Do improviso com cola quente à turnê por dez capitais: como a Corrida das Blogueiras virou o maior case de Creator Economy do Brasil.

Ontem foi ao ar o primeiro episódio da oitava temporada de Corrida das Blogueiras e a gente quer relembrar essa trajetória. Quem acompanha a Corrida desde a primeira temporada, lembra da Renata Santti fazendo as provas no chão com uma cola quente na mão e dando a vida pelo reality. Não é à toa que a diva foi a primeira winner. Esse era o retrato de um reality feito com pouca verba, mas com muita vontade de fazer acontecer.
Oito temporadas depois, o Corrida estreia a nova edição com 99, Fanta, Smirnoff Ice, MAC Cosmetics e TikTok Shop como patrocinadoras, e a primeira turnê por dez capitais. Pra gente, tudo o que o Fih e o Edu construíram nesse meio do caminho fez com que o Corrida das Blogueiras fosse um dos maiores cases brasileiros de creator que transformou um projeto autoral em negócio. E quem segurou esse projeto de pé até mesmo nos anos em que ele quase não aconteceu, foi a comunidade.
Pouca verba e muita vontade de fazer a Corrida das Blogueiras acontecer
O Corrida foi criado em 2018 e é transmitido inteiramente pelo YouTube. A proposta sempre foi dar palco pra blogueiras em ascensão mostrarem seu talento em provas técnicas e criativas de maquiagem, montagem de looks, comunicação, produção audiovisual e presença digital.
Na primeira temporada até faltava verba, mas não faltava planejamento. O cenário era simples e os participantes se viravam com o que tinham à mão, mas o projeto já nasceu pensado: formato definido, provas estruturadas, uma bancada de jurados ajudando Edu e Fih a decidir quem seguia e quem flopava. Os meninos acreditavam no Corrida desde o começo, e dava pra ver isso do outro lado da tela.
YOUPIX: Quando vocês criaram o Corrida das Blogueiras, lá na primeira temporada, já existia a ideia de que aquilo poderia virar um negócio, ou era entretenimento puro, do tipo “se der certo, ótimo”?
Edu: Na primeira temporada, era muito mais entretenimento puro. A gente queria fazer uma coisa que fosse divertida para quem já acompanhava o Diva Depressão e que tivesse a nossa cara. Não existia um plano de oito temporadas ou de transformar a Corrida em um negócio desse tamanho. Era muito mais “vamos fazer e ver o que acontece”.
Fih: A gente nem tinha como imaginar tudo o que viria depois. A Corrida foi crescendo junto com a internet e com a nossa comunidade. Conforme o público aumentou, começaram a aparecer novas possibilidades de negócio, de parceria e de formato.
Edu: E acho que essa é uma característica muito importante da internet: às vezes você cria uma coisa porque acredita nela antes de saber exatamente qual é o modelo de negócio. Depois, se existe comunidade e consistência, você consegue construir outras camadas em cima.
Uma comunidade que joga junto
O público abraçou a Corrida das Blogueiras ao longo das temporadas e a sétima foi a maior em audiência. Somando os episódios, o Lounge das Blogueiras e bastidores, foram 14,8 milhões de visualizações, com média acima de 1,1 milhão por episódio. Na edição anterior, essa média tinha ficado em 713,3 mil. A final reuniu 165 mil dispositivos conectados ao mesmo tempo e colocou o programa em seis posições entre os assuntos mais comentados do X (e eu, como boa fã, tava aí no meio!).
Em 2025, uma pesquisa da Wake Creators colocou o Corrida como o quinto reality mais amado pelos brasileiros, dividindo o pódio com BBB, Masterchef Brasil, Casamento às Cegas e De Férias com o Ex. Um programa feito pro YouTube, de graça, disputando preferência com a programação da TV aberta e do streaming. É um fenômeno!
Um episódio rende dezenas de conteúdos
O que faz do Corrida um case de Creator Economy como um todo, e não só um reality de sucesso, é o que acontece em volta de um episódio. Essa cadeia começou antes do programa existir. Lá em 2018, Edu e Fih chamaram a Lorelay Fox pra reagir a alguns vídeos de inscrição do concurso, antes da estreia da primeira temporada. Pronto, tava criada a tradição.
De lá pra cá, o universo da Corrida das Blogueiras só cresceu. Tem o Lounge das Blogueiras, que estreou na quarta temporada e virou o lugar onde os participantes esperam a avaliação dos jurados e a fofoca corre solta, com perguntas como quem não ganha o programa e por quê. Tem os bastidores, os vlogs dos jurados mostrando a gravação, a música oficial que sempre vira challenge nas redes, o próprio Rafa Dias contando como cada episódio foi construído. E tem os reacts de outros creators, que ganham audiência comentando cada prova e cada eliminação.
E o programa rende muito no pós também. O Huylson e a Barbit, ex-participantes do Corrida, apresentam o podcast Pit Stop das Blogueiras, que já recebeu os próprios Edu e Fih. Ou seja, o programa alimenta conteúdo dentro e fora do canal, o ano inteiro, pra muita gente além dos criadores.
A Corrida forma creators
Essa cadeia inteira de conteúdo começa na inscrição. Quem quer participar posta o vídeo nas próprias redes, e como a base de fãs é gigante, todo mundo vai assistir. Mesmo quem não é selecionado já ganha visibilidade e conquista uma audiência nova. Depois vêm os vídeos dos meninos reagindo aos inscritos, e os vídeos de outros creators reagindo a esses vídeos.
Inclusive, a nossa perdeã favorita é prova disso. A DaCota Monteiro participou da quarta temporada, virou uma das queridinhas do público e, depois do Corrida, passou por outros programas. Na sexta temporada, a “Uma Nova Chance”, ela voltou pra disputar a coroa e ficou em segundo lugar com menos de mil votos de diferença da campeã. Te amamos, DaCota! Na próxima, você ganha!
A Palloma Tamirys tem a trajetória mais completa de todas. Em 2019, foi finalista da segunda temporada e voltou pra vencer a sexta temporada, a “Uma Nova Chance”, com 37,8% dos votos. Na edição seguinte, quando Renata Santti ficou de fora porque tinha acabado de ter bebê, quem assumiu o lugar no júri foi a Palloma. De inscrita a jurada, dentro do mesmo programa, isso sim que é plano de carreira.
O crescimento dos participantes nas redes virou prêmio. Desde as primeiras temporadas, a final do Corrida revela o Miss Simpatia: o título vai pro participante que mais ganhou seguidores nas redes durante a temporada (os finalistas não entram nessa). É como uma segunda posição de destaque, pensada pra quem não levou a coroa mas conquistou o público. A Vini Freire, por exemplo, foi Miss Simpatia na segunda temporada e de novo na sexta, a “Uma Nova Chance”.
Claro que um reality desperta paixão, esse é o coração deste tipo de programa. Mas a paixão de fãs às vezes passa do ponto. Todo ano tem participante sendo amado e participante sendo odiado, e os comentários podem ficar bem pesados. Edu e Fih sempre se posicionam pra tentar dar um basta nos ataques, mas tem quem transforme a zoeira em carreira. O Jordann, da sétima temporada, foi muito hateado no começo, e a resposta dele foi zoar ainda mais a zoeira que faziam com ele. Com isso, o meme “vai ter Jordann” tomou conta da internet, e ele saiu da temporada com o título de Miss Simpatia. VAI TER JORDANN!!!

As provas mais amadas pelo público
Todo fã do Corrida tem aquela prova que espera a temporada inteira, e algumas viraram tradição. A mais antiga é a Night of Cola Quente, que tá no programa desde o segundo episódio da primeira temporada, em 2018: look personalizado, muito DIY e desfile. Ela volta todo ano com um tema novo, de Halloween a Farofa da GKAY, e o próprio programa já assume que é temida por uns e amada por outros.
O Paredão das Blogueiras estreou na quinta temporada e virou caos garantido: em duplas, uma participante narra uma maquiagem gritando, do outro lado de um paredão, enquanto a outra executa sem ver a referência. Na semifinal vem o Maquia e Fala, em que os participantes fazem uma maquiagem enquanto respondem à tag “10 Fatos Sobre Mim”, e as histórias costumam tirar lágrimas de todo mundo, jurados incluídos. E tem as que aparecem em algumas temporadas e deixam saudade, como a Garota da Capa, em que os participantes viram capa de revista da Avon, e a Publi Secrets, que testa a habilidade de fazer publi.
Do ponto de vista de negócio, essas provas viraram formatos próprios do Corrida, e a marca quer estar onde o público já tá esperando. Na sétima temporada, a Night of Cola Quente ganhou o patrocínio da Disney+, com os participantes criando looks inspirados nas personagens de uma série da plataforma. A TIM gostou tanto da prova de Videocast que repetiu a dose na temporada seguinte.
Mas nem tudo são flores
Com tudo isso, seria fácil imaginar uma fila de donas marcas querendo entrar. Mas não foi bem assim. A quarta temporada, em 2022, já tinha estreado depois do risco de o projeto não sair do papel. E em 2025, na live de apresentação da nova grade da DiaTV, Rafa Dias avisou que ainda não podia confirmar a sétima temporada e que a equipe seguia tentando fazer ela acontecer.
Na mesma ocasião, ele disse se orgulhar de a Dia Estúdio nunca ter feito publicidade de casa de aposta em 11 anos e continuar entregando o conteúdo de graça pra audiência. E esse conteúdo de graça custa caro: o programa tem um custo aproximado de R$4 milhões por temporada.
Foi aí que a comunidade da Corrida das Blogueiras deu o nome. Os fãs se mobilizaram nas redes, cobraram as marcas, espalharam os números do programa e a sétima temporada estreou com recorde de patrocinadores: TIM, Suvinil, Disney+, Brastemp, Vizzela, Smirnoff Ice (Diageo), 99Food e Fanta. E a temporada que quase não existiu virou a maior da história.
YOUPIX: Depois de oito temporadas, imagino que bate aquele “de onde a gente vai tirar ideia agora?”. Como vocês fazem pra cada temporada surpreender o público e, ao mesmo tempo, criar novos formatos dentro do Corrida que abram espaço pras marcas?
Rafa Dias: Esse é um dos grandes desafios de trabalhar com uma propriedade que já chegou à oitava temporada: entender o que precisa permanecer e, ao mesmo tempo, o que pode evoluir. A identidade da Corrida é muito forte, então a gente não quer mudar tanto a ponto de ela deixar de ser reconhecida. Mas também não quer repetir uma fórmula todos os anos.
E acho importante falar que tudo isso que o público vê hoje, as roupas, as maquiagens, a luz, os figurinos, os efeitos, a cenografia, só acontece porque existe um coletivo artístico muito grande trabalhando por trás do programa. Tem maquiador, sonoplastia, produção, roteiro, conteúdo, cenografia, logística e muitos outros profissionais envolvidos. Não é o trabalho só dos meninos, meu ou do elenco. É muita gente trabalhando junto, dando suporte e criando em conjunto para que a Corrida aconteça.
Então, quando a gente pensa em novos formatos de prova, novas dinâmicas ou novas maneiras de contar essas histórias, também está pensando em como ampliar esse espaço criativo para todos esses profissionais e artistas. A Corrida, hoje, é muito mais do que um reality: é um grande projeto coletivo, construído por muita gente.
As marcas precisam entrar na brincadeira
Quem patrocina o Corrida vira parte do programa porque a marca aparece dentro das provas. Na sétima temporada, uma das provas pedia um vídeo no estilo “Chá de Revelação” com publicidade das tintas Suvinil. Até o lanchinho do Lounge já teve snacks proporcionados pela Americanas. É publi co-criada do tipo que o público assiste, comenta e lembra depois.
Na oitava temporada, MAC Cosmetics e TikTok Shop participam pela primeira vez, e Fanta, 99 e Smirnoff Ice voltam como parceiras. A edição terá estética inspirada no rococó, 12 participantes, 11 episódios e final ao vivo, com Renata Santti, primeira vencedora do reality, de volta ao júri.
A gente acompanha a Corrida desde a primeira temporada e sabe que teve edição que quase não aconteceu e acabou superando as expectativas. Olhando pro Corrida como negócio, aonde vocês querem chegar? Tem algum sonho que ainda querem realizar com o programa?
Edu: A gente quer continuar aumentando o universo da Corrida. Hoje ela já é muito maior do que simplesmente uma temporada de reality. Tem os participantes, a comunidade, os conteúdos derivados, as marcas, os produtos e agora também a experiência presencial. Então nosso sonho é continuar descobrindo o que essa propriedade pode ser.
Fih: E nós queremos fazer isso sem transformar a Corrida em uma coisa que não tenha mais nada a ver com o que ela era. Acho que esse é maior desafio quando um projeto cresce: como você escala sem perder a personalidade?
Edu: A turnê é um passo muito importante nesse sentido. Durante anos, a Corrida existiu principalmente na tela. Agora estamos levando essa comunidade para um espaço físico. É uma experiência nova para a gente e também uma maneira de entender até onde essa marca pode chegar.
Fih: E, claro, a gente tem vários sonhos que ainda não pode contar. Mas acho que a vontade é continuar fazendo a Corrida ocupar espaços que hoje a gente nem imagina.
Corrida das Blogueiras na estrada
A grande novidade da nova temporada é a turnê pelo Brasil. Edu e Fih vão passar por São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Belém, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Salvador, com uma jurada convidada em cada parada, exibição de episódios e sessões de fotos com o público. São quatro tipos de ingresso: só a sessão, sessão com leque exclusivo, sessão com todos os produtos oficiais e sessão com meet & greet. Além disso, tem loja oficial, site com bastidores, vídeos de jurados e participantes, blog e produtos, e sessões especiais no Teatro do YouTube, em São Paulo, com convidados ao longo da temporada.
E esse movimento conversa com o que as pesquisas de comportamento vêm mostrando. A WGSN apontou que o diferencial das marcas nos próximos anos vai ser a capacidade de gerar emoção, conexão e confiança com as pessoas, e trouxe o dado de que 86% da Geração Z e dos millennials consideram experiências sensoriais decisivas na hora da compra.
YOUPIX: Antes de anunciar a turnê, o que mostrou pra vocês que o público queria encontrar a Corrida fora da tela? Foi pedido nos comentários, a lotação das finais no Vibra, algum dado? E o que a experiência presencial entrega que o episódio sozinho não entrega?
Rafa Dias: Acho importante fazer uma correção em relação à ideia de que a turnê nasceu de uma demanda do público. Não foi exatamente isso. A turnê foi uma iniciativa nossa, pensada também como uma maneira de criar novas possibilidades de financiamento e de sustentabilidade para o projeto.
Nos últimos anos, muita gente falou sobre financiamento coletivo e sobre formas de ajudar na continuidade da Corrida. Então, a turnê é uma maneira de permitir que esse apoio aconteça de forma física e financeira, colocando a comunidade junto do projeto e, ao mesmo tempo, ajudando a viabilizar a continuidade dele. Inclusive, a gente já começa a levantar investimentos para a nona temporada, algo que os meninos também comentaram na live.
E tem uma dimensão muito concreta desse encontro: a expectativa é que mais de 20 mil pessoas passem pela turnê, entre as diferentes cidades e as apresentações. É muita gente saindo da experiência digital para viver a Corrida presencialmente.
E o presencial entrega uma coisa muito difícil de reproduzir na internet: a reação coletiva. No episódio, cada pessoa acompanha de casa, pelo celular ou pela televisão. Ao vivo, você tem milhares de pessoas reagindo juntas, e essa energia passa a fazer parte da própria experiência. Então a turnê não é simplesmente levar o programa para outras cidades. É criar uma nova forma de encontro com a comunidade e, ao mesmo tempo, construir um caminho para que a própria Corrida continue existindo e crescendo.
Análise YOUPIX
A gente morre de orgulho de ver a Corrida das Blogueiras com mais uma temporada no ar. Dois creators tiraram uma ideia do papel em 2018, sem verba e sem patrocinador, e apostaram tempo, dinheiro e muita teimosia num formato que ninguém tinha feito antes na internet brasileira. Apostaram principalmente na comunidade, e ela respondeu temporada após temporada, de um jeito que muito programa de TV com orçamento milionário não consegue.
E vale lembrar o que isso significa na prática: a Corrida é entretenimento de graça. Quem assiste não paga nada pra ter episódio toda semana, Lounge, bastidores e final ao vivo, enquanto do outro lado tem uma produção que custa milhões por temporada. Por isso os patrocinadores são tão importantes, e por isso dá gosto ver cada marca que entende o valor de estar ali e entra na brincadeira. É o que mantém de pé um programa que reúne gente de todas as idades e de todos os jeitos, do fã que tá desde a primeira temporada (eu inclusa) a quem chegou agora pelo react de algum creator.
A gente fala há 20 anos que creator é negócio e que a comunidade é o que ele tem de mais valioso, e o Corrida é a prova mais bonita disso no Brasil. A Renata que colava look no chão em 2018 volta agora pra bancada, e o programa que nasceu sem verba vai pra estrada em dez capitais. Edu e Fih, obrigada por mostrarem pro mercado inteiro até onde um creator pode chegar quando acredita no próprio projeto e em quem tá do outro lado da tela. Que venham muitas temporadas pela frente!
Pra finalizar, é claro que a gente quer saber dos spoilers!
YOUPIX: O que vocês podem contar pra gente sobre o que está por vir na Corrida das Blogueiras? Pode ser dessa edição ou até das próximas.
Fih: Posso contar que vai ter coisa suficiente para o povo precisar entrar na internet depois do episódio para comentar.
Edu: A gente sempre tenta encontrar maneiras novas de movimentar a competição e surpreender quem acompanha. Nesta temporada tem novidades de dinâmica e momentos que vão gerar bastante conversa.
Fih: E acho que uma coisa que pode ser um spoiler das próximas temporadas é que a gente está cada vez mais interessado em explorar o que existe ao redor da Corrida, e não só dentro dos episódios.
Edu: Mas spoiler mesmo, spoiler que vai estragar episódio, a gente vai deixar para o público descobrir.