Como a mulher mais fotografada do mundo transformou a atenção pública em impacto social

Montagem por @thefashionobserve
Ontem, dia 1 de julho, a princesa Diana completaria 65 anos. Olhando em retrospectiva pro legado que ela deixou, fica difícil não tentar encaixar sua figura nos moldes da internet de hoje. Se ela não tivesse morrido há quase 30 anos, com certeza acumularia centenas de milhões de seguidores no Instagram, mas por que atuação exatamente? Antes da gente desenrolar essa ideia, vale combinarmos uma diferenciação entre três termos fundamentais na Creator Economy:
Celebridade é a figura clássica da fama: quem se torna conhecido por atuar, cantar, dançar, modelar ou ser famosa por um título, por exemplo de… princesa. Assim como a princesa Diana.
Creator é o novato da parada, um termo que a gente cunhou a partir da Creator Economy porque a sua relevância não vem da vida pessoal ou de um rostinho bonito, mas do conteúdo e do valor que ele produz. São os podcasters, analistas de cinema, sociedade e etc; os cozinheiros do TikTok, a turma das esquetes de humor, os profs. de finanças e por aí vai.
Já os influencers são os que ditam comportamento e guiam decisões de compra das suas comunidades. A lógica da fama é baseada na identificação: queria tanto ser essa pessoa. E vale dizer que muita gente faz uma divisão na cabeça de que os influencers do tigrinho, gente tosca e cafona são chamados assim e, quem pensa um pouco mais e se preocupa com a qualidade do conteúdo, com a vida de quem o acompanha, são creators. Mas influencer não precisa significar uma pessoa vazia, como muitas fazem parecer. Na real, traz muito conteúdo só numa caminhada.
A Diana viveu muito antes de o termo influencer – ou da própria Creator Economy – existir, além de que a distribuição do conteúdo dependia dos paparazzi, das revistas e da televisão. Então dá pra dizer que a Diana foi a primeira influencer da história, como conhecemos o termo hoje?
Da história… difícil cravar, né? A gente brinca com as palavras e o que vale é a reflexão, mas até aí, de Cleópatra a Marilyn Monroe, muita gente caberia nessa lista. O que fascina na história da Diana é que ela viveu pouquíssimo tempo antes da virada do milênio, quando nasce a vida digital em larga escala e a lógica do nosso consumo caminha pro que a gente vive hoje. Então ela tá num contexto mais próximo do que a gente imagina.
O que define um influencer é a capacidade de gerar identificação, furar bolhas e mover a opinião pública. Nisso, Lady Di foi pioneira. No início dos anos 80, quando surgiu no cenário público, a realeza britânica era vista quase como uma caricatura medieval: fria, distante e intocável. Diana quebrou esse muro invisível – algo que Meghan Markle ajudou a fazer em tempos mais recentes. Ela foi apelidada de “Princesa do Povo” justamente porque tocava nas pessoas, abraçava, conversava de igual para igual e demonstrava uma vulnerabilidade que ninguém esperava de um membro da realeza.
Ela usava sua relevância pra colocar os holofotes em causas que o resto do mundo preferia ignorar, como a epidemia de HIV. Naquela época, a desinformação e o preconceito eram brutais e a comunidade LGBT e outros grupos afetados eram marginalizados de forma desumana, tratados quase como leprosos por conta do medo irracional do contágio pelo toque. Diana foi a um hospital, sentou-se na cama de um paciente soropositivo e, sem luvas, apertou a mão dele. Aquele único gesto, registrado por fotógrafos do mundo inteiro, humanizou o tratamento da doença. Ela botava a mão na massa, seja caminhando por campos minados ativos em Angola para banir essas armas, seja visitando abrigos de vulneráveis e puxando a atenção do mainstream pra grandes problemas sociais.
Paralelamente ao ativismo, tinha a moda. Diana entendia o poder da imagem como poucos e cada peça escolhida funcionava como uma mensagem bem calculada – se isso não é influência da maior elegância, pode parar o textão por aqui. Com apenas 20 anos, prestes a subir no altar, decidiu mudar o protocolo de casamento da família real e não jurou obediência ao príncipe Charles, explica um texto na Marie Claire:
Noivas da realeza antes dela, como a Rainha Elizabeth, a Princesa Margaret e a Princesa Anne , prometeram “obedecer” a seus maridos em seus votos de casamento, conforme prescrito no Livro de Oração Comum Anglicano, que data de 1662, segundo o jornal The Mirror . Mas Diana rejeitou essa promessa para si mesma e, em vez disso, disse durante a cerimônia amplamente acompanhada na Catedral de São Paulo que o “amaria, confortaria, honraria e protegeria, na saúde e na doença” — sem qualquer sinal de obediência.
Anos mais tarde, após a separação, ela usou a moda como uma armadura de libertação. O caso mais emblemático é o icônico “vestido da vingança” usado em 1994, na mesma noite em que Charles confessou sua infidelidade na televisão. Em vez de se esconder, ela apareceu deslumbrante, roubando todas as manchetes e ressignificando o papel da mulher traída.
Até as escolhas casuais dela ditavam o consumo da época até hoje: o shorts ciclista com moletom oversized, por exemplo, é uma estética copiada até hoje por nomes tipo Kendall Jenner e Hailey Bieber. Do mesmo jeito que as pessoas compram hoje só rolando o feed, influenciadas por algum story, na época o impacto das lojas esvaziadas depois de uma nova foto da Lady Di era ainda maior.
No meio da pesquisa pra esse texto, encontrei uma frase que o príncipe Charles supostamente teria dito: “Minha futura esposa terá que se acostumar a viver sob minha sombra”. Queria muito que ela abrisse esse textão, mas sem poder confirmar a origem da aspa, seria desonesto. Ainda assim, vale dizer que a história foi implacável com o atual rei da Inglaterra, o viúvo eternamente condenado a viver às sombras da mulher que foi – e ainda é – infinitamente maior que ele.
Análise YPX
Enquanto os influencers e creators de hoje constroem comunidades baseadas na autenticidade do conteúdo que oferecem, Diana fazia isso há 30 anos, antes da internet massificada e rompendo uma estrutura extremamente rígida da família real – isso sem falar no assédio horroroso dos paparazzi. Ela humanizou a monarquia ao falar abertamente sobre suas próprias dores, como depressão pós-parto e transtornos alimentares, problemas reais enfrentados por milhares de mulheres, saindo definitivamente daquela redoma de vidro perfeitinha da coroa.
O que torna o fenômeno dela ainda mais impressionante é o controle da narrativa. No nosso mercado, o creator é o dono do próprio canal: ele decide o que postar, como vai ser o ritmo da edição, etc.. Diana não tinha esse poder, ela operava em um ecossistema de mídia agressivo, sendo a mulher mais fotografada do mundo e o principal combustível pro jornalismo de celebridades e da cultura implacável dos paparazzi. Ela precisava influenciar o mundo pelo filtro do olhar desse sistema, direcionando os holofotes da imprensa para que eles dessem atenção às suas causas sociais.
Olhar pra a trajetória de Diana Spencer nos ajuda a lembrar do real significado da palavra influencer. Ela provou que a verdadeira influência não se mede pelo número de seguidores, mas pelo que você faz com os olhos de quem tá te assistindo.
Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!
Gabriel Paes é jornalista e creator. Cobre a inseparável mistura entre esporte e política n’O Contra-Ataque, de vez em quando dá uns pitacos no podcast Fervedouro e assina a newsletter semanal da YOUPIX, onde fala sobre cultura, sociedade e Creator Economy.