
Há alguns dias, eu estava no trabalho e uma colega me disse: “Nossa, você está vestida igual ao Fulano”. Eu olhei para a minha roupa; venho usando variações das mesmas peças — calça jeans solta, uma blusa básica mais larga e tênis — desde 1995. Só consegui responder que o máximo que poderia ser dito é que Fulano, que nasceu em 2003, se veste igual a mim.
Eu já vinha reparando que a nova geração me remete demais à minha adolescência e ao início da minha vida adulta. Inclusive, o mesmo colega jovem a quem me associaram “fashionisticamente” me lembra absurdamente um grande amigo de quando eu tinha a mesma idade que ele agora, em parte porque eles se vestem iguaizinhos. A moda é, afinal, a conexão mais óbvia entre dois tempos separados.
Recentemente, assisti a um seriado do Prime Video, The Runarounds (Jonas Pate, 2025), que se passa nos dias atuais, mas poderia ter sido filmado em formato documental sobre os meus últimos anos de colégio. A estética, o estilo de música e, claro, a temática adolescente que, parafraseando Herbert Vianna, segue com variações do mesmo tema sem sair do tom. Outro exemplo é a recente obsessão com a história de John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette, revisitada no seriado American Love Story (Connor Hines, 2026), mostrando essa atração pelas idiossincrasias dessa década. Talvez por isso eu ache relativamente fácil ter empatia e me conectar com os Gen Zers. Eles estão vivendo uma versão da realidade que eu vivi, só que na velocidade 2x, bombardeados por uma avalanche de informação cinquenta vezes maior e ainda catalisados pela superexposição das mídias sociais. TRA-QUI-LO.
Mas é claro que existe um movimento de resgate dos anos 90, e ele vai muito além de uma simples nostalgia passageira. O que estamos vendo é um fenômeno cíclico — a famosa “regra dos 20-30 anos” — em que a geração que cresceu naquela época agora ocupa cargos de decisão no mercado, enquanto as gerações mais novas descobrem a estética pré-algoritmo.
E os anos 90 são cativantes. Música, filmes, moda, arte, histórias de amor… os anos 90 foram a última década antes de a internet mudar tudo. A Vogue descreve diretamente o início dos anos 90 como uma reação aos excessos dos anos 80: o minimalismo de Calvin Klein, Jil Sander, Helmut Lang, o grunge e o anti-glamour tornaram-se a nova norma visual. A Britannica associa o grunge a uma estética e subcultura distintas, enquanto o Smithsonian, maior complexo de museus e centro de pesquisa do mundo, observa que o início dos anos 90 gravitou em direção à androgenia e a conversas sobre identidade, gênero e sexualidade.
Os anos 90 acreditavam no estilo como expressão de personalidade, na música como uma forma de confissão, na arte como espelho do caos interno e no amor como algo raro e profundo. Acreditavam que identidade não é algo que se ganha, é algo que se constrói usando peças de referências escolhidas. Você tinha menos opções e menos referências, mas a escassez entregava mais criatividade humana sobre como montar a identidade da sua personalidade.
A música parecia mais honesta, sombria e pessoal. As canções reverberam como diários de uma geração: REM, Radiohead, Oasis, Nirvana e Pearl Jam. O cinema se tornou filosófico; os filmes faziam perguntas como: o que é a realidade? Quem somos? Por que nos sentimos perdidos? Matrix (Irmãs Wachowski, 1999) e Clube da Luta (David Fincher, 1999) se tornaram manifestos. Algumas citações viraram lendas:
- “Bem-vindo ao deserto do real.” (Citada em Matrix, esta frase é uma referência direta ao filósofo Jean Baudrillard, mantendo o tom seco e impactante).
- “Você toma a pílula vermelha… e eu te mostro quão funda é a toca do coelho.” (Referência clássica a Alice no País das Maravilhas).
- “As coisas que você possui acabam possuindo você.” (Uma das frases mais famosas sobre o consumismo daquela década).
- “Só depois que perdemos tudo é que estamos livres para fazer qualquer coisa.” (A epítome do tom niilista e libertador que marca o clímax de Clube da Luta).
Infelizmente elas também foram também deturpadas por grupos que usam, inclusive, o termo “redpill” para formar uma rede de disseminadores de ódio e ideias misóginas. Mas basta assistir aos dois filmes com o mínimo de repertório para sacar que a intenção era questionar o consumo e o capitalismo que se erguia até ali, amassando pessoas que foram criadas para achar que eram especiais. E o interessante é que ambos os filmes, ainda que muito diversos em gênero e entrega, dizem que as soluções propostas à realidade têm custos altíssimos socialmente e individualmente.
Na última década antes da internet, as pessoas se conheciam offline. Isso provia menos oferta do que o “cardápio humano” dos aplicativos, mas obrigava as conexões a serem mais forjadas, pois requeriam o esforço de se virar com o que tínhamos. As fotografias eram em filme, a música era ouvida em discos, a cultura era formada aos poucos. Não era perfeito, mas era real. E talvez seja isso que falta hoje em dia: como nos arrebatar quando queremos tanto caber na perfeição?
Tanta coisa é “melhorada” artificialmente. Meus últimos textos para o Youpix eu coloquei numa ferramenta de IA para checar gramática, mas num primeiro prompt mal elaborado da minha parte, eu pedi para “melhorar o texto” e quando fui ler virou outra coisa. Claro, a ideia macro estava ali, as bases de cada parágrafo também, posso dizer que estava linguisticamente mais preciso e em muitas categorias “melhor”, mas não tinha eu. E o que de mais interessante podemos oferecer ao mundo do que nós mesmos, autenticamente? Longe de mim ver o que temos de facilidade como apenas vilanismo simplista sobre as ferramentas de inteligência artificial, existe sim um mundo de possibilidades e propulsões que as ferramentas de IA proporcionam. Inclusive acho elas sensacionais para ajudar com pesquisa, com desenvolvimento de conteúdo audiovisual, no suporte a análises. A democracia de produção e consumo que temos é muito admirável. Mas, como diria o tio do Homem-Aranha: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.
No fim o que fica é o arrebatamento que só um outro humano pode nos trazer e que parece estar nesse elo perdido que tem promovido essa conexão com a última geração antes do que vivemos. Um colega de trabalho mais contemporâneo à minha década de nascimento recentemente se demitiu. Uma pessoa inteligente, super bem sucedida, que tinha carreira sólida dentro de uma empresa reconhecidamente boa. Ele me disse numa calma que só quem viveu os anos pré-anos 90, que não fazia mais sentido ficar ou trocar seis por meia dúzia. Ele gostava mesmo do escopo do trabalho, gostava das pessoas e era feliz ali. Mas nos últimos anos fez um bom pé de meia e num mundo de excessos de coisas que possuímos e acabam nos possuindo, ele escolheu durante muito tempo viver com bem menos que ganhava fazendo um pé de meia para poder tomar essa decisão de largar tudo, escrever e curtir o resto da infância da segunda filha, ainda com 10 anos. Talvez tenha sido a conversa humana mais interessante que tive nos últimos tempos. Duas pessoas sabendo o privilégio do que vivem e mais ainda o privilégio de poder escolher outra coisa.
Eu, de verdade, não tenho receio da IA. Talvez por ser parte dessa “fenda temporal” com características de fóssil vivo, eu consiga me distanciar do antes e do agora e ter o otimismo de achar que dá para ter o melhor dos dois mundos.
Por: Fabi Froes
Trocou o jornalismo tradicional pela revolução do YouTube, onde atua há mais de uma década entre parcerias e RP de crise. Autora de “Mediocridade: Crônicas de uma Mãe Millennial em Busca do Ordinário”, Fabi é mãe, corredora nas horas vagas e colecionadora de carimbos no passaporte. Entre um café e uma Coca Zero, busca o equilíbrio entre o caos do Vale do Silício e o prazer despretensioso de um projeto DIY.