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Fim do mundo vai ser por IA, El Niño ou bomba atômica?

Diante do cenário alarmista, a YOUPIX vai atrás de mais razão e menos emoção

Imagem: Intercept Brasil

“Acredito que, se não diminuirmos o ritmo atual de progresso, há 
uma grande chance de todos morrermos em um futuro próximo.”

Esse alerta foi feito por Jacob Coxon, pesquisador que pediu demissão da Anthropic, empresa criadora do Claude. Em entrevista à BBC, ele conta que passou os últimos três anos trabalhando com pré-treinamento de modelos de inteligência artificial — primeiro na OpenAI, depois na Anthropic —, mas pediu demissão recentemente e viralizou no X.

Em seguida, o ex-chefe de Coxon, Dario Amodei, diretor da Anthropic, pediu que o ritmo de desenvolvimento de modelos de inteligência artificial seja desacelerado e monitorado de perto.

O que tá por trás do desespero

Assim como a gente viveu uma corrida pelo espaço no século passado, com EUA e URSS disputando quem tinha as melhores tecnologias pra explorar o que tá fora do planeta Terra; e depois sofremos com o medo da Guerra Fria se tornar quente, e o mundo inteiro ser destruído por bombas atômicas; chegou a vez da IA. 

“Acreditamos que estamos em uma corrida pela IA e queremos que os EUA vençam essa corrida”, disse David Sacks, responsável pela política de criptomoedas no governo americano, em entrevista a jornalistas em julho de 2025, publicou a BBC.

Existe uma corrida entre as Big Techs ocidentais com a China, pra ver quem desenvolve mais e melhor a inteligência artificial, sendo fundamental fazer isso o mais rápido possível – antes que o outro lado chegue em determinado ponto. Que ponto da tecnologia? Só eles sabem.

Coxon reconhece que é preciso desacelerar essa corrida pela IA, contanto que esse movimento seja coordenado com a China, pra evitar o acirramento dessa disputa. Esse contexto é importante, porque além da questão da tecnologia, também estamos no meio de um conflito geopolítico.

Primeiro, o cenário do IApocalipse

Evan Hubinger, cientista da Anthropic, chamou a atenção ao afirmar que há mais de 10% de chance de a IA “matar todos os humanos” na próxima década. 

Essa declaração do Evan, junto com a do Jacob, provocou um belo barulho nas redes sociais, porque vivemos em um momento de muito medo e pouca informação sobre até onde a inteligência artificial pode chegar. E não pense que o momento é de algumas semanas pra cá, viu? Nos anos 1950 o cientista Alan Turing, o “pai da computação”, já falava sobre o risco de “máquinas inteligentes assumirem o controle”, caso se tornassem possíveis.

O ponto central é que, depois de atingir determinado nível, 
a IA possa se aprimorar sem participação humana.

Em 2026, não só elas já estão em funcionamento, como fazem parte das nossas vidas, ainda que operem em sistemas que a gente mal saiba como funcionam. Na corrida pela IA “superinteligente”, o risco é da tecnologia se tornar superior à inteligência humana, bem além da ajuda na hora de escrever um email ou pra geração de vídeos.

Um dos cenários IApocalípticos (esse trocadilho foi pensado sem ajuda da IA), descrito por Dario Amodei, é o de “um enxame de bots agindo como um supercomputador que poderia dominar a internet.” Logo, não dá pra gente cravar o que de fato aconteceria nesse colapso provocado pela IA, tampouco em quanto tempo, mas dá pra imaginar o estrago quando a gente olha pro tanto da nossa vida que é organizada via internet – principalmente o nosso dinheiro, já pensou nisso?

Para Joe Tidy, correspondente de tecnologia da BBC, outra hipótese é a de que confiaremos tanto na IA que ela poderia manipular governos, causando guerras e conflitos, mas o grande entrave é o de que os humanos poderiam “ficar no caminho” do desenvolvimento da IA. Sendo assim:

“A IA poderia desenvolver um patógeno único que só mata a vida orgânica,
ou só os seres humanos. Sei que parece que eu tô maluco dizendo isso,
mas são esses cenários que preocupam de verdade as pessoas”.

Agora, o cenário real

Assim como a gente bate na tecla de que a internet já não é terra sem lei, mas precisa de cada vez mais regulação pra gente evitar a exposição de menores, a desinformação e a manipulação por meio das mídias, a IA também é um terreno que precisa de mais atenção.

Geoffrey Hinton, Prêmio Nobel e pioneiro da IA, explica que a saída é encontrar como desenvolver a IA com a segurança de que ela não chegará a esse ponto de dominação da inteligência humana:

“A gente nunca viveu algo parecido antes, de criarmos seres que podem ser mais inteligentes que nós. Não sabemos o que vai acontecer, então, obviamente, devemos ser cautelosos. Ninguém sabe como calcular o risco [de a IA exterminar a humanidade], mas um risco de 10% não me parece irreal.”

Para a Travahacker, cofundadora e Diretora Institucional do Código Não Binário, e eleita pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes sobre inteligência artificial, a grande disputa em jogo é sobre poder, não sobre o domínio das máquinas:

“A gente precisa conversar sobre isso de maneira séria, não simplesmente tratando como hype ou estratégia pra inflar o valor dessas empresas. Os modelos de IA estão ficando cada vez mais capazes, então existem questões reais sobre esse controle. 

Mas, quando a gente começa a se perguntar se a humanidade vai perder esse controle sobre as IAs, parece que existem dois lados: a humanidade e a tecnologia. Só que essas tecnologias são desenvolvidas dentro de uma sociedade específica e para interesses específicos. Talvez o sistema que esteja saindo do controle não é o da IA, mas o capitalismo e essa corrida pela IA.”

Ela argumenta que, dentro dessa lógica de corrida e da disputa geopolítica entre o ocidente capitalista e o desenvolvimento estatal chinês da IA, as máquinas não precisam se rebelar contra a humanidade pra serem catastróficas. Elas podem apenas funcionar perfeitamente dentro de uma sociedade que já é catastrófica. 

Então… bora surtar ou curtir o fim de semana?

Se a gente for se alarmar por cada risco que a humanidade corre, a gente realmente não vive mais. Gostaria apenas de lembrar que, muito antes do risco de extermínio por IA, o aquecimento global já tá ardendo a nossa cabeça – literalmente. A IA que entre nessa fila. Inclusive, estamos diante do Super El Niño, que pode ser o mais intenso já registrado na história. 

Aliás, pra quem é fã de se desesperar por FOMO e hype, dá uma olhada nesse vídeo da BBC Brasil com o título “É assim que a Inteligência Artificial pode destruir a humanidade?” que é de UM ANO ATRÁS. UM ANO!!! Olha quantos meses você já viveu sem nem ligar pra esse assunto…

Por fim, independentemente de como a gente vai fazer isso, já deu pra sacar que a única solução possível e definitiva pra esse surto de IA é a regulamentação. Todas as empresas e Estados que desenvolvem IA precisam frear essa corrida, que é a única responsável por todo o medo de perdermos o controle sobre uma tecnologia que nós mesmos estamos criando.

A gente adora um cenário cyberpunk, mas essa treta diz muito mais sobre geopolítica do que sobre tecnologia. Ainda.


Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!

Gabriel Paes é jornalista e creator. Cobre a inseparável mistura entre esporte e política n’O Contra-Ataque, de vez em nunca dá uns pitacos no podcast Fervedouro e assina a newsletter semanal da YOUPIX, onde fala sobre cultura, sociedade e Creator Economy.

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