O marketing profissional sempre existiu. Não é porque vivemos na era das redes que você precisa de um @

Crédito: cyano66/ iStock
O marketeiro João Pedro Motta fez um vídeo falando sobre a “obrigação”, que muitos profissionais pensam que têm, de abrir um perfil no Instagram. A gente já trouxe esse assunto por aqui em outras oportunidades, porque à medida que a forma como a gente usa as redes mudou, a gente sentiu a necessidade de mudar o nosso comportamento também – ainda que não seja uma consequência natural.
É difícil traçar o momento exato, mas principalmente para os profissionais que não dependem do presencial, criar um perfil digital foi a saída pra sobreviver na pandemia. Se o seu restaurante, café ou loja de doces fechou durante a pandemia, você podia fazer a divulgação online e entregar direto na casa do cliente. Se sua loja de roupas não podia mais receber o público, você postava as peças e mandava entregar. De repente, o que parecia uma limitação, pra alguns profissionais, se tornou uma oportunidade de mercado: pelo correio, eu posso mandar essa brusinha pra qualquer lugar do Brasil.
“Criar conteúdo te deu a oportunidade de falar com pessoas que levariam décadas pra te conhecer no mercado tradicional”, explica o João Motta.
Acontece que influência é consequência, não o ponto de partida. Ser influente é um mérito conquistado por meio de autoridade e credibilidade construídas ao longo do tempo. Para conquistar essa posição, é necessário fornecer conteúdo autêntico e consistente, demonstrando conhecimento e comprometimento com uma audiência específica. Escrevemos isso em um artigo no nosso portal, lá em 2023 – e segue atual.
Por isso, não basta pensar que criar o @ e jogar 1 post no feed + 3 stories (pra não perder a oportunidade de cutucar rs) vai resolver a vida e pavimentar uma carreira de, além da profissão escolhida, também de creator. Vamos pegar como exemplo os profissionais da psicologia. Quantos @s você não conhece que são “psi + o nome da pessoa”? O @, por si só, não se sustenta como um diferencial. O profissional vai precisar criar conteúdos que mostrem o porquê ele é o perfil que você deveria escolher como terapeuta. E isso significa que o conteúdo precisa ser autêntico e contar a história desse profissional, ao invés de simplesmente replicar carrosséis com termos técnicos e pensamentos de Freud que nós, meros mortais, mal conseguimos prestar atenção – quem dirá compreender. Quem dirá curtir. Quem dirá compartilhar. E aí todo o trabalho se foi em vão. Fora que fica todo mundo com a mesma carinha de perfil.
Se todo mundo é influenciador, quem influencia de verdade?
Essa pergunta foi feita no final do artigo que a gente escreveu em 2023, mas vale um desenvolvimento maior. Na época, dissemos que “a influência é a construção sólida de confiança e autenticidade, uma busca contínua para fornecer valor genuíno a uma comunidade fiel. Portanto, se todo mundo virou influenciador, a verdadeira diferença está na maneira como abordamos essa influência, mantendo nossa integridade e propósito.”
E esse pensamento dialoga diretamente com o que as maiores cabeças da Creator Economy pensam: no SXSW deste ano, ouvimos muito sobre como a gente não deve se deixar paralisar pelo medo da inteligência artificial, porque apesar de não conseguirmos vencê-la em volume de produção, ela não é capaz de criar um conteúdo com a autenticidade que só um ser humano tem. Nossa criatividade depende de emoções, do ócio, de aprender e acumular repertório, de conversar com outras pessoas, dividir experiências e de… errar. Às vezes é numa c@gada que a gente faz um vídeo que hita, ou cria um projeto de sucesso.
O mesmo vale pra profissionais que, além de estudarem pra caramba, se prepararem ao longo da vida com especializações e cursos, agora sentem que precisam ter um perfil no Instagram, senão vão morrer de fome. Se a questão fosse só ter um @, como um cartão de visitas, tava moleza. Só que abrir um perfil nas redes é tipo um Tamagotchi: você precisa alimentar, nutrir e cuidar pra que ele possa crescer. Tem que ser pelo menos uma plantinha que você rega uma vez por semana. Profissional, você precisa se preocupar se você tem tempo de produzir conteúdo, ou se tem verba pra pagar uma empresa que vá fazer isso pra você. Mas a primeira pergunta precisa ser: ter um perfil faz sentido dentro da minha estratégia profissional?
Até porque, se você é novo nesse negócio de Creator Economy, vale já saber que, sem estratégia, a gente não vai a lugar algum nesse mercado. Não que seja impossível entrar no susto, tá? Tem um montão de creator que cai de pára-quedas nessa vida de influência porque fez um vídeo despretensioso e hitou. Mas, se hitou, tinha autenticidade ali. Sozinha, essa qualidade não sustenta uma carreira digital. Precisa também ter estratégia.
Antes das redes sociais – e aí a gente não tá nem falando de antigamente anos 90, mas papo de uma década atrás. A tal trend 2026 x 2016. Até essa época, a esmagadora maioria dos profissionais trabalhava normalmente sem depender de um perfil numa rede social. Eles formavam sua base de clientes, o boca a boca era imprescindível e já usavam diferentes vertentes do marketing pra expandir a atenção sobre seus negócios. Não é uma novidade que surgiu com as redes, apesar de, no imaginário popular, parecer que sim.
Sequer o marketing de influência surgiu agora: há quem aponte que este segmento, totalmente transformado pelas redes sociais no pós-pandemia, surgiu no final do século XIX com a marca até então conhecida como Aunt Jemima. A empresa produzia alimentos para o café da manhã e usou a figura de Nancy Green, uma ex-escravizada, pra dar vida ao estereótipo das mulheres negras mais velhas e bastante maternais – aqui no Brasil, é mais ou menos a Tia Nastácia, do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Importante destacar que a marca mudou seu nome em 2020, pra não reproduzir estereótipos racistas.
Só que esse marketing de influência de séculos atrás é bem diferente do que a gente vê hoje na Creator Economy, falando sobre creators serem pontes entre a marca e novos públicos, porque o consumo de conteúdo não é mais mainstream via televisão, mas sim, fragmentado nos mais diferentes canais e formatos.
Isso tudo pra dizer que nenhum profissional PRECISA de um perfil nas redes pra ter sucesso no seu negócio. Aliás, a dica #01 é que é melhor não ter, do que ter de qualquer jeito. Do mesmo jeito que um perfil com milhares de seguidores e bem estruturado passa uma confiança no consumidor, um perfil mal cuidado denuncia a má organização. Fora que tem gente que deixa de focar em melhorar o próprio trabalho pra pensar em viralizar.
Moral da história: ter um perfil profissional não é garantia de sucesso na carreira, mas pode expandir seu mercado – principalmente se o que você oferece não se restringe a um lugar específico. Mas é sempre melhor fazer o “arroz com feijão” do que tentar cozinhar um prato super chique, mal sabendo pronunciar o nome.
Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!