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Estar no Facebook é o maior símbolo de submissão ao status quo que temos hoje

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Estar no Facebook é o maior símbolo de submissão ao status quo que temos hoje

Você está disposto a pagar o custo social de ficar longe do Facebook?

Estar no Facebook é o maior símbolo de submissão ao status quo que temos hoje


Não ter Facebook é passar atestado de weirdo, como costumava ser quando alguém se recusava a comer no McDonald’s por julgá-los imperialistas opressores.

por Ana Freitas

Quando eu estava no colégio, o maior ato rebelde que uma adolescente de condomínio como eu podia cometer era se vestir de preto e usar broches da anarquia, anti-McDonalds e anti-Bush. Se eu fosse uma adolescente nos anos 2010, o jeito mais eficiente e contundente de me posicionar ~contra o sistema~ seria ficar de fora do Facebook. Sendo assim, por que não vemos uma porção de jovens rebeldes saindo da rede social? Por que essa medida não é tão popular?

Não existe hoje símbolo maior de submissão ao status quo do que pertencer ao Facebook (e tá tudo bem). Estar no Facebook é assinar um contrato que garante a entrega de informações pessoais de extensão inestimável, mas valor perfeitamente estimável, sobre a sua vida em troca do uso de um serviço de mensagens, produção e consumo de conteúdo. Nada pode ser mais ‘soldado do sistema’ do que isso.

Apesar disso, mesmo entre ativistas dos direitos a privacidade, permanecer longe da ferramenta tem um custo social bastante alto, um que quase ninguém está disposto a pagar. Em muitos grupos sociais — no meu, por exemplo — uma parte razoável das interações, da organização das agendas e até da distribuição e consumo de notícias de maneira geral acontece dentro do Facebook. É como se um dos personagens de Friends, de repente, decidisse parar de ir ao Central Perk por discordar da política de privacidade do café.

O Facebook se tornou a ágora do nosso tempo, o lugar em que todo mundo precisa estar para ver e ser visto — o lugar em que você precisa estar, aliás, para ser 100% funcional socialmente. Ou vai dizer que você não desconfia de quem não tem um perfil lá, especialmente na faixa entre 20 e 30 anos? A impressão que se tem é que a pessoa é crica, ou careta demais pra tecnologia ou tem algo horrível a esconder. Não ter Facebook é passar atestado de weirdo, como costumava ser quando alguém se recusava a comer no McDonald’s por julgá-los imperialistas opressores (sim, eu tive esses amigos na adolescência. Acho que eles são de humanas).

No cotidiano, as razões pelas quais grande parte das pessoas não está lá não se aproximam de rebeldia ou contestação. Quem se afasta da rede social aparentemente quase sempre o faz para evitar problemas no relacionamento (o que só prova que existe um número alarmante de relacionamentos disfuncionais por aí).

Sair do Facebook pode ser um ato político… quer dizer, seria, se as pessoas estivessem dispostas a sacrificar a vida social. Em outros países talvez não seja o caso, e é por isso que é bem comum conhecer gente de fora que nem usa a ferramenta, mas pra gente aqui no Brasil o capital social é um dos valores sociais subjetivos mais importantes — aqui, especialmente, damos muito mais valor pra nossa rede de contatos e pra influência subjetiva que podemos ter por conta dela. E é por isso, inclusive, que o Brasil sempre sai na frente em todas as redes sociais que aparecem.

E é justamente pelo valor alto que atribuímos a nossa capacidade de manter uma vasta rede de contatos e um capital social valioso que, quando alguém sai do Facebook por razões que não envolvem evitar DRs ciumentas com o namorado ou namorada, dá pra considerar um ato de rebeldia. O sacrifício, nesses tempos, é grande. Aqui tem uns depoimentos de quem não está no Facebook por princípios.

Pensando melhor, se eu fosse adolescente em 2015, ia ter que procurar outro jeito de me rebelar. Talvez ficasse mesmo nos broches e no cabelo colorido…


Originally published at youpix.virgula.uol.com.br on December 15, 2014.

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