
Ilustração por Juan Bauty
Nesta semana o rapper L7nnon postou um vídeo com um recado direto para os homens que o seguem: “você que fica na roda de amiguinho onde fulaninho fala que bate na mulher, não tem como ouvir esse tipo de coisa e achar graça, achar maneiro. O número de feminicídios tá aumentando irmão, se isso não te toca de alguma forma, você é tão pior quanto quem tá cometendo esse crime”.
Um cara que é artista e normalmente usa suas redes sociais pra divulgar seu trampo na música e na atuação, influenciou de verdade nesse vídeo que, de longe, foi o que mais engajou nos últimos tempos no feed dele.
E um dos mantras da YOUPIX é: influência não é causa, mas consequência. Por isso mesmo é importante ver caras como o L7, que têm uma legião de fãs mega engajados e atuam num meio machista como o rap, falando sobre feminicídio e defesa das mulheres. E mais: falando sobre como outros caras podem mudar suas amizades pra não contribuir com esse tipo de violência.
Acontece que, seja em conteúdos de (péssimo) humor ou falando sério, a internet está amplificando o discurso de ódio. Você talvez tenha passado por algum vídeo da trend “ela disse não”, em que o cara simula um pedido de casamento pra uma mulher e, quando recebe um “não”, violenta ela de alguma forma: com um golpe de jiu-jitsu, com socos e chutes, dando um tiro e até facadas.
Segundo levantamento do portal g1, os vídeos da trend acumulam mais de 175 mil interações no TikTok em um contexto de alta nos números de feminicídio. Desde a criação da Lei do Feminicídio, em 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas em razão do gênero.
Um estudo da FGV apontou que, apenas no Telegram, pelo menos 200 mil usuários estão em grupos que estimulam a violência contra as mulheres – comunidades que cresceram 600 vezes da pandemia pra cá. Além da plataforma de mensagens, canas no YouTube que propagam ódio contra mulheres acumulam 23 milhões de inscritos. Um aumento de 18% em 2 anos, como explica uma matéria do Jornal Nacional.
Como combater essa lógica machista e de ódio?
O primeiro passo é criar uma legislação que seja efetiva contra discursos misóginos. Afinal, internet não pode ser terra sem lei e, apesar da trend “ela disse não” não ferir fisicamente nenhuma mulher, ela estimula a violência dos homens que não sabem lidar com a rejeição.
O historiador Joel Paviotti, do canal Iconografia da História, contou que passou meses investigando movimentos misóginos na internet e concluiu que os conteúdos vão “pilhando os jovens em conta-gotas”. Ou seja: pegam uma frustração comum a vários homens (como o não pra um beijo na balada, ou pedido de namoro) e generalizam isso para o gênero da mulher.
Na análise do Joel, uma hora o homem que consome esse tipo de conteúdo assume a ideia de que a mulher vai sacaneá-lo em algum momento, então ele se antecipa por meio do ódio e da violência a partir de qualquer sinal, desde uma tatuagem de borboleta a uma foto com decote.
O que começa com um cara consumindo um conteúdo idiota, pode escalonar rápido pra um criminoso de ódio.
É preciso engajar com influência de verdade
Essa coluna não tem a pretensão de ensinar ferramentas de engajamento para combater o discurso de violência contra a mulher nas redes, mas sim, mostrar como algumas pessoas podem fazer a diferença quando influenciam as ideias certas, como é o caso do L7nnon.
Assim como ele fez, quantos outros homens em meios machistas como o rap e o futebol não poderiam tomar atitude semelhante? Imagina quantas rodas de homens não poderiam ir se transformando, ainda que aos poucos, pra rejeitar “brincadeiras” que incitam violência?
De vez em sempre, a gente que também é usuário de rede social precisa se lembrar de que a nossa atenção e engajamento é uma moeda poderosíssima. Precisamos investir tudo o que temos em amplificar os discursos que combatem o ódio. É o mínimo que podemos fazer diante da impotência que é agir na internet.
📌 O que dizem as redes sociais citadas na matéria do Jornal Nacional:
O TikTok afirmou que retirou os conteúdos do ar assim que recebeu as primeiras denúncias e que a prioridade é manter a comunidade segura e protegida.
O YouTube disse que discursos de ódio, assédio e cyberbullying não são permitidos na plataforma e que aplica com rigor políticas de conteúdo.
O Telegram não respondeu aos questionamentos do Jornal Nacional.