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Bad Bunny e os outros 10% de consumo dos brasileiros

Não sei se Bad Bunny vai estar na lista de mais ouvidos do Brasil esse ano. Mas ele com certeza furou a bolha de quem não sabia quem ele era fazendo o que ele faz de melhor: as pessoas sentirem muito. Sentirem tudo. Por Fabi Froes | Head of Communications & Public Affairs - YouTube

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Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Até 2022 eu mal sabia quem era “Bad Bunny“, foi quando fiz uma viagem a trabalho para o Canadá onde fizemos um passeio de barco com todos os colegas da América Latina e colocaram para tocar “Titi me preguntó”, recém lançada na época. A reação de um amigo mexicano e uma amiga argentina me fez prestar atenção não na música em si, mas ao que ela provocava nos meus colegas. É que até esse dia, Benito para mim era o cara que usava dentes de ouro, cabelos coloridos e depois teve uma evolução de estilo ainda mantendo sempre a maneira extravagante em tapetes vermelhos. Sabia que ele tinha namorado uma Kardashian, o que para mim contava mais contra que a favor dele, e que cantava reggaeton, mas mesmo na fase que ouvi um pouco do ritmo ali por 2015 e 2016, ele ainda não tinha estourado e provavelmente ainda estava em Porto Rico trabalhando como empacotador de supermercado.

 

Sou uma Xennial, bem na virada dos Millennials, o que não me coloca exatamente como a audiência que ele tinha até pouco tempo, até porque o Coelho Malvado demorou a cruzar a fronteira brasileira. Ele vem nadando de braçada na América Latina e em grande parte do mundo ocidental, tendo sido coroado o artista mais ouvido globalmente no Spotify pela quarta vez em 2025, com 19,8 bilhões de streams, consolidando seu domínio após os títulos de 2020, 2021 e 2022. Eu trabalho no YouTube há 13 anos, primeiro como gerente de parcerias e há 6 anos como Relações Públicas e todo fim de ano divulgamos as listas dos artistas e músicas mais tocadas e Bad Bunny nunca deu o ar de sua graça nas listas brasileiras, nem no ano passado com o álbum “Debí Tirar más fotos”, que já foi mais que divulgado, lhe rendeu o Grammy de melhor álbum do ano o consagrando como o primeiro artista latino a alcançar tal façanha. Isso sem entrar no mérito do que foi seu show do intervalo  do Super Bowl, apelidado carinhosamente de “Benito Bowl”. 

 

O Brasil consome o Brasil, quase 90% do que os brasileiros assistem dentro do YouTube é conteúdo local. (fonte: dados internos do YouTube) As listas de músicas e artistas são sempre daqui e nos últimos anos variam entre sertanejo e pagode, sendo em 2025 o grande destaque o grupo “Menos é Mais” e às vezes temos a figuração de um artista internacional. No ano passado, foi o caso de  Die With A Smile de Lady Gaga e Bruno Mars em 9o lugar. O que explica porque Bad Bunny com todo seu carisma e alcance global não tenha conseguido furar a bolha das mais tocadas no nosso país. A gente é da gente e a gente é gente pra caramba com nossa população de mais de 213 milhões de humanos.

 

Mas desde 2022 Benito tem se tornado mais presente no meu radar, em parte obviamente pela relevância que ele alcançou nesses quase 4 anos, mas também porque eu fiquei muito mais atenta ao que ele era capaz de provocar. E na última sexta-feira eu fui no seu primeiro show no Brasil e senti junto com as cerca de 45 mil pessoas que estavam ali uma catarse catalisada pela força humana de sentir. Eu não sei cantar todas as músicas, na verdade pouco entendo o que o moço fala ainda que meu espanhol seja considerado fluente, mas o que ele desperta faz as pessoas sentirem que são parte de algo maior que elas. O cara fala de amores, não necessariamente o amor romântico, ele fala de união, de latinidade, ele faz os brasileiros se lembrarem que apesar da barreira linguística são latinos sim. Numa época de ódio, de fúria, de raiva, o cara prega com sua música, suas escolhas, seu orgulho a mesma linha de “combate” que Gandhi e Martin Luther King, a de um pacifista: A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”. 

 

E ele é um emocionado, ele se deixa sentir, ele se deixa absorver. Quando saiu no palco e deu de cara com a audiência do Brasil, que a gente sabe que é diferenciada, até porque também somos aqueles que se deixam sentir, e assim como quando ganhou o Grammy, ele parou e ficou uns belos segundos absorvendo aquilo ali. Debutar aqui não deve ser algo que passa batido a um artista desse porte, quem não lembra do Freddie Mercury diante de mais de 250 mil pessoas no Rock in Rio em 1985 com a performance icônica de “Love of My Life”. Se não lembra, ou nem sequer sabe do que estou falando, dá um Google aí para entender o que foi o Queen fazendo toda essa galera cantar em uníssono numa língua que nem latina é. 

 

O menino de Porto Rico sentiu cada segundo das suas mais de duas horas de show e ele fez a gente sentir tudo com ele nos lembrando mais de uma vez que naquele momento nós éramos uma coisa só, como ele fez questão de lembrar no Super Bowl: “Juntos somos a América”, juntos somos maiores, somos mais fortes, somos incrivelmente latinos e maravilhosos. O ponto alto para mim foi a hora que ele disse: é minha primeira vez no Brasil então vou tentar algo aqui – numa livre tradução feita por mim – e ele testa a galera. E a gente entrega na força dos 90 mil pulmões ali presentes os versos da melhor maneira que nossa barreira linguística nos permitia. 

 

O show é feito dessa sensação de pertencimento, ele ressalta que somos os únicos responsáveis por fazer desse momento um “baile inolvidable”. O espetáculo é dividido em 3 grandes momentos, com detalhes da cidade onde está, uma música exclusiva só para aquela audiência e a participação de um fã que ele escolhe na hora. O início parece um pouco uma fenda no tempo para uma América Latina meio Buena Vista Social Club, com o tom do último álbum, menos reggaetown que os anteriores. A segunda parte ele vai para a famosa Casita vestido de camisa e shortinho do Brasil no primeiro dia e com a jaqueta do Pelé e bermuda jeans com havaianas no segundo e faz uma grande festa que me lembrou as festas que cresci participando tendo nascido e vivido a infância no subúrbio do Rio de Janeiro. O final ele volta para o palco principal e entrega os últimos hits, inclusive a famosa “DtMF”. Ele exalta os artistas que o acompanham, ele exalta as participações especiais e cada um que está ali. 

 

Não sei se Bad Bunny vai estar na lista de mais ouvidos do Brasil esse ano. Depois de mais de uma década sentada na primeira fileira dessa revolução dos meios de comunicação e democratização de produção e consumo de conteúdo, ainda me sinto completamente incapaz de fazer previsões do que as pessoas vão escolher consumir. Mas ele com certeza furou a bolha de quem não sabia quem ele era fazendo o que ele faz de melhor: as pessoas sentirem muito. Sentirem tudo.

 Fabi Froes trocou o jornalismo tradicional pela revolução do YouTube, onde atua há mais de uma década entre parcerias e RP de crise. Autora de “Mediocridade: Crônicas de uma Mãe Millennial em Busca do Ordinário”, Fabi é mãe, corredora nas horas vagas e colecionadora de carimbos no passaporte. Entre um café e uma Coca Zero, busca o equilíbrio entre o caos do Vale do Silício e o prazer despretensioso de um projeto DIY.

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