entretenimento e resgate a confiança e audiência de um público carente de informação.
Quem diria que ser criativo no editorial, sincero com o público e autêntico no conteúdo realmente daria uma receita que funciona.
Texto originalmente publicado na YOUPIX News. Inscreva-se clicando aqui.