
Para nós, criativos que vivemos de criar narrativas, Cannes é um briefing complexo. Sabe a publi que precisa ter no máximo 90 seg, ser orgânica, criativa, natural, na sua linguagem mas com 3 páginas de briefing e umas 30 informações que pre-ci-sam ser passadas? Usando da minha liberdade criativa, escolho um ponto de destaque do segundo dia de festival:
“Toda vez que mudam o meio de produção, declaram a morte da arte”
Tessa Lyons, VP de produtos do Instagram e uma das responsáveis pelo algoritmo que vivemos tentando entender, abriu a que foi uma das conversas mais interessantes que vi, relembrando que a criatividade precisa de três elementos:
– uma pessoa com uma ideia,
– os meios de produzi-la,
– os meios de distribuição do conteúdo.
Contou a curiosa história de como Monet criou o “salão dos recusados” para abrigar as obras de artistas que não passavam pela curadoria do Salão de Paris, que durante 200 anos decidiu de certa forma quem era ou não artista de forma totalmente arbitrária.
Hoje, sabemos que um celular com internet e um sonho podem criar impérios.
“Quando os portões da distribuição caem, são artistas autênticos que decidem o que é criatividade”. Assim, ela chamou ao palco Daniel Arsham, artista americano que já colaborou com marcas do mundo todo e cujo trabalho explora a relação do clássico com o futurista.
Nos anos 2000 ele reproduziu uma galeria parisiense em tamanho real no seu estúdio em Miami, usando cartolinas e papéis, para impressionar o dono da galeria e mostrar como suas obras ficariam se lá fossem selecionadas por ele para serem expostas. Hoje, consegue usar a tecnologia para ir além e pensar em toda experiência que o público terá em uma exibição fazendo-a virtualmente, planejando assim surpresas e uma jornada sensorial.
Ao falar sobre a relação entre processo criativo e inteligência artificial, relembrou o mito de Prometeu, onde o fogo é o presente e a maldição ao mesmo tempo. E foi além: ele pode usar a IA para fazer modelos, mas nenhum modelo artificial vai conseguir reproduzir justamente a imperfeição que reside nos seus traços à lápis, por exemplo.
Talvez seja justamente aí que esteja a grande questão da criatividade na era da inteligência artificial. A IA pode ajudar a estruturar um roteiro, organizar ideias, sugerir referências, acelerar processos e até gerar versões quase infinitas de uma mesma execução. O que ela não consegue replicar é aquilo que faz uma ideia tocar alguém: repertório, sensibilidade, contradição, vulnerabilidade compartilhada.
Quando comecei o texto falando sobre a liberdade criativa de criadores, é exatamente sobre isso. Ferramentas podem ser compartilhadas por todos e até usadas a nossa favor, ajudando a dar conta de um briefing com informações demais. Num mar de prompts, fatores como carisma e autenticidade podem ser botes salva vidas criativos.
Prometeus entregou o fogo à humanidade. A Inteligência Artificial pode parecer representar o fogo-castigo na fala de Ashram, mas, pelo que temos visto e ouvido por aqui, até mesmo nos debates do júri da categoria Titanium, não representa perigo para criação das narrativas, pois é uma chama acesa com a fagulha das ideias humanas.
Fernando Sahb é fundador e CEO da Marê, agência de talentos e estratégia especializada em projetos especiais na creator economy. Com mais de 12 anos de experiência em marketing, conteúdo e influência, construiu sua trajetória passando pela Globo, pelos Jogos Olímpicos Rio 2016, pela Galeria.ag e pela C&A.