A pergunta não é “se” a IA vai aprender a fazer tudo o que fazemos, mas “quando”

Fui repórter nos últimos dois YOUPIX Summit e, no pior estilo Pânico na TV, enchi o saco dos craques Paulo Aguiar e Ana Freitas perguntando, mais de uma vez, se a IA vai roubar nossos empregos. Em 2024, foi engraçadinho até. Em 2025, o papo já foi mais sério. Acho que a pergunta esse ano precisa mudar pra “quando” isso deve acontecer.
Mas calma que esse texto não é um alerta do fim do mundo, muito pelo contrário: é pra abraçar você que, assim como eu, não é tão ligado em tecnologia e realmente tá no mito da caverna quando o assunto é inteligência artificial.
O podcast É Nóia Minha convidou o roteirista e especialista em tecnologia, Alvaro Leme, e a autora e roteirista Rosana Hermann pra bater um papo bem geral sobre IA – justamente pra nós, meros mortais, que tememos o avanço da tecnologia, enquanto nem nos damos conta que aceitamos de bom grado a entrada dela em todos os aspectos da nossa vida. Nessa conversa leve e muito informativa, uma frase do Alvaro se destacou na minha cabeça:
“Meu ponto de vista é de que, em até 100 anos, não vai ter nada que uma IA não possa fazer, ou um robô não possa automatizar.”
Estamos entrando na Era da Eletricidade.
O Alvaro explica que a inteligência artificial, pra nós hoje, equivale ao surgimento da energia elétrica em larga escala no fim do século XIX. Ou seja, nesse momento a gente é rodeado de incertezas porque a gente não sabe mesmo até onde a IA é capaz de chegar – nós, mortais, apenas imaginamos o que pode acontecer. Vai ficar aí de bobo segurando uma vela?
Dito isso, a primeira incerteza é quanto ao nosso ganha-pão: vamos perder nossos empregos pra IA? Do mesmo jeito que muitos mercados já operam caixas de autoatendimento e funções como a de transcrição estão fazendo cada vez menos sentido pra ser um trabalho humano, é provável que muitos trabalhos façam mais sentido pra uma tecnologia. Não porque a gente não presta, mas sim, porque a gente pode fazer coisa melhor com o tempo que sobrar.
“Precisou a gente aprender que não pode pôr o dedo na tomada senão leva choque. Com a IA, a gente tá nesse mesmo momento porque as duas são o que a gente chama de “tecnologia de propósito geral”. Não resolve só um problema, atravessa várias camadas da sociedade”, o Alvaro completa.
IAfluencers
Aqui na YOUPIX a gente já falou sobre os creators feitos por IA, que são incansáveis – literalmente – porque podem trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem parar pra comer ou dormir. É o caso do italiano Khaby, que vendeu sua “alma virtual” por cerca de 1 bilhão de dólares.
Mas o Alvaro, que tem como tema de pesquisa os gurus da IA no LinkedIn, explica que propôs uma ressignificação do termo “IAfluencer” pra rotular essa galera que mobiliza muita gente entorno do assunto. Ele justifica que, do mesmo jeito que os BookTubers não são feitos de livros, vale a gente aplicar esse raciocínio para os “profs” de IA.
Vale lembrar, mais uma vez, da fala do Jim Louderback (o “pai” da Creator Economy) no SXSW deste ano, explicando que o que vai destacar os creators humanos dos conteúdos de IA, daqui pra frente, é justamente a autenticidade. Ressaltar nossas imperfeições vai ser um método cada vez mais eficaz de gerar identificação no público. O Jim também alerta que já é impossível competir com os conteúdos de IA em volume, então se você aumentou o número de posts achando que ia resultar em alguma coisa, desiste porque isso é dar murro em ponta de faca. O lance não é a quantidade, mas a qualidade.
E, se o medo do creator nem passa por ter menos seguidores do que um creator artificial, mas sim em não conseguir fazer renda porque precisa comer e descansar, enquanto tem um creator de IA vendendo produtos em lives 24 horas por dia, a Rosana Hermann é quem tranquiliza:
“Tem influenciador com o poder de fazer você desejar o que ele propõe,
e isso IA nenhuma tem como reproduzir.”
A inteligência artificial pode reproduzir discursos humanos, ou inventar falas e diálogos que parecem ser humanos. Mas rapidinho a gente consegue diferenciar o que é real e o que é robô. Se você é um creator que trabalha com afiliados, por exemplo, não se preocupe: o seu poder de convencimento, de mostrar como aquele produto pode ser útil na vida de outro ser humano, segue sendo o seu diferencial. O clichê “seja você mesmo” nunca foi tão verdadeiro.
Por fim, não adianta se desesperar. Do mesmo jeito que tem luz elétrica na sua casa inteira e até no seu bolso, por onde você anda, a IA vai entrar com força na nossa vida – já tá presente em jeitos que você mal percebeu ainda. Por isso, melhor é entender e dominá-la, do que o contrário. Apaga essa vela e bora estudar.