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O que realmente nos conecta quando tudo é conectado menos nós?

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Há umas duas semanas fui impactada por um anúncio peculiar no meu feed do Instagram. Time Left, um aplicativo para fazer amigos. Na hora cliquei porque tenho me interessado em grupos de Clube do Livro e por um momento achei que era algo nessa linha e porque em geral meu algoritmo, um grande connoisseur do meu gosto duvidoso, me oferece bem o que me agrada. 

De fato, desta vez ele patinou legal. Se tem uma coisa nesta vida de que nunca precisei, foi de ajuda para fazer amigos. Sou capaz de fazer amizade com plantas de plástico na sala de espera do dentista. Tenho, inclusive, um colega de trabalho que me perguntava constantemente onde eu conhecia pessoas tão aleatórias dentro da empresa — em geral, humanos completamente distintos de mim, de áreas sem nenhum ponto de conexão. Ainda que eu não tenha uma resposta simples (como “no café”), tenho uma resposta etérea: eu gosto de gente, eu me interesso pelas pessoas e evito julgar meus interlocutores. Mas essa sou eu; o fato de existir um anúncio para este fim demonstra que há um público buscando esse tipo de serviço.

Na minha ótica, quase qualquer humano tem algum ponto interessante na sua vida ou personalidade e se fizermos as perguntas certas, que não estão prontas num questionário de quebra de gelo oferecidos nos jantares corporativos de empresas norte-americanas – juro que já ganhei um desses ao lado de um menu de um jantar de trabalho. As pessoas falam sobre o que as tocam. Todo mundo tem algo que o move, e esse é o assunto mais interessante para aquele humano e a paixão dele sobre isso também vai ser o que vai ser interessante para alguém interessado.

Precisamos entender também que é impossível se conectar com todo mundo da mesma forma. Para algumas pessoas, o elo será a maternidade; para outras, a música, uma série ou um passado em comum. Outras nutrem as mesmas vontades de viver uma vida além do mercado. Quase todo mundo que não tenha predisposição à sociopatia possui algum gosto que pode gerar conexão, ainda que não seja por identificação. O que conecta é o querer, a necessidade de se conectar. É essa urgência humana de estar junto, ainda mais em um mundo configurado pela Inteligência Artificial. Somos ávidos por criar elos, mesmo que momentâneos, para nos sentirmos vivos. Uma das maiores provas disso foi o pós-pandemia: as grandes empresas previram um crescimento baseado no comportamento recluso de consumir tudo sem sair de casa, mas, quando pudemos voltar ao mundo lá fora, o fizemos com a voracidade de quem não saciava uma necessidade básica há muito tempo.

Fui ao festival Fronteiras no final de semana passado e assisti a uma palestra com o psicanalista Christian Dunker e a neurocientista Ana Carolina Souza. Ambos possuem ângulos singulares sobre o mesmo objeto de estudo: a mente humana. Um dos pontos discutidos foi a ansiedade e suas duas maiores causas: a falta de controle e o medo do julgamento social. O Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo, com cerca de 9,3% da população sofrendo de transtornos de ansiedade, segundo a OMS. O país lidera também o tempo de uso de telas, que potencializam esse estado. O quão travados estamos entre esses dois pontos? Os palestrantes sugeriram que uma das possíveis curas para esse mal seria “tramitar” a ansiedade através das outras pessoas. Mas como fazer isso se temos medo do incontrolável — e nada é mais incontrolável que o outro — e receio de como seremos julgados?

Temos receio do conflito. De acordo com o filósofo Byung-Chul Han, mudamos a gramática das nossas relações do conflito para o afastamento e a negação. Ele sugere que as relações se tornaram mais superficiais. A sociedade atual, marcada pela positividade excessiva e hipertransparência, elimina a alteridade — ou seja, a capacidade de lidar com o “outro” diferente de nós. O “outro” é substituído pelo “mesmo” (semelhante), o que empobrece o amor e as relações humanas. É claro que é legal ter interesses em comum, isso é um dos pontos que fortalece nossas identidades, que é relevante para representatividade, mas a beleza do arrebatamento mora na diversidade. 

O afastamento potencializado exatamente pelo mundo virtual que nos deixa como grandes voyeurs de vidas que vemos apenas recortes da metonímia de uma perfeição que na verdade não existe. Além da dopamina de nos deixar super conectados virtualmente e desconectados no mundo real. Esperamos a segurança para agir e nunca temos garantias, então não conseguimos arriscar em parte também porque não queremos errar. São tantas camadas problemáticas que esquecemos que a verdadeira ética vem da dúvida, de não saber o que vai ser, mas ainda assim mirar em fazer o que parece certo e esperar pelo melhor resultado possível.

No mundo de respostas prontas, cursos de prateleira e e-books sobre “como alcançar qualquer objetivo”, onde há espaço para o discernimento? Para fazer algo apenas pelo prazer, ainda que o resultado seja medíocre? Escrevi um livro sobre isso e, talvez por isso, fiquei encantada ao ver dois especialistas discutindo o tema de forma tão visceral para uma audiência lotada — eu mesma estava sentada no chão, balançando a cabeça a cada argumento.

Sou fã do universo de produção de conteúdo, de verdade, acho incrível a gama de opções. Sou também uma grande viciada em mídia social, algo que foi catalisado por um puerpério de longas mamadas em plena pandemia e, alguns diriam que também  é culpa do signo astrológico que minha data de nascimento me proporcionou, mas meu vício tem um ponto de partida claro: eu lido mal com o tédio. Estou na categoria dos humanos que têm dificuldade de se dar ao luxo de “ir a lugar nenhum”.

Mas é fazendo atividades que provavelmente não resultarão em nada além do prazer leviano de estar feliz ali que achamos o espaço para errar, duvidar, e aí sim pertencer. Como boa Millennial sou produto da geração que levou a máxima potência o que é super produção e esqueceu de prestar atenção. A neurocientista falou de como ela decidiu fazer aula de aquarela, ainda que desestimulada pela mãe, uma professora de pintura, porque era uma das formas mais difíceis dessa arte, mas que ela insistiu que não esperava nada daquilo além de pintar a aquarela. Tenho a mesma relação com minhas aulas de bateria, não vou virar baterista, não vai ficar ótimo nunca, mas sempre quis tocar bateria, aprender algo novo ainda que não fique bom é a motivação. Além disso é algo que me obriga a só fazer uma atividade, não consigo ouvir música fazendo isso, mexer no celular ou ler um email de trabalho. Não tem como fazer um activity hopper e isso é um esforço hercúleo para quem foi treinada em alta velocidade de multitasking

Prestar atenção em uma atividade só e dar atenção a uma pessoa são as melhores formas de reconhecimento, a si e ao outro. Porque voltamos a praticar a concentração e a concentração nos permite ter autocontrole, ou seja dominar melhor os impulsos mucho locos do nosso córtex frontal e com isso de fato termos livre arbítrio. Quanto mais rápido e sem pensar tomamos decisões maiores as chances dos algoritmos tomarem elas por nós. E entender que mesmo que ninguém queira errar é no erro e no conflito que vem as soluções e os acertos. 

Não dá para viver a vida com guias de ’10 passos’. Se não temos o mesmo tamanho de pés, o mesmo ritmo de passada ou o mesmo fôlego, como poderíamos trilhar um caminho padronizado? É verdade que um aplicativo pode te apresentar a quem também busca novas amizades, mas deixar um algoritmo ‘montar a nossa mesa’ corre o risco de nos limitar ao que é similar, podando a diversidade que torna a conexão interessante. Pode ser uma alternativa válida para quem mudou de cidade em uma fase da vida em que os encontros orgânicos da juventude já não acontecem. No entanto, o problema persiste: se chegamos a esses encontros paralisados pelo medo do julgamento ou sem saber o que nos move, não há algoritmo que salve. Sem atenção real ao outro e sem clareza sobre nós mesmos, nenhuma conexão sobrevive à experiência.

Estudo sobre o Desenvolvimento Adulto de Harvard, que durou mais de 80 anos, concluiu que a qualidade das relações define a qualidade de vida. Mas como forjar essa conexão são outros quinhentos. É preciso saber de si para oferecer ao outro. É preciso saber parar, render-se à dúvida e, às vezes, apenas fazer do seu próprio jeito — como diz a letra que o Gemini me ajudou a traduzir:

Pois o que é um homem, o que ele possui? Se não a si mesmo, então ele não tem nada. Para dizer as coisas que realmente sente, e não as palavras de quem se ajoelha. O histórico mostra que eu aguentei os golpes, e fiz do meu jeito. Sim, foi do meu jeito.” My Way 1968 – Frank Sinatra


Fabi Froes trocou o jornalismo tradicional pela revolução do YouTube, onde atua há mais de uma década entre parcerias e RP de crise. Autora de “Mediocridade: Crônicas de uma Mãe Millennial em Busca do Ordinário”, Fabi é mãe, corredora nas horas vagas e colecionadora de carimbos no passaporte. Entre um café e uma Coca Zero, busca o equilíbrio entre o caos do Vale do Silício e o prazer despretensioso de um projeto DIY.

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