A iniciativa vai além da celebração e provoca o mercado criativo a encarar desigualdades de acesso, continuidade e reconhecimento.

Em um país onde a expectativa de vida de pessoas trans ainda é drasticamente menor do que a média da população, qualquer projeto que fale de longevidade merece atenção. O 30 Over 30, lançado pela Billboard Brasil, parte exatamente desse ponto: reconhecer pessoas trans com mais de 30 anos como profissionais consolidados, com trajetórias reais, impacto contínuo e relevância concreta para a cultura brasileira. E, com isso, esperamos que seja cada vez mais comum ter pessoas trans ocupando esses espaços e mostrando seus talentos.
Mas veja bem, não é só uma lista “inspiracional” nem de uma ação simbólica para cumprir agenda de diversidade, tá? O projeto surge em um momento delicado em que o Brasil segue liderando rankings globais de violência contra pessoas trans .
A escolha de Liniker para a capa diz muito sobre o que esse projeto quer comunicar. Em vez de apostar na lógica da novidade, a Billboard coloca em destaque uma artista com carreira construída, vencedora de 4 Grammys Latinos e sucesso de público por onde passa. Em um cenário que insiste em tratar pessoas trans como tendência passageira ou pauta do momento, a capa funciona como recado direto: elas não estão de passagem. Vieram pra ficar.
Em entrevista à Billboard Brasil, Liniker fala sobre os desafios da sua trajetória e o cenário enfrentado por pessoas trans no país. “A cada prosperidade e a cada vitória, o nível de transfobia que eu recebo é alarmante. A fama não me blinda da violência, mas sigo acreditando que é possível sonhar com longevidade, com futuro e com dignidade”, afirma.
Além de Liniker, o projeto reúne uma lista diversa de profissionais que atuam em áreas como música, cultura, comunicação, ativismo, empreendedorismo e produção intelectual. A curadoria é de Neon Cunha e inclui nomes como Isa Silva, Digg Franco, Greta Star, Amiel Vieira, Rainha Matos, Valéria Barcelos, Kyem Ferreiro, Pri Bertucci e Victoria Principal dentre outras personalidades que se destacam em suas áreas de atuação.
Vale destacar também quem está por trás desse projeto incrível. Profissionais trans participaram da produção e isso faz TODA a diferença. Representatividade pra quem aparece e também pra quem cria, executa e produz.
Análise YPX
Tudo isso conversa diretamente com a Creator Economy, que adora se vender como inclusiva, aberta e democrática, mas costuma lembrar de creators trans só no mês da visibilidade. A gente tá vendo, viu? Aliás, todo mundo tá! Creators trans têm repertório, visão e capacidade de criar conteúdo como qualquer creator cis. O que falta não é talento, é oportunidade.
Na YOUPIX, discutir a Creator Economy também significa dar voz a temas necessários como esse. Não adianta falar de alcance, engajamento ou monetização se o sistema continua excluindo certos corpos da possibilidade de continuar criando ao longo do tempo. Reconhecer pessoas trans 30+ é o primeiro passo de muitos que ainda faltam para garantir um futuro digno e cheio de oportunidades.
Enquanto envelhecer sendo trans no Brasil seguir sendo privilégio, projetos como o 30 Over 30 cumprem um papel fundamental: mostrar que essas pessoas existem, resistem e continuam ocupando espaços – e que, apesar de tudo, vão seguir criando, aparecendo e expandindo suas vozes. O mercado pode até tentar ignorar, mas a presença delas já é realidade e só tende a crescer.