Como uma Produção Canadense de Nicho se Tornou a Maior Exportação da HBO em 2026
Por: Fabi Froes

No final de novembro de 2025, meu feed do Instagram começou a ser sequestrado por prints de tweets que falavam de uma série nova que supostamente era o meu número. Um dos perfis que mais interajo trocou do monotema “Maxton Hall – O Mundo entre Nós” do Amazon Prime Video, para o monotema “Heated Rivalry”.
Como alguém que tem largado sem pudor todos meus dados de preferências desde 2012 para o próprio Insta, meu feed sabe o que eu quero antes mesmo de mim. Ele já sacou que sou consumidora voraz deste gênero extremamente viciante de conteúdo, que não é mainstream à toa. Obras audiovisuais, ou literárias, que tem uma trama com poucas variações do mesmo tema sem sair do tom: de inimigos a amantes, triângulos amorosos, muitas vezes envolvendo irmãos, comédias românticas com tom de ironia dos protagonistas. Quando logo em qualquer um dos mais de 5 serviços de VOD aqui em casa, meu perfil é um cardápio infindável de análises combinatórias desses poucos tópicos.
Mas o que diferencia um show para que ele consiga sair do poço de milhares de outros enterrados dentro das profundezas dos serviços de streaming que não param de surgir das frestas das alternativas de distribuição de conteúdo? Atores famosos ajudam, claro, produções bem feitas, fotografia se o público exige algo mais refinado e atualmente os seriados baseados em livros parecem ter tido um apelo especial. A migração de uma audiência que já lê parece ser bem orgânica para algo mais passivo como assistir à obra audiovisual nascida de uma história que já cativou. Ainda assim, é muito difícil se diferenciar para alcançar uma audiência que tem tanta opção. É aí que entra o que vem sendo construído no cenário da indústria e da sociedade junto com o molho em cima da análise combinatória de uma história bem contada.
Em 2018 fui ao Web Summit em Lisboa e assisti à palestra do Greg Peters, então CPO da Netflix, que explicou como a tecnologia estava ajudando a Netflix a compartilhar as histórias do mundo. Na época o fenômeno global era a Casa de Papel e seu case de como uma série espanhola, que era uma produção de uma emissora local e já tinha sido lançada há alguns anos, foi redividida em episódios menores e lançada no catálogo conquistando o mundo mesmo sem ser falada na língua de Hollywood. Ele explicou que uma boa história não tem barreiras de língua se tivermos as ferramentas para torná-la acessível, enfatizando a importância da dublagem para democratizar esse acesso. A tendência de Casa de Papel virou uma chave importantíssima para outros serviços seguirem essa linha de conteúdo que não ficava na caixa da língua inglesa ou eram americanos, quebrando um dos paradigmas mais arraigados no consumo audiovisual ocidental. Mas o que isso tem a ver com “Heated Rivalry”, que inclusive, é em inglês?
Provavelmente você, assim como eu, nunca tinha ouvido falar do serviço de streaming canadense Crave, mas eles são a distribuidora exclusiva de todo o catálogo da HBO (como Game of Thrones e The Last of Us) em território nacional. A relação entre a Crave e a HBO é única devido a um acordo de “mão dupla” que existe entre a Bell Media (dona da Crave) e a HBO, que até 2025 era Warner Bros. Discovery. A decisão de transformar “Heated Rivalry” em série foi um movimento estratégico que uniu o enorme sucesso orgânico dos livros a uma visão artística muito clara de como adaptar o gênero de romance para a TV moderna. E para mim o pulo do gato: a Crave ter tido a coragem de bancar uma adaptação fiel que outros serviços maiores poderiam ter “higienizado”. Se antes a grande quebra de paradigma foi a barreira da língua, agora foi de entregar um romance extremamente bem construído e com todos os tons de sexualidade do que vejo nas séries de sucesso do mesmo modelo com casais heterossexuais. Voltamos a nós precisarmos contar boas histórias e elas não vão estar sempre nas mesmas caixinhas.
O projeto começou quando Jacob Tierney (o diretor) ouviu a série de livros Game Changers em audiolivro em 2023. Ele ficou fascinado pela forma como Rachel Reid usava o sexo não apenas como entretenimento, mas como ferramenta de desenvolvimento de personagem. Tierney entrou em contato com a autora em agosto de 2023. No início, ele hesitou sobre se algum streaming aceitaria a história mantendo o conteúdo explícito dos livros, mas percebeu que, se removesse a intensidade sexual, a história de Shane e Ilya, os dois protagonistas, perderia sua essência. A base de fãs de Rachel Reid foi um fator decisivo. Quando Tierney e o produtor Brendan Brady apresentaram o projeto à Crave, eles notaram que os executivos já conheciam o material e sabiam do potencial viral. O projeto foi do papel à tela em menos de dois anos.
O diretor trouxe para a série uma estética que mistura o realismo “sujo” dos vestiários e arenas com a cinematografia romântica e íntima dos encontros secretos de Shane e Ilya. Ele foi o responsável por escolher Hudson Williams (Shane) e Connor Storrie (Ilya). Ele conta em entrevistas que os testes de química foram feitos via chamada de vídeo e que a conexão entre os dois foi instantânea. O diretor trabalhou próximo a Chala Hunter (coordenadora de intimidade) para garantir que as cenas sensuais fossem “uma extensão do diálogo”, algo que se tornou a marca registrada da série.
A trilha sonora, que em parte foi desenvolvida para a obra, é fundamental para ajudar o público a construir os sentimentos que vão se desenvolvendo na tela. Isso somado a química dos dois atores que entregam as personalidades tão díspares dos personagens com as suas próprias e entre eles e a maneira que se costura o sentimento entre os dois é o molho na audácia da Crave e dos produtores e diretores. Você sente o que Ilya e Shane sentem, e se não sente, deve estar morto. Fiquei chocada quando descobri que o ator Connor Storrie não é russo — imagino que não tenha sido surpresa para os russos, tanto quanto Wagner Moura devia soar muito brasileiro interpretando o colombiano Pablo Escobar para um nativo. Já Hudson Williams é a pessoa mais extrovertida em aparições públicas em contraponto com seu personagem extremamente tímido e que a autora já confirmou estar no espectro autista. E se comecei com: ok, isso parece o limite de um pornô gay, no final do primeiro episódio já estava completamente entregue ao que os dois estavam vivendo e sentindo.
Tenho certeza de que existem outras séries que têm abordagens parecidas e mais inclusivas, mas quantas conseguem mexer de fato com as entranhas de uma gama tão complexa de seres humanos, incluindo uma hetero completamente padrão que já passou dos 40 anos? Os números não deixam mentir, ela tornou-se a série adquirida (não original da HBO) com a maior audiência da história da HBO Max, superando dramas internacionais de alto orçamento. No Canadá, é atualmente a série original número 1 da Crave. A série mantém um índice de 96% de aprovação no Rotten Tomatoes, o que impulsionou sua renovação precoce para a 2ª temporada sendo que o 5o episódio, impecável por si só, tem uma pontuação de 99% no IMDB. No Brasil teve estreia explosiva em fevereiro figurando em 3o lugar, entre os 5 primeiros na maioria dos países da América Latina e entre os 10 em mercados como Alemanha, França e Reino Unido. Na Rússia, apesar de não ter lançamento oficial devido às restrições legais e sanções, a série alcançou a nota 8.6 no Kinopoisk, tornando-se a produção estrangeira com a maior nota histórica dos usuários no país através de meios alternativos de consumo.
Sempre penso nas mil construções que são necessárias para sermos disruptivos socialmente a ponto de isso se refletir em padrões de consumo. No final da década de 1990, a Warner Bros tinha o primetime mais concorrido da TV americana emplacando a maioria dos shows de maior audiência em especial entre o público jovem, e exibia a minha séria favorita da vida: Dawson’s Creek, relembrada recentemente pela morte prematura do ator James Van Der Beek em janeiro deste ano após uma longa batalha contra um câncer. Um dos personagens do núcleo principal, Jack Mcphee, se assumiu gay no meio da segunda temporada. Ele não era o gay que estávamos acostumados a ver na TV, ainda mais em um seriado adolescente. Jogador de futebol americano, sem trejeitos femininos, sem ser coadjuvante da vida da melhor amiga, com um arco narrativo claro e próprio.
Jack McPhee precisou andar para que Shane e Ilya pudessem correr, porque ele protagonizou o primeiro beijo gay ‘apaixonado’ do horário nobre dos EUA no final da 3ª temporada, que foi ao ar em 24 de maio de 2000. Esse momento histórico e inovador para a representação LGBTQ+ aconteceu quando o Jack confessou seus sentimentos. Não dei spoilers até aqui, mas fiz uma associação direta com outro personagem de “Heated Rivalry” que serviu de representatividade para os dois protagonistas na metonímia que esse show tem de si para o mundo. Eu fiz 16 anos no dia 23 de maio do mesmo ano, e a maneira que “Dawsons Creek” abordava esse assunto e muitos outros da adolescência, provavelmente ajudou a moldar muitos dos meus valores desde então. Não acho que é coincidência a WB estar por trás da HBO durante tanto tempo assumindo o papel de exportar esse tipo de conteúdo pro mundo desta maneira. E o quão necessário é todo esse assunto num momento como o protagonizado semana passada pelos os times feminino e masculino de hóquei dos EUA junto com o presidente Trump levantando a bola de como os esportes tradicionalmente percebidos como mais masculinos ainda são tão misóginos, machistas e claro, homofóbicos. Até hoje não tem nenhum jogador fora do armário dentro da NHL (liga nacional de hóquei – EUA e Canadá).
Neal Mohan, CEO do YouTube, deu uma entrevista para o podcaster Matt Belloni em maio de 2025 para discutir entre outras coisas o relacionamento do YouTube com Hollywood. Matt é um host duro e tentou enquadrar o executivo com algumas perguntas que buscavam um quote belicoso com relação a um concorrente. Matt trouxe uma declaração dada por Ted Sarandos, atual co-CEO da Netflix junto com Greg Peters, sobre como serviços de streaming como a Netflix são onde as pessoas assistem conteúdo de entretenimento e serviços como YouTube são onde elas perdem tempo. Neal responde calmamente: quem seria ele para categorizar a maneira como as pessoas usam o tempo delas? O YouTube veio com a missão de dar a todos uma voz, e são incontáveis as vozes de diversidades que acharam um lugar para brilhar e serem achadas nesses mais de 20 anos de plataforma.
No fim, quantas peças são necessárias para surgir um fenômeno disruptivo? As vozes que foram dadas, as mudanças de paradigma de onde, em que língua e por quem uma história pode ser contada em um mundo que vem sendo lapidado por todas essas micro mudanças que numa pilha viram a mudança real. Só aqui remontei a maio de 2000, mas o GPS da humanidade está sendo recalculado o tempo todo pelos ajustes de rota que estão acontecendo por todos os lados e desde sempre, que fez esta história em específico ser contada, encontrada, consumida e ser o fenômeno atual.
Fabi Froes trocou o jornalismo tradicional pela revolução do YouTube, onde atua há mais de uma década entre parcerias e RP de crise. Autora de “Mediocridade: Crônicas de uma Mãe Millennial em Busca do Ordinário”, Fabi é mãe, corredora nas horas vagas e colecionadora de carimbos no passaporte. Entre um café e uma Coca Zero, busca o equilíbrio entre o caos do Vale do Silício e o prazer despretensioso de um projeto DIY.