
Semana passada fiz duas reuniões com mulheres de fora da empresa que eu trabalho. Duas mulheres bem fodas que fazem acontecer nesse mercado doido. Uma é a própria Rafa Lotto, síndica dos creators e dona da porra toda do Youpix. A outra é a Michele Chaluppe, a head de comunicação de nada mais, nada menos que a Livemode, que, para quem não sabe, está por trás da Cazé TV, a única detentora dos direitos para a transmissão de todos os jogos da Copa do Mundo de 2026. Foram papos bem distintos e eu sou muito fã de papos com mulheres. A quantidade de ideias que temos e a vontade de fazer as coisas acontecerem me fascinam. Nós somos seres interessantes porque somos, em geral, interessadas.
Mas a minha epifania sobre essas e outras mulheres no mercado atual veio de outra conversa que tive essa semana. Fui convidada para um evento para falar com outros profissionais do mercado de comunicação e, quando comecei a explicar sobre o que eu gostaria de falar, ressaltei sobre a relevância que teve para minha trajetória profissional ter tido uma chefe em 2015 que servisse de representatividade para mim. Eu, durante muito tempo, não fui a profissional padrão e, quando olhava para meus superiores, além da maioria esmagadora dos cargos de liderança serem ocupados por humanos providos de cromossomo Y, as poucas mulheres não se pareciam comigo. Isso que sou branca, hetero, cis, padrão. Mas existia um padrão dentro da liderança feminina, principalmente dentro do mundo corporativo há 16 anos, quando me enveredei por aqui, que eu não me reconhecia. Não estou falando só da idade, mas do vestuário e comportamento.
O meu modus operandi é extremamente informal. Quando fiz 14 anos e entrei na adolescência, as minhas amigas começaram a usar salto alto. Eu nunca consegui usar esse instrumento de tortura. Apesar de não haver indícios sobre quem o criou, sabe-se que ele foi amplamente utilizado a partir do século 17 na corte do rei Luís XIV (1643-1715), da França, que abusava do luxo, das perucas e dos sapatos de salto. Originalmente o salto era peça exclusiva do vestuário masculino e apenas na corte do próximo Luís, o XV, passou a ser utilizado por mulheres. Eu sempre odiei a dor que esse calçado provocava nos meus pés; quando me via forçada a usá-lo, sempre ficava descalça em algum momento e cortei os pés em mais de uma festa. Eu adotei os tênis para a vida social quando esses eram só para ir à academia ou parte do uniforme da escola. Em 1998 era um Keds surrado e em 2001 finalmente começaram a pipocar as primeiras rasteirinhas, moda que abracei com afinco antes mesmo de ser moda; e passei pelas sapatilhas definidas como cringe pelos Gen Zers, sem nunca abandonar infindáveis variações de tênis que a moda reconhecesse como sendo mais aceitáveis para a época vivida. Na minha formatura de faculdade fui de rasteira e passei grande parte da minha vida acadêmica calçando um arco-íris de inúmeros pares de Havaianas. Então eu mesma nunca subi no salto, mas o mundo feminino ao meu redor estava em cima dele e eu lá embaixo.
Quando entrei no mercado de trabalho em 2004, as mulheres não só estavam em cima dos saltos – claro, com exceções, mas todas elas em níveis mais baixos como eu -, como também se vestiam de maneira executiva, ou seja, roupa social. Eu até hoje tenho minha “fantasia” para alguns eventos, que é uma blusa social de seda branca e um sapato preto de salto médio. Há alguns anos que não sinto a necessidade de usar nenhum dos dois, constatação que só me ocorreu agora escrevendo esse texto. Mas, pela força do hábito, eu mantenho os dois no armário porque “vai que”.
Quando me mudei para São Paulo em 2010, além dos saltos e das roupas sociais, adicionou-se a maquiagem. No Rio a gente usa pouca maquiagem, porque ela derrete e você fica parecendo um guaxinim quando chega na esquina de casa. Ainda mais quando eu era jovem e usuária de transporte público sem ar-condicionado. Uma das minhas melhores amigas, atualmente morando nos EUA e diretora de comunicação global de uma das maiores empresas de tecnologia no mundo, já morava aqui e trabalhava numa agência de comunicação; ela me disse, quando cheguei, que era imprescindível usar pelo menos um batom. Eu acho que nunca usei um batom para trabalhar em toda minha vida, nem em dia de evento quando estava de fantasia. E foi quando a mulher me chamou para palestrar no evento em que eu poderia inspirar outras profissionais, que eu me dei conta que gostaria de falar sobre como se manter autêntica, seja lá o que for autenticidade para você.
Minha chefe em 2015 foi a Maria Fernanda Cerávolo, que, além de ser uma pessoa interessantíssima, com um repertório de vida muito específico, não estava em nenhuma das caixinhas corporativas. Cabelos curtos, presos algumas vezes por grampos simples – aqueles que vêm em caixinhas vendidas na farmácia -, jaquetas de couro, rasteiras e tênis formando uma imagem numa pegada bem rock n’ roll. Sem batom ou qualquer maquiagem e, acima de tudo, nunca a vi de salto alto. Ácida, direta, zero micromanager, porreta, termo que ela mesma costuma usar para definir outras mulheres fodas. Um dos maiores ensinamentos que ela me deu foi sobre nunca usar “Infelizmente” nos meus e-mails. Eu começava vários com esse advérbio de modo, ou com um “me desculpa”, até que um dia ela me disse: “você está fazendo seu trabalho, não peça desculpas ou se lamente por isso”. Ter tido ela como gerente numa fase em que eu mesma ainda estava me definindo como profissional serviu como um grande reforço positivo de que existia, sim, espaço para mulheres sem salto dentro da metáfora que isso traz para esse recorte.
Somo a essa equação o fato da revolução que chegou como uma avalanche, que começou no mercado em que estou inserida desde 2012, mas também veio permear a sociedade e sedimentar novas construções comportamentais. As plataformas digitais permitiram que a representatividade fosse para outro patamar. O estilo que antes era ditado pelas revistas femininas, um punhado de publicações relevantes, mas que vinham de um lugar de pouca conexão com a maioria das mulheres que as liam, começou a vir de um mar pulverizado de criadores de conteúdo. E ainda que, no início, as influenciadoras de beauty and fashionseguissem o legado de um padrão, a autenticidade que faz um criador se destacar foi tomando outros rumos. Aqui no Brasil, acho que talvez a maior referência seja a Lela Brandão que é, como ela mesma se define, uma “grande gostosa” e uma grande pregadora da moda confortável, tendo criado sua própria marca com essa proposta. Também tivemos acesso a outras referências que não são daqui, mas que representam bem um estilo que conversa mais com nossa personalidade. Eu nunca fui uma pessoa colorida, então a moda maravilhosa e estampada brasileira muitas vezes não conversa comigo; achei em influenciadoras “40+” da França grandes inspirações para montar um guarda-roupa que servisse criatividade com peças majoritariamente brancas, azul-marinho, pretas e verde-escuro, muito antes de existirem guias de “armário cápsula”. Aliás, comprei um desses recentemente, influenciada por outra criadora, e, dentre as 17 peças sugeridas, existem três calçados: dois deles são sem salto e o terceiro tem um salto confortável.
As peças que foram adicionadas por essa economia criativa de tantas camadas foram se encaixando nesse emaranhado de mudanças sutis que desembocaram na minha realização de que, nesses 14 anos, sem eu me dar conta até essa conversa para o evento, eu não tinha reparado que muitas de nós se sentiram à vontade para descer de vez do salto. As duas mulheres porretas das reuniões não estavam de salto; as mulheres porretas que trabalham diretamente nas equipes do YouTube Brasil e minhas influenciadoras francesas praticamente não usam salto. Tive uma colega há alguns anos que foi trabalhar de tênis e saia e me disse: “Olha, eu hoje tô de Fabi”. Fico feliz que eu não seja mais a única referência; fico feliz que quem quer usar qualquer sapato que apeteça se sinta confortável para fazê-lo sem parecer outra pessoa, apesar de me sentir lisonjeada por tê-la inspirado.
Uma outra colega com quem trabalhei quando atendia parceiros do YouTube, e que trabalhou em duas Networks de criadores quando tudo ainda era mato, sempre chamou atenção pelo modo de se vestir fora da caixinha e pela mudança constante das cores do cabelo. Atualmente ela está como executiva do TikTok e fez um post no LinkedIn comemorando um ano de casa que ela finalizou com: “Aliás… aproveitando, deixo um pequeno piece of advice aos profissionais da rede, algo que amaria ter ouvido 12 anos atrás: Sejam vocês mesmos, sempre! Foquem no seu. Não se escondam e lutem pelo respeito à sua autenticidade. Isso só reforça o seu brilho.”
O mundo aqui embaixo é igualzinho ao mundo em cima do salto, ou insira aqui qualquer metáfora que nos distancie do que é o padrão dentro do meio ao qual está inserida. Ou seja, os desafios profissionais são sempre complexos e cheios de nuances que exigem resiliência, jogo de cintura, postura e profissionalismo. Exatamente por isso é mais fácil encará-los confortáveis não só nos pés, mas com quem de fato somos.
Por: Fabi Froes
Trocou o jornalismo tradicional pela revolução do YouTube, onde atua há mais de uma década entre parcerias e RP de crise. Autora de “Mediocridade: Crônicas de uma Mãe Millennial em Busca do Ordinário”, Fabi é mãe, corredora nas horas vagas e colecionadora de carimbos no passaporte. Entre um café e uma Coca Zero, busca o equilíbrio entre o caos do Vale do Silício e o prazer despretensioso de um projeto DIY.
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