Déia Freitas, Rádio Novelo e Histórias de Ter.a.pia debatem responsabilidade, os limites da exposição e o poder (quase terapêutico) de transformar segredos em narrativas

Ilustração por Magno Borges/Agência Mural
Sabe aquela frase de que “falta empatia no mundo”? A gente ouve isso de muita gente que acaba até banalizando o termo – empatia demais também é um problema. Mas, se pararmos para pensar, será que dá para medir a empatia numa régua válida pra qualquer caso?
A podcaster Déia Freitas, criadora do fenômeno Não Inviabilize, um dos podcasts mais ouvidos do planeta, é a primeira a questionar essa régua:
“Eu acho, primeiro, que empatia não é uma coisa que dê pra gente medir no sentido de mais ou menos empatia. Eu acho que a gente tem empatia por algumas situações e algumas pessoas, e outras situações e pessoas não batem na gente da mesma forma, né? Eu acho que depende muito do contexto de quem tá ouvindo.”
Déia conta histórias de pessoas que escrevem para o seu programa via email, quase sempre pedindo a opinião dos ouvintes sobre como a protagonista deve agir naquela situação. De partilhas de família até descobertas de traição, rola de tudo no quadro “Picolé de Limão”. Uma parte comum entre os episódios é a “Zona Cinza”, como a Déia batizou o momento em que a protagonista toma uma atitude que não parece muito correta, mas que passa pra gente a sensação de que o fim justifica os meios – às vezes.
Por exemplo: se uma mulher descobre que seu marido tinha um caso e, ao invés de confrontá-lo, organiza sua vida financeira pra não perder bens no divórcio, te parece uma atitude correta? Pensando na arquitetura sorrateira da coisa, a resposta é não. Mas, tendo em vista que muitos homens, além de trair, fazem de tudo pra ferrar com as mulheres na separação, parece uma precaução justa. A verdade é que a forma como uma história é contada pode fazer a gente achar essa zona mais, ou menos cinza.
Empatia é algo volátil?
Para Lucas Galdino, cofundador e produtor executivo do canal Histórias de Ter.a.pia, a vontade de resgatar essa escuta nasceu em 2018, um ano eleitoral cinzento e acirrado no Brasil:
“Parecia que ninguém queria ouvir ninguém. A gente entendia que conversas profundas, importantes, sobre futuro, desejos e questões sociais não podem acontecer só de dois em dois anos. Precisamos entender o que se passa na cabeça do nosso vizinho, não pra convencer essas pessoas de algo, mas pra compreender a complexidade humana.”
É justamente nesse comportamento do público, em um país historicamente apaixonado pela vida alheia, que surge uma divisão na Creator Economy: o que separa a mera fofoca do storytelling profissional? Quando o foco é só contar de qualquer jeito em busca do like (alô páginas de fofoca), o julgamento é automático e nunca vai provocar empatia na audiência. Mas quando entra em cena um contador de histórias profissional, como o Lucas, o contexto passa a importar.
Do radinho de pilha ao fone de ouvido
Como bem lembra Déia Freitas, “nos anos 60, 70, as pessoas ouviam novela nos rádios, a radionovela. Então, sempre que a gente tiver uma boa história, seja uma série, um filme, um podcast, as pessoas vão ter interesse em ouvir.” Paula Scarpin, diretora de criação da Rádio Novelo, concorda que esse instinto auditivo independe de telas ou conexões:
“Contar e ouvir histórias são parte das tradições mais intrinsecamente humanas, independentemente da internet”, afirma. Para ela, no cenário atual de avalanche de conteúdos e fake news, as pessoas buscam o formato “justamente por causa da dificuldade de ter a veracidade atestada — as pessoas se conectam com histórias sabidamente reais, curadas por contadores em que elas confiam.”
Mas mexer com a vida real traz uma responsabilidade gigante: qual é a linha que separa o “fofoqueiro” de um contador de histórias de respeito?
Para Paula – que assume que todos na Rádio Novelo são “bons fofoqueiros”, a diferença tá no método, um debate recorrente na Creator Economy entre jornalismo e criação de conteúdo:
“A gente segue as boas práticas do jornalismo, checando as informações que são veiculadas, dando espaço para o contraditório, protegendo os entrevistados de informações sigilosas, respeitando o off.”
Lucas, do Histórias de Ter.a.pia, complementa trazendo o peso humano dessa escolha: “O que diferencia é a ética e a responsabilidade social. Aquela pessoa confiou a história dela a você. Eu não posso colocar alguém em uma situação vexatória, de humilhação ou achincalhamento.”
Quando a história é bem conduzida, o impacto é avassalador e costuma furar bolhas que o formato tradicional jamais ultrapassaria. Paula explica esse movimento com o dado de uma pesquisa da Rádio Novelo:
“Incluímos a seguinte pergunta: ‘Você já mudou de opinião depois de ouvir um episódio do Rádio Novelo Apresenta?’ – e nos espantamos ao perceber que 70% dos ouvintes responderam ‘sim’. Por mais importante que seja o noticiário, às vezes o leitor, ouvinte ou espectador se perde na vastidão de números e uma única história pessoal pode fazê-lo se impactar de maneira muito mais profunda.”
Lucas explica que, ao tornar pessoais temas como a pauta LGBTQIA+, eles deixam de ser apenas discursos políticos e apontados como “lacração”:
“A bandeira unifica uma luta em comum, mas cada pessoa vive aquilo de uma maneira diferente. Quando uma mulher trans conta a própria experiência e diz: ‘Imagina eu entrando em um banheiro masculino. Você consegue imaginar o risco que isso representa pra mim?’, aquilo ganha humanidade. A discussão deixa de ser apenas uma opinião e passa a ser uma experiência concreta.”
Déia Freitas traz o mesmo comportamento para o contexto das mulheres e o enfrentamento ao machismo enraizado na nossa sociedade:
“Se você pegar o tema violência contra a mulher e focar na população de baixa renda, é uma maneira de trazer empatia e até despertar algumas mulheres que estão em relacionamento abusivo, e que acabam assistindo ali o programa e até vendo um número para denúncias.”
Puxando a empatia de volta pra nossa conversa aqui, muitas vezes um episódio funciona como um ponto final para quem sofreu uma história parecida.
“Sinto que esse compartilhamento funciona quase como um ritual de virar a página, deixar essa história registrada como algo que aconteceu, e que por mais traumático que tenha sido esse registro sela esse passado e permite que ela siga em frente”, explica Paula Scarpin.
O combate ao ódio nos comentários (e a falta de ajuda do algoritmo)
Quem é ouvinte fiel da Déia no Não Inviabilize já sabe como funciona o grupo no Telegram, onde milhares de pessoas opinam em cada história: “Sejam gentis com a fulana no grupo”. Quem dera esse pedido se estendesse pro restante da internet.
Se a relação entre o contador de histórias e do entrevistado é baseada no respeito e no cuidado ao expor o caso, manter a salvo as pessoas reais que continuam vivas e lendo a repercussão é o maior desafio desses creators – isso sem contar que, no Não Inviabilize, a identidade das pessoas, nomes e o local onde a história aconteceu são ocultados. No Ter.a.pia, as pessoas colocam seus rostos pra jogo. Aí, quando um conteúdo viraliza, fica difícil conter o ódio, algo que o algoritmo das plataformas poderia controlar melhor.
“A gente vive num mundo em que as pessoas acham que discordar de algo automaticamente lhes dá o direito de atacar o outro. E não é assim. Desde que aquela pessoa não esteja ferindo a dignidade de ninguém, ela tem o direito de viver a própria experiência. fA gente tenta acompanhar, responder, excluir e denunciar comentários violentos. Inclusive, existem histórias que escolhemos não contar. Histórias que provavelmente gerariam muito engajamento, mas através do ódio ou da exposição excessiva da pessoa. ”
Paula Scarpin adota uma postura firme na Novelo: “Em geral, nosso público é bastante acolhedor. No entanto, quando acontece de termos algum comentário desrespeitoso, não hesitamos em deletá-lo.”
Déia Freitas segue na mesma linha de proteção e acolhimento: se houver toxicidade, a moderação entra em ação sem dó para garantir que a comunidade continue sendo um espaço seguro.
No final das contas, o mercado de histórias reais prospera porque oferece algo que nem a internet, nem a Inteligência Artificial consegue copiar: a autenticidade humana, considerando todos os seus erros e imperfeições. Afinal, errar é humano. Nem todo protagonista de uma história vai acertar o tempo inteiro.
E, trazendo pro contexto da Creator Economy, o sucesso comercial e o impacto desses projetos de conteúdo mostram que o público não quer apenas consumir conteúdos rápidos e superficiais, mas sim, estabelecer uma identificação com os protagonistas de cada história.
Os três creators deixam claro que avaliar o sucesso de um projeto de storytelling precisa olhar além dos views nas plataformas – algo que a gente repete diariamente aqui na YOUPIX. Lucas contou que o Histórias de Ter.a.pia avaliou, em uma pesquisa, que 96% do público passou a compreender melhor a desigualdade social. No nosso mercado, as marcas começam a entender que comunidades engajadas valem mais do que números vazios. É o que a gente fala sobre mensurar o sucesso de uma campanha: você pode olhar só pra conversão de vendas, inscritos, ou o que for a métrica, ou você pode mergulhar fundo pra entender como a campanha impactou a construção daquela marca.
Foi isso que o pessoal do Ter.a.pia buscou com essa pesquisa de impacto: medir na prática como contar histórias reais fomenta uma mudança de pensamento. Outro dado profundo desse mapeamento é o de que mais de 90% das pessoas se sentem mais empáticas depois de entrar em contato com uma história real – muito mais do que se ouvisse um terceiro contando sem nenhuma carga emocional. Se você quiser saber mais sobre como as pessoas se sentem transformadas por meio do contato com histórias humanizadas, acesse a pesquisa clicando aqui:
A confiança é transferida: se a comunidade confia na curadoria que o creador faz das histórias reais, ela tem muito mais chance de confiar também na curadoria das marcas parceiras.
Antes de dar tchau, um desafio pro formato de contação de histórias:
Tanto a diretora criativa da Rádio Novelo quanto pro criador do Histórias de Ter.a.pia apontam que os algoritmos das redes, focados em vídeos curtos, são um desafio pra esse tipo de conteúdo “de fôlego”. No entanto, uma coisa que a Creator Economy é craque é em consolidar audiências.
Ao incentivar assinaturas e plataformas de nicho, como os “tocadores de podcast” que remuneram melhor cada ouvida, esses creators constroem uma base de fãs muito sólida, que consome o conteúdo de forma intencional e frequente, blindando o negócio em um cenário de muitas incertezas vindo dos donos das Big Techs.
Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!
Gabriel Paes é jornalista e creator. Cobre a inseparável mistura entre esporte e política n’O Contra-Ataque, de vez em quando dá uns pitacos no podcast Fervedouro e assina a newsletter semanal da YOUPIX, onde fala sobre cultura, sociedade e Creator Economy.