Como a garra de um goleiro cabo-verdiano e a simpatia de um viking de quase dois metros deram um F5 na minha relação com o futebol

Eu sempre fui uma fangirl. Ser uma fangirl nem sempre é algo super bem-visto; às vezes é tratado como uma futilidade, como se fosse um algo menor por ser uma característica de “menininhas”. Mas eu nunca me importei muito com isso e sempre fiz questão de gritar para o mundo todos os meus gostos. Eu tenho fandoms passageiros – aos 14 anos, por exemplo, foi pelo Backstreet Boys —, mas tenho fandoms da vida inteira, como o Pearl Jam. No ano passado, fiquei muito obcecada por séries teens e, há alguns anos, por Bridgerton. Esses foram do tipo que passaram rápido. Mais recentemente, foi pela série de jogadores de hóquei gays que, para mim, é simplesmente uma das melhores histórias de amor já criadas na modernidade.
O fato é: se você tiver interações comigo, ainda que breves, vai saber que eu amo hambúrguer, rock ‘n’ roll, gente de bom coração, comer sobremesa antes do almoço e dançar em qualquer lugar. E, claro, vai saber sobre minhas mais recentes e também mais longas obsessões. A mais recente tem tudo a ver com meu lance com gente de bom coração, que é tão intenso que, nesta Copa do Mundo de 2026, fiquei completamente obcecada por dois personagens: o goleiro Vozinha de Cabo Verde e Erling Haaland da Noruega. A ponto de não ter ficado chateada por ele ser o grande carrasco da seleção brasileira – na verdade, o segundo grande carrasco, dado que o primeiro foi a própria seleção e sua apatia absoluta.
Eu comecei a Copa obcecada pela campanha de Cabo Verde. Meu marido inclusive disse que, depois de quase 10 anos juntos, ele finalmente descobriu que meu time do coração é Cabo Verde. A Copa de 2026 foi a primeira da história deles! Sendo a menor nação do torneio em população, os “Tubarões Azuis” chocaram o planeta ao avançar em um grupo pesadíssimo e cair de pé, de forma heroica. E eu fiquei fascinada pelo caso do goleiro Vozinha, de 40 anos.
Ele, que foi batizado de Josimar por conta do lateral da Seleção Brasileira na Copa de 1986 e ganhou o apelido carinhoso pela proximidade com a avó, jogou esse Mundial como um jogador livre, sem clube, já que seu contrato com um time da segunda divisão portuguesa tinha acabado de vencer. Vozinha começou a estreia contra a Espanha com pouco mais de 50 mil seguidores no Instagram. Ao final da partida, já passava de 1 milhão. Depois da eliminação, alcançou mais de 28 milhões, superando Iker Casillas e tornando-se o goleiro mais seguido do mundo na plataforma. Um crescimento de mais de 50.000% impulsionado pela CazéTV, que convocou os brasileiros a seguirem o atleta após ele fechar o gol contra os espanhóis e ser eleito o melhor em campo.
Vozinha e Cabo Verde seguiriam como minha obsessão da Copa em absoluto, mas aí o loiro nórdico surgiu com sua individualidade e capturou minha atenção obsessiva. Enquanto Cabo Verde ia lá e fazia a partida mais bonita do Mundial, a gente parecia um bando de atônitos vendo o viking de quase dois metros de altura ter tempo de ajeitar a bola com calma para fazer o segundo gol da vitória da Noruega contra o Brasil.
Mas o que fez o Haaland ser tão interessante? Ele é bom. Veja bem, ele não é “bonzinho” ou bobo; ele é uma boa pessoa e um jogador bem peculiar. Além disso, é o sonho de qualquer profissional de relações públicas, porque sabe dar entrevistas sem falar absolutamente nenhuma besteira. Até aí, um bom media training dá resultado. O que realmente o torna tão interessante para uma fã de gente boa como eu é o que o cara faz quando parece que ninguém está olhando. É a camisa que ele entrega na mão do auxiliar que recolhe os uniformes; é o hábito de sempre abraçar os colegas de equipe e até os adversários; é o bom humor nas redes sociais mesmo quando é zoado. Ele ainda protagonizou o maior bromance da Copa com o Jude Bellingham, e mesmo sendo eliminado pelo ex-colega de equipe nas quartas de final, não perdeu o fair play: cumprimentou o amigo com um sorriso legítimo e foi um dos últimos a sair do estádio, dando atenção a famílias e fãs.
Obviamente não sou só eu, a “diferentona”, que está obcecada pelo moço. Messi e Cristiano Ronaldo foram os mais buscados no Google Trends, mas Haaland é o grande fenômeno de crescimento do torneio, 1.150% de aumento em um mês, com pico na véspera do jogo contra o Brasil. E essa obsessão não foi só nossa: as tendências de busca explodiram igual no Canadá, no México e nos Estados Unidos. O próprio Haaland pediu no X que as pessoas buscassem seu nome e, ao digitar “Erling Haaland” no Google, aparecia uma animação da remada viking que tomou conta das arquibancadas e até da Times Square.
Num momento em que faltam referências boas nacionais dentro e fora do campo na nossa seleção, Haaland me dá esperança de que apertaram um F5 nos ídolos de futebol datados. No auge da briga coletiva entre os jogadores na partida contra o Brasil, com os noruegueses já classificados, ele foi calmamente beber a água do nosso goleiro. Imagina gastar energia e bom humor com aquilo àquela altura do campeonato? Ele não chuta cachorro morto, ele levanta as pessoas do chão. Assim como o Vozinha, que fez questão de levantar cada companheiro de time caído na derrota, pessoas boas levantam outras pessoas.
Então, se amanhã você me vir usando uma camisa da seleção de Cabo Verde (sim, comprei para mim e para as crianças a com o número e o nome de Vozinha) ou pesquisando o preço das passagens para lá e para a Noruega, não me julgue. A Copa do Mundo pode até acabar e, conhecendo meu histórico, é bem provável que mês que vem minha obsessão seja outra série teen ou uma banda de indie rock novata. Mas a verdade é que, no quesito obsessão com humanos, se o ídolo não tiver a garra do Vozinha ou o coração e o carisma despretensioso do Haaland bebendo água no meio da confusão, eu nem ligo o meu radar de fangirl. A seleção brasileira pode até ter nos decepcionado com sua apatia, mas pelo menos essa Copa serviu para me lembrar de algo muito importante: eu posso até pular de fandom em fandom, mas o meu tipo favorito de gente nunca vai mudar.
Fabi Froes trocou o jornalismo tradicional pela revolução do YouTube, onde atua há mais de uma década entre parcerias e RP de crise. Autora de “Mediocridade: Crônicas de uma Mãe Millennial em Busca do Ordinário”, Fabi é mãe da Mia e do Nuno, corredora nas horas vagas e colecionadora de carimbos no passaporte. Entre um café e uma Coca Zero, busca o equilíbrio entre o caos da vida profissional e o prazer despretensioso de um projeto DIY.
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